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A
FARSA DA UNIFICAÇÃO
Rodrigo Pimentel
A
mais recente crise da Segurança Pública no país – desencadeada não
pela onda grevista das corporações civis e militares, como em 1997 e 2001,
mas pela crescente onda de violência no estado de São Paulo – fez
ressurgir, em ano eleitoral, o debate sobre o nosso sistema policial. Como
era de se esperar, houve troca de acusações entre os poderes da união
sobre as responsabilidades da crise e ainda se falou em votações em regime
de urgência no Congresso Nacional. Foi eleita como bode expiatório e
principal motivo da falência dos órgãos de segurança a existência de
duas polícias estaduais.
Segundo pseudo-especialistas a unificação das
polícias civil e militar, traria a eficácia e o dinamismo necessários
para o combate ao crime nas grandes cidades. Outros insistem em afirmar que
o modelo policial brasileiro de tão absurdo é exclusivo no mundo. Com
certeza desconhecem que na Bélgica , França, Itália, Grécia, Luxemburgo,
Portugal, Espanha, Áustria, Vietnã, Marrocos, México e em tantos outros
países, polícias fardadas militarizadas convivem com polícias judiciárias
civis, em perfeita harmonia. Como curiosidade, na pequena Bélgica existem
mais de 2.500 corpos policiais municipais integrados aos dois corpos de Polícia
Nacional. É prudente lembrarmos que uma unificação tornaria as polícias
militares organizações civis e logo o conjunto de leis e regulamentos a
que se sujeitam os policiais militares deixariam de existir.
A menos de duas semanas moradores de uma favela
carioca queimaram carros e um ônibus em protesto contra policiais militares
que, segundo eles, haviam seqüestrado um líder do tráfico local. Antes de
se iniciar qualquer investigação o governador do Rio de Janeiro determinou
a prisão, por 72 horas, de cinco policiais militares, apontados pelos
moradores como responsáveis. Mesmo que os policiais não tivessem praticado
nenhum crime o regulamento militar permitiria a prisão disciplinar por até
trinta dias. Este mesmo procedimento nunca teria sido adotado se os
policiais em questão fossem civis.
Basta lembrarmos as cenas mostradas
recentemente em horário nobre pela rede Globo quando policiais do Denarc,
polícia civil paulista, extorquiam traficantes e viciados num local
conhecido como Cracolândia. Ficou evidente nos dias que se seguiram
a impotência do executivo estadual em apresentar respostas ao clamor público
que cobrava alguma providencia em relação aos policiais. Um processo de
exclusão disciplinar na Polícia Civil pode durar até 10 anos, na policia
Militar pode ser feito em menos de 30 dias. Ou seja os mecanismos de
controle governamental são muito mais eficientes nas corporações
militares do que nas civis. Agora imaginem a força de uma Confederação
Nacional de trabalhadores em segurança pública na época do dissídio da
categoria. A reunião de todos os sindicatos nacionais somaria mais de 550
mil filiados, o que hoje não ocorre pois a sindicalização é proibida aos
militares.
A pressa em acharmos uma solução simplista
para um problema tão complexo como a crise na segurança pública pode
transformar nosso sistema policial, que logicamente não é perfeito, em
algo imprevisivelmente caótico. Para que se entenda o quanto é difícil
unificar corpos policiais vejamos o exemplo da França onde a estatização
das polícias municipais demorou quase um século, porém ainda coexistem
naquele país duas polícias e o poder dos interesses corporativos e diferenças
ideológicas existentes hoje na Gendarme (militar) e na Polícia Nacional
(civil) é tamanho que nenhum governo arrisca-se a unificá-lo.
Certamente uma polícia única traria eficácia
maior com menos custos ao contribuinte porém o resultado duvidoso desta união
ainda é um risco desnecessário corrermos . A solução reside numa gradual
integração, começando com a subordinação das Polícias Militares aos
secretários de segurança pública estaduais, pode parecer incrível, mas
em alguns estados do país isto não ocorre – como é o caso de Santa
Catarina. Em outros estados a integração já é uma realidade com
academias de formação e centro de operações unificados, como o caso do
Pará, onde policiais militares dividem os espaços nas delegacias com seus
colegas civis.
No Rio de Janeiro a demissão do Coordenador de
Segurança Luiz Eduardo Soares, mentor da integração carioca, diluiu
qualquer chance de avançarmos neste campo, que aliás exige coragem e
determinação política. A simples idéia de integrar órgãos de segurança
irá gerar todo tipo de resistências e sabotagens ao processo, pois em
ambas corporações existem lideranças que temem perder poder e prestígio.
Felizmente, porém, não reproduzem a vontade da grande maioria dos
policias, que são favoráveis às transformações.
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