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Manuscritos de
sem-terra orientam a “revolução”
Documentos
apreendidos pela polícia mostram o planejamento e o objetivo das
invasões
HUMBERTO
TREZZI
Empresários,
partidos de “direita”, Judiciário, seitas evangélicas e
sindicatos “pelegos” defendem os ricos. Camponeses, partidos de
“esquerda”, o MST e centrais sindicais como a CUT defendem os
pobres.
A
lição está na página marcada com a data de 25 de março, numa
agenda apreendida pela Polícia Civil em poder de integrantes do
Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) que invadiram a
Cabanha Santa Bárbara, em São Jerônimo, em 12 de abril. O diário
estava com um dos sem-terra detidos pelos policiais na saída da
fazenda.
A
doutrinação era um dos atos preparatórios para a invasão,
consumada poucas semanas depois de a “análise de conjuntura e
modelo econômico” ter sido descrita pelo sem-terra, na agenda. Um
total de oito diários, agendas e manuais apreendidos com
integrantes do MST durante a invasão da Santa Bárbara faz parte do
inquérito que apura os crimes ocorridos na fazenda. A existência
das cartilhas foi revelada pelo repórter Giovanni Grizzotti, da Rádio
Gaúcha. Nesta reportagem, Zero Hora aprofunda o conteúdo das
agendas.
O
material é um mostruário de como se organizam e se consolidam
invasões. E o pesadelo de qualquer um que tema rupturas revolucionárias.
Um dos diários louva o projeto socialista de Cuba e aponta que 150
estudantes do MST estão fazendo um curso na ilha governada por
Fidel Castro. Uma agenda com impressos da direção do MST, de
circulação nacional, tem retrato de corpo inteiro de Che Guevara e
recomenda que os sem-terra se inspirem na mística do comandante de
guerrilhas.
–
Não há fronteira nessa luta de morte. A vitória nossa ou a
derrota de qualquer nação engajada é a vitória e a derrota de
todos – destaca a agenda, parafraseando o argentino executado na
selva boliviana em 1967.
As
investigações da Polícia Civil prosseguem. O delegado João
Carlos de Mendonça, de São Jerônimo, diz ter provas para indiciar
quatro invasores por dano e furto. Entre eles, um ex-soldado da BM,
que seria o dono de 21 cartuchos de munição de revólver
apreendidos em um Gol usado por seis integrantes do MST que deixavam
a fazenda. O ex-soldado não foi localizado por ZH – tampouco pela
polícia – para falar sobre o assunto.
Hinos
e Cuba
A
preparação para a “revolução” ocupa diferentes páginas das
agendas, como a que fala em “método revolucionário de direção”.
Na página de 31 de agosto de 2001, uma agenda reproduz trechos de cânticos
que devem ser entoados “para manter a mística” da militância.
Um dos trechos salientados:
“Nova
revolução. Povo organizado, povo sofrido/ que vive lutando, que
acredita em gritos/ e cantos vencendo os canhões/ Quem é este
povo/ que traz, lembrando heróis/ o cântico novo da Revolução?/
É o Sem Terraaaaa, o Sem Terraaaaa (refrão).
Outra
página descreve uma Cuba idílica e culpa os russos por seu
empobrecimento:
“Em
Cuba, de Fidel e “Tche” Guevara, existe um projeto socialista
para atendimento do pobre, sem lucro financeiro. Hoje existem
aproximadamente 150 estudantes do MST em Cuba. A União Soviética
cortou relações com Cuba quando deixou de ser socialista, o que
tornou Cuba mais fraca.”
Planejamento
Em
9 de abril, três dias antes da invasão da Cabanha Santa Bárbara,
a agenda de um militante anota as expressões:
–
Fazer a ação, sem local, sem saber o tipo. Formar a equipe. Reunir
a direção. Apareceu um arrendatário e temos de invadir a fazenda,
para entrar na disputa pela área.
“Usar
a mídia”
Uma
agenda ensina o receituário para se tornar um militante sem-terra:
–
Usar a mídia a nosso favor (no momento certo).
–
Disposição para ações: ocupar latifúndios, prédios públicos,
rodovias.
–
Cortar matos, derrubar cercas.
–
Fazer o enfrentamento, resistir.
Num
manual intitulado Normas Gerais do MST, de capa vermelha, podem ser
lidas outras regras:
–
Quem desobedecer normas fica seis meses sem bebida alcoólica (num
dos trechos, é descrito como um militante foi punido com duas horas
de guarda, por “chutar as bolinhas” de outro sem-terra).
–
A comissão de segurança é encarregada de avaliar mau
comportamento, falta de responsabilidade, autoritarismo, provocações,
desrespeito com mulheres e casos de bebedeira.
–
Na hora da prestação de contas, relatar todos os gastos, menos com
bebida e cigarros. As notas devem ser retiradas pela AECA (que seria
uma entidade que ministra cursos dos sem-terra).
Pobres
e ricos
A
mesma agenda que fala como “usar a mídia” diz, em página
datada à mão com o dia 25 de março, como o mundo está
“dividido”. A folha está repartida ao meio por uma linha que
simula uma cerca de arame farpado. Num lado, intitulado “Projeto
dos Pobres”, estão listados PT, PC do B, PSB, PCB, PV, CUT, Fetag,
MPA, MMTR e a expressão “construir um país juntos”. No outro,
“Projeto dos Ricos”, estão PMDB (Simon), PFL (Onyx), PTB (Zambiazi),
PPB (“Selso” Bernardi e Maluf), PSDB (Vicente Bogo), PPS (Britto
e Ciro), Fiergs, Farsul, “sindicatos pelegos”, Judiciário,
deputados de direita, prefeitos de direita e seitas religiosas. Em página
seguinte, na coluna Projeto dos Ricos estão alinhados os dizeres:
“apenas 5% de agricultores no campo, monocultura, 11 milhões de
sem-terra, transgênicos, mecanização, produzir para exportar,
privatizações e 51 milhões de indigentes”
Metade
do salário
Numa
das agendas é relatado o esquema de recolhimento de “contribuições”
para o MST. É citado o exemplo de uma cooperativa, a Coopertchê,
que lida com safristas contratados para a colheita da maçã em
Vacaria.
O
contrato é por 60 dias, e eles recebem R$ 12 por dia. Destes,
metade vai para o MST, conforme a agenda, que discrimina a contribuição:
parte será usada para cobrir despesas administrativas da
cooperativa, parte para Cofins, para PIS, para Imposto de Renda,
sendo R$ 2,63 efetivamente para o MST.
Cheques
em branco
Cheques
em branco em nome do ex-soldado PM Valdoir Antônio Lacerda da Silva
foram apreendidos no carro ocupado por integrantes do MST e retido
pela Polícia Civil ao final da invasão da Santa Bárbara. Os
canhotos dos cheques estavam preenchidos com a sigla MST. No mesmo
carro foram apreendidas munição de revólver, que os sem-terra
disseram pertencer ao ex-soldado.
Os
policiais civis requisitaram à BM a lotação do soldado –
acreditavam que estivesse na ativa – e sua apresentação para
depoimento – mas não obtiveram resposta oficial.
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