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O crime quer calar
a sociedade
HUMBERTO
TREZZI
Completam-se
neste domingo sete dias do desaparecimento de um dos mais
experientes e premiados repórteres brasileiros, Tim Lopes.
O
jornalista da Rede Globo sumiu na Vila do Cruzeiro, no Rio, onde
tentava flagrar com uma câmera oculta meninas que consomem droga e
fazem sexo com traficantes em um baile funk. O desaparecimento de
Lopes, atribuído ao narcotráfico, denuncia um novo estágio de
abusos do crime organizado.
Depois
de tomar o poder nos morros cariocas, de montar estruturas de corrupção
com tentáculos por toda a sociedade e de enfrentar a polícia como
a um exército inimigo, o narcoestado em vigor no Rio promove um
ataque contra a liberdade de expressão, numa tentativa de calar a
população e seu porta-voz, a imprensa.
As
pistas colhidas pela Polícia Civil indicam que Lopes foi torturado
e incendiado até a morte, ao ser descoberto pelos criminosos.
Desapareceu no cumprimento do dever, durante a apuração de uma
reportagem. O esclarecimento do caso é uma exigência de
jornalistas e entidades de imprensa que na sexta-feira realizaram um
protesto na Cinelândia, centro do Rio.
–
Este fato muito nos preocupa, visto que consiste em grave ameaça à
liberdade de imprensa. É hora de o governo demonstrar a real intenção
e a coragem de enfrentar os Estados paralelos, que submetem
especialmente as comunidades carentes à humilhante condição de
prisioneiros de uma guerra suja e descontrolada – afirmaram, em
nota conjunta, o Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Município
do Rio de Janeiro e a Associação Brasileira de Imprensa (ABI).
Tim
Lopes teria sido atraído a uma armadilha por moradores ligados aos
bandidos, com o argumento de que poderia registrar cenas inéditas
de aliciamento de menores para o crime. Os traficantes estariam se
vingando da reportagem Feira de Drogas, do ano passado, que
registrava o tráfico e o porte de armas pesadas por parte da
quadrilha que controla a mesma região onde o repórter desapareceu.
A
jornalista Cristina Guimarães, que participou da reportagem Feira
das Drogas (ganhadora do Prêmio Esso de TV no ano passado) com Tim
Lopes, diz que os traficantes conheciam bem o repórter. Ela contou
a ZH que um operador de câmera da TV Globo foi seqüestrado por
traficantes para informar a identidade de cada um dos autores da
reportagem, que revelou os bastidores do narcotráfico no Complexo
do Alemão (onde está situada a Vila do Cruzeiro). O seqüestro é
confirmado por Flávio Fachel, outro participante da investigação.
Traficantes também teriam oferecido R$ 20 mil por informações
sobre os autores das denúncias.
–
Eu me demiti, escapei e estou morando no Exterior, exilada e com
proteção. O Lopes optou por continuar e voltou à mesma área na
qual fizemos a reportagem, onde acabou reconhecido, torturado e
morto – comenta Cristina.
O
desaparecimento de Tim Lopes é preocupante por ocorrer em pleno
regime democrático. Um dos raros casos desse tipo até então é o
assassinato de Mário Eugênio, radialista de Brasília, executado
em 1984 por uma gangue composta de traficantes e policiais que ele
denunciara. Os autores da morte foram presos e condenados. Nelson
Hoineff, um dos mais experientes diretores da TV brasileira,
sintetizou, em artigo no Jornal do Brasil, as razões pelas quais o
repórter da Globo foi convertido em alvo.
–
Repórteres como Tim Lopes acabaram se tornando os mais eficazes
instrumentos de defesa de uma sociedade carente de qualquer outro
tipo de proteção. Jornalistas tornaram-se mais confiáveis do que
a polícia ou mais rápidos do que a Justiça. Em meio à corrupção
deslavada dos poderosos, prestam serviços insubstituíveis à
cidadania.
Apesar
do recado ameaçador enviado pelos traficantes, setores da imprensa
já adiantaram que não vão se intimidar.
–
Em nossa profissão, a palavra medo não pode existir. Vamos
continuar cobrindo o tráfico de qualquer maneira. Eles não vão
nos calar e nos impedir de informar a população – garantiu o
presidente do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Rio, Nassif
Elias.
A
favela onde Tim Lopes sumiu é comandada por Elias Pereira da Silva,
o Elias Maluco, integrante do Comando Vermelho e um dos 10 mais
procurados pela Justiça fluminense. Um telefonema recebido pelo
serviço de Disque-Denúncia da Polícia Civil, a cujo conteúdo
Zero Hora teve acesso, relata em detalhes como teria sido a morte de
Lopes.
Conforme
o informante, o repórter foi surpreendido portando uma microcâmera
e amarrado por cinco traficantes, que o conduziram pela rua
principal da favela e o espancaram diante dos moradores. Depois,
segundo o mesmo relato, amordaçaram-no e o levaram aos empurrões
para uma caverna no alto do morro, onde foi novamente torturado. Os
bandidos teriam amarrado tecidos de fibra de vidro ao corpo de
Lopes, colocado o jornalista dentro de pneus e ateado fogo, enquanto
ele ainda estava vivo. O procedimento é chamado pelos traficantes
de “microondas”.
Policiais
realizaram durante a semana buscas no morro onde Lopes desapareceu.
São esperados resultados de exames de DNA em ossadas encontradas no
bairro, para verificar se pertencem ao repórter.
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