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Revista Veja de 07/01/02 |
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Do
mesmo lado: Violência diminui quando Polícia Militar atua em parceria com
comunidade 7/1/2002
Maio
de 2000 - Cerca de 100 moradores da favela Pavão-Pavãozinho, na zona
sul do Rio, descem o morro para protestar contra a violência policial. Ônibus
e carros que passam à noite pelas ruas próximas, em Copacabana, são
depredados com paus e pedras. As portas das lojas são forçadas a pontapés
e pauladas. O motivo da revolta foi o confronto entre a PM e os traficantes
do local, que resultou na morte de cinco pessoas. Segundo a polícia, todas
as vítimas eram traficantes. Os moradores do morro desmentem. Dezembro
de 2001 - Moradores do Pavão-Pavãozinho e da vizinha favela do
Cantagalo participam de reuniões com representantes da Polícia Militar,
instalada no local há um ano e três meses. Líderes comunitários e a PM
agora decidem em conjunto a estratégia de policiamento. Com isso, o número
de homicídios nas duas favelas baixou a zero, e não se vêem mais
traficantes armados passeando pelas vielas. "A polícia passou a
respeitar a gente, nos sentimos mais seguros", elogia Luiz Bezerra,
vice-presidente da Associação de Moradores do Cantagalo. O
contraste que salta aos olhos entre os dois momentos das favelas do Pavão-Pavãozinho
e do Cantagalo iniciou no momento em que o Grupamento de Policiamento em Áreas
Específicas (Gpae), da PM do Rio, começou a atuar no local. No início, os
policiais, sob o comando do major Antônio Carlos Carballo, eram vistos
pelos moradores como inimigos que agrediam inocentes e facilitavam o comércio
dos traficantes em troca de propina. Hoje, os 118 PMs são respeitados por
boa parte da comunidade. Para isso, os soldados receberam noções de
direitos humanos, relacionamento interpessoal, filosofia do policiamento
comunitário e história das comunidades populares. "Meus objetivos são
a preservação da vida e a garantia dos direitos individuais, mas sem abrir
mão da ação policial repressiva", explica Carballo. Tarefa difícil.
"Tive de afastar cerca de 60 soldados. Alguns pegavam drogas com os
traficantes para consumo próprio ou para vender", conta. Nos nove
meses que antecederam ao início da atuação do Gpae ocorreram dez homicídios
nas duas favelas. Desde setembro de 2000, nenhum caso foi registrado.
Iniciativas
como essa, que procuram aproximar o policial da comunidade, já existem em
14 Estados. Desde 1993, o Espírito Santo conta com a Polícia Interativa,
atendendo a 70% dos municípios. Em Santa Catarina, mais de sete mil
soldados já foram treinados para essa interação. Em São Paulo, há uma
experiência de parceria entre polícia, moradores e empresários em 42
Bases Comunitárias de Segurança. Cerca de 16 mil oficiais e praças já
passaram por cursos multiplicadores ou estágios de polícia comunitária. Não
se tem a ilusão de que apenas essas iniciativas possam reverter o triste
quadro da segurança pública no País, até porque as condições sociais
que fazem aumentar a criminalidade continuam as mesmas. Mas, a julgar por
essas experiências localizadas, é possível recriar o perfil das polícias
e voltar a encarar esses homens como autoridades parceiras do cidadão, e não
mais como bandidos fardados. Mas
o coronel da reserva da PM José Vicente da Silva Filho, pesquisador do
Instituto Fernand Braudel, de São Paulo, faz um alerta: dar aos policiais
noções de cidadania e direitos humanos não é suficiente para baixar os
índices de criminalidade. "Fizemos uma pesquisa que acompanhou a
experiência paulista de policiamento comunitário e constatamos que nessas
áreas a violência cresce menos, mas não deixa de crescer", afirma. O
coronel diz que é necessário também qualificar o policial para uma atuação
estratégica, baseada em estatísticas, e não em mera improvisação. Ele
destaca que as condições de trabalho e a remuneração dos policiais são
muito ruins. "Os soldados ainda são submetidos aos desmandos da
hierarquia militar. Esses fatores acabam levando os policiais a resistir aos
esforços de humanização", avalia. A
cientista política Reginete Bispo, diretora do Departamento de Recursos
Humanos da Secretaria de Justiça e Segurança Pública do Rio Grande do
Sul, acredita na eficácia das experiências que envolvem os policiais na
defesa da cidadania. Desde 1999, ela desenvolve com integrantes da PM gaúcha
um trabalho em que passa aos soldados matérias como antropologia, direitos
humanos, abordagem sócio-psicológica da violência e história dos
movimentos sociais "Os policiais estão abandonados à própria sorte.
Quando assumimos, encontramos homens completamente despreparados para esse
quadro de complexidade social", diz ela. Reginete aposta que esse
trabalho de humanização seja mais importante do que a aquisição de
novidades tecnológicas. "Um policial munido de alta tecnologia e que não
sabe o que fazer com ela é muito perigoso. Por isso, precisamos cuidar do
homem." Enquanto a criminalidade continua crescendo empurrada pela
exclusão social, representa um alento a mera perspectiva de que a polícia
possa voltar a estar - de verdade - ao lado do cidadão. Francisco Alves Filho |
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