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Rebelião
tecnológica
Egberto
Nogueira
Na
noite de domingo, um homem alto vestido com camisa xadrez ficou por pelo
menos seis horas parado em frente à Penitenciária do Estado – umas das
unidades que integram o Complexo Penitenciário do Carandiru, em São Paulo.
Tinha um celular nas mãos. Ora de pé ao lado de uma lata de lixo verde,
ora sentado em um carro estacionando diante de um posto de gasolina, do
outro lado da rua, ele acompanhava em tempo real os bastidores da rebelião
em massa que sacudiu 24 presídios em 19 cidades de São Paulo, durante 26
horas (leia texto abaixo). A cada vez que o aparelho tocava, ele era
comunicado de como estavam as coisas. Do outro lado da linha, líderes da
rebelião passavam seus informes, como se fossem funcionários de sucursais
de algum grande jornal. Por volta das 20h40 horas, por exemplo, ligou Dio, o
homem que liderava o levante da Casa de Detenção, a uma esquina dali. Às
21 horas, telefonou o “Chocolate”, que do segundo andar do Pavilhão 3
comandava a sublevação na Penitenciária. E meia hora depois, ligou da
penitenciária de Taubaté o detento Idemir Carlos Ambrósio, conhecido como
“Sombra”. Unidos pelo celular, todos integram a primeira linha do PCC, o
Primeiro Comando da Capital, facção criminosa acusada de tráfico de
drogas, assassinatos e extorsões dentro do sistema penitenciário de São
Paulo. E o homem que recebia as ligações é um dos advogados que defendem
o grupo. Diante da Penitenciária – o lugar onde havia mais tensão entre
as unidades que engrossaram o levante – sua função era informar a quem
telefonava em que pé estavam as coisas nos outros presídios.
Enquanto os líderes da rebelião em massa que
mais uma vez expôs a fragilidade do sistema carcerário de São Paulo
telefonavam para o advogado, o secretário de Segurança Pública Marco
Vinicius Petreluzzi dizia em entrevistas que os levantes simultâneos
poderiam, sim, ter sido combinados por meio de aparelhos celular em poder
dos presos. Parado diante da Penitenciária com seu aparelho nokia na mão
direita, o advogado do PCC riu quando soube da declaração: “Combinadas,
não! As rebeliões estão sendo monitoradas pelo celular. Imagina quando a
banda larga chegar ao Brasil!”
Desapercebido em meio ao cenário de guerra
formado pela passagem de integrantes da Tropa de Choque da Polícia Militar
e pelas histórias contadas pelos reféns que eram libertados, o advogado
recebia telefonemas periódicos de integrantes do PCC que estavam no
terceiro e mais perigoso pavilhão do lugar. Os detentos contavam detalhes
da batalha psicológica que travavam com a polícia. A exemplo das outras
dezoito unidades prisionais envolvidas no plano, a rebelião por ali começara
ao meio-dia e – fato inédito – em pleno domingo de visitas. Os parentes
dos presos que lá estavam foram avisados de que não eram reféns, mas que
ainda assim participariam do motim. Sob gritos de “ninguém entra, ninguém
sai!”, alguns visitantes foram trancados nas celas, outros deixados no pátio
– sempre ao lado dos detentos que foram ver. Em alguns casos, eram famílias
inteiras. E quase sempre estavam solidários ao motim.
Quando
a PM resolveu invadir o prédio, começou pelo Pavilhão 1, onde ficam os
presos considerados menos perigosos, normalmente condenados por tráfico de
entorpecentes ou que trabalham na cozinha do presídio. Ali, a atuação do
Batalhão de Choque foi rápida. Os policiais entraram no pátio o obrigaram
os presos a tirar as roupas. Depois, liberaram parte dos reféns. No Pavilhão
2, a batalha foi mais demorada. Os soldados tomaram os três andares do prédio
com bombas de efeito moral. Os presos permeneceram deitados, sem as roupas,
ao lado dos visitantes, vigiados por um helicóptero que jogava uma luz
branca sobre suas cabeças. Uma leva de reféns saiu do pavilhão dois por
volta das 20h30. Às 22h30, saiu uma segunda turma, liberada em intervalos
de alguns minutos. Desta vez, os reféns voltavam às ruas atônitos, descalços,
molhados e contando histórias aterrorizantes. Mulheres com bebês no colo
mostravam ferimentos nos braços e diziam ter sido puxadas pelos cabelos e
chamadas de vagabundas pelos policiais. Crianças choravam e diziam ter tido
muito medo de morrer. Senhoras idosas diziam Ter tido fuzis apontados para
suas cabeças e levado pauladas dadas pelos policiais para separá-las dos
presos. Muitos tremiam e choravam. Ninguém queria dizer o próprio nome
depois de contar sua história.
Entre uma ligação e outra, o advogado rodeava
as pessoas que eram liberadas, a exemplo do que faziam os que esperavam do
lado de fora por notícia de seus familiares – os que estavam presos e os
que foram feitos reféns. A essa altura, os números oficiais davam conta de
que o saldo da rebelião em massa era de oito mortos e 7 000 reféns em 19
cidades. Pouco depois da meia-noite, o celular do advogado tocou mais uma
vez. Era um dos intregrantes do PCC que estavam no pavilhão 3, ainda não
invadido pela polícia. O detento explicou que a Tropa de Choque obrigou
alguns dos reféns do pavilhão 2 a ir para o pátio do 3. Segundo ele, a
intenção da polícia era mandar pessoas aterrorizadas para o último prédio
e sinalizar que estava disposta a tudo. Em seguida, explicou que a bateria
do celular estava acabando. A partir dali, não teria mais como dar notícia
do que ocorria lá dentro. Com a energia elétrica cortada, encanamentos
destruídos que inundavam o prédio e um helicóptero sobrevoando o lugar, o
preso despediu-se do advogado: “Agora, vai ser só treva”. Quando
desligou o telefone, o advogado comentou: “A rebelião tecnológica está
acabando. Agora vai ser no braço”.
O
“partido”
A rebelião que mais uma vez evidenciou a
fragilidade do governo Mário Covas de lidar com o sistema carcerário começou
a ser tramada na sexta-feira passada. Por conta de uma operação conjunta
entre as secretarias de Segurança Pública e de Administração Penitenciária,
cinco líderes do PCC foram tirados da Penitenciária do Estado e da Casa de
Detenção e distribuídos em presídios de segurança máxima do interior.
Da operação, também resultou o primeiro indiciamento, por formação de
quadrilha, de um integrante da facção. O escolhido foi o Sombra. Quando
chegou ao presídio de Avaré, Sombra sacou o celular e combinou com os
colegas os detalhes da rebelião conjunta, que teria como objetivo mostrar
publicamente a força do PCC. Em nenhum dos presídios, os detentos fariam
exigências locais. Tudo o que eles
pediriam
seria a volta dos líderes da facção para as prisões onde estavam. Assim
foi feito.
Condenado por participação em assaltos e
envolvido em inquéritos que apuram assassinato de um preso da Casa de Detenção,
Sombra traz no braço esquerdo uma tatuagem de um soldado com um fuzil e a
inscrição “PCC”. Trata-se do “logo” dos fundadores da organização
– chamada pelos presos de “partido”. Até o início do ano, o governo
estadual negava a existência do grupo. Integrantes do Comando, no entanto,
afirmam que ele surgiu em 1991, no Centro de Reabilitação Penitenciária
de Taubaté. Em pouco tempo, chegou aos outros presídios, por conta do alto
índice de transferência de presos no Estado. Hoje, conta-se nos dedos os
lugares onde o grupo não é hegemônico, como a Cadeia de Guarulhos. Quando
quis dar um golpe de morte na facção, o governo do Estado transferiu seus
principais líderes e apreendeu quase 1 500 estiletes de quase trinta centímetros.
Como se vê depois de quase 24 horas de rebelião, os policiais deixaram de
confiscar o mais importante. O aparelho celular foi a principal arma usada
pelos detentos. Nas primeiras horas de rebelião os aparelhos eram usados o
tempo inteiro por presos e reféns. Sentada no pátio do Pavilhão 3, por
exemplo, uma estudante de 23 anos, namorada de um integrante do PCC,
telefonava o tempo inteiro para seu irmão, que cumpre pena no Presídio do
Belém e também faz parte da facção. À medida que a cadeia era tomada
pelos presos, ela avisava ao irmão. “Viramos o dois! Acabamos de virar o
três!”. No jargão usado pelos presos, “virar” significa tomar conta
dos pavilhões. Na manhã de hoje, quando saiu da cadeia junto com os outros
visitantes que passaram a noite no pátio do pavilhão, ela brincou:
“celular ali era usado como orelhão”. O aparelho serviu até mesmo para
fins televisivos. Enquanto na Penitenciária do Estado os policiais tentavam
retomar o controle dos pavilhões, o programa do Gugu, no SBT, mostrava
entrevista exclusiva com a cantora Simony, presa na Casa de Detenção
enquanto visitava o namorado, o rapper Afro-x. Disse que o clima lá estava
tenso e citou o PCC – agora conhecido em rede nacional. Tudo pelo celular,
claro.
Palanque
do crime
Marcos
Mendes/AE
O
homem enfia a mão esquerda do bolso interno direito do paletó marrom e
tira um chumaço de algodão. Calmamente, enquanto fala, divide-o em duas
partes e coloca uma delas de volta no bolso. A outra é suavemente esticada
até se tornar pontuda. Leva-a até a parte interna da orelha direita e gira
várias vezes para limpá-la. Depois tira do bolso novamente o outro pedaço
de algodão e repete a operação na orelha esquerda. Ele parece ter todo o
tempo do mundo. Mas não tem. O homem em questão tem 300 clientes em seu
escritório de advocacia, entre eles os chefes e vários integrantes do
Primeiro Comando da Capital (PCC), organização de criminosos criada dentro
do sistema prisional paulista.
Ele sorri, meio sem graça, e guarda os dois
pedaços de algodão no bolso. “Eu queria lançar um segundo PCC, só que
voltado à política. Se chamaria Partido da Comunidade Carcerária. Mas na
prática é tudo muito burocrático, então decidi aceitar um dos vários
convites que recebi nos últimos meses de partidos políticos. Agora é para
valer, estou filiado e vou concorrer a deputado federal para representar
meus irmãos presos”, diz o advogado Anselmo Neves Maia, 57 anos, 1m62 de
altura.
Quando diz irmãos, Neves Maia não lança-mão
de qualquer força de expressão. Numa referência aos irmãos presidiários,
ele afirma que também esteve preso, durante cinco anos, na penitenciária e
no presídio de Taubaté depois de condenado por tráfico — anos depois
conseguiu a suspensão da pena e o cancelamento do processo porque teria
provado ao juiz que não estava na cena do crime como traficante e sim como
advogado dos traficantes.
Foi na cadeia que conheceu os chefes do PCC,
quando a organização ainda engatinhava. Aproximou-se deles e passou a
prestar consultoria informal aos integrantes e, depois, assumiu os casos de
300 presos. “Aprendi a fazer do limão uma limonada”, gaba-se Neves
Maia. “De uma coisa ruim e injusta que a vida me deu, a prisão, consegui
me firmar na carreira e defender presos em nome da justiça”. Em seguida,
joga uma pequena carteirinha na mesa de cerejeira. “Vê isso aí? Não é
minha carteirinha do PCC, não. É minha filiação ao PMN (Partido da
Mobilização Nacional), um partido que pensa como eu, que os presos têm
direito a voto e que a situação atual precisa mudar”.
Partido fast food
O PMN foi fundado em 1984 e ficou conhecido
primeiro no Rio de Janeiro, nas eleições de 86, quando lançou o arquiteto
Sérgio Bernardes para a prefeitura da cidade. Desde então cresceu muito
lentamente até meados da década de 90, quando conseguiu emplacar, nas eleições
de 1996, 33 prefeitos e 513 vereadores, além de vários vice-prefeitos,
como o professor Régis de Oliveira, que fez dobradinha com Celso Pitta
(PPB, na ocasião). E foi só.
Mais recentemente o partido ficou conhecido por
lançar uma rede
de descontos para
seus filiados, ou seja, apresentando a carteirinha do partido, é possível
obter vantagens pouco relacionadas com o mundo político, como 10% de
abatimento numa limpeza de pele ou 15% na compra de aviamentos num armarinho
no interior de Minas Gerais. Foi este partido que recebeu de braços abertos
o advogado Neves Maia e seus companheiros do PCC. “Dizem que já estou
eleito, apesar de não dispor nem de um tostão para a campanha. Tudo o que
ganho, gasto nas despesas do escritório e os estudos dos meus filhos”,
conta o advogado. “Não teria dinheiro para fazer uma campanha, que me
dizem custar até R$ 5 milhões. Vivo com quase nada de dinheiro”.
O “quase nada” tem nome, algo em torno de
R$ 15 mil mensais como o próprio Neves Maia confessa a seguir. O dinheiro
é proveniente dos honorários que recebe de seus clientes. Seu escritório,
localizado na região central da cidade, próximo á praça da Sé, é muito
simples. A pequena entrada é decorada com duas ilustrações de Montmartre
(Paris) e uma marquesa com assento de palhinha, que pouco combinam com o
carpete verde. A seguir, uma mesa muito pequena. Ali se revezam durante todo
o dia os quatro advogados do escritório - sendo dois deles “quase
advogados”, incluídos aí os filhos de Neves Maia, os estudantes de
direito Paulo e Plínio Marcos, este batizado em dupla homenagem ao avô e
ao dramaturgo paulista, autor de “Dois perdidos numa noite suja”. Não há
secretária. Somente um aparelho de fax Panasonic. Não há sombra de um
computador que seja, apesar de ser um escritório de advocacia. Na sala
maior está acomodado o titular da banca. Quatro cadeiras de palhinha e uma
mesa estão espalhadas pelo ambiente. Atrás da cadeira do advogado, de
couro vinho, uma estante que deve medir quatro metros de largura por três
de altura. E nos doze metros quadrados divididos por 28 prateleiras estão
menos de 15 livros, dois tubos de desodorante Rexona, um vaso de vidro com
um fio telefônico enrolado em seu interior e uma coleção de 27 fitas
cassete de aulas de inglês da Editora Globo. Ao lado, um frigobar antigo e
uma cafeteira sobre ele. Era inevitável a pergunta sobre a ausência de
computadores e dos livros, que todos os advogados costumam se orgulhar de
exibir. “Meus filhos falaram que estou velho, esse negócio de livros não
dá em nada. Por isso agora é só internet que interessa. Vou comprar uns
computadores, pedi empréstimo para o Banco do Brasil. Em breve o meu escritório
será outro”.
Só
Getúlio salva
A história da família Maia, na versão do
advogado dos chefes do PCC, é heróica. Começa com o romance de Eça de
Queirós, Os Maias, e tem continuidade na figura do advogado e seus filhos.
Segundo ele, tudo começou quando um jovem fidalgo português veio para o
Brasil, ainda colônia. Chamava-se José Vicente de Maia, identificava-se
com Tiradentes e seus ideais de libertação — depois de ter presenciado a
Revolução Francesa e a independência dos Estados Unidos — e deu origem
a toda família Maia no país. “Minha família ficou instalada em Brumado,
na Bahia, onde nasci, durante vários anos, até que fomos expulsos pela
seca em 1949. Eu tinha quatro anos, meu pai era um playboyzinho de cidade do
interior e mudamos
para
o Rio de Janeiro”, conta o advogado. Peculiar é como se deu a transferência
de uma cidade a outra. Falida, a família Maia não tinha dinheiro sequer
para a mudança. “Tivemos a ajuda em tudo de um grande amigo de meu pai, o
“doutor” Getúlio Vargas. Se
não fosse ele, que custeou nossa mudança, possivelmente teríamos morrido
no caminho”, diz Neves Maia. “Nos colocaram, a pedido de Getúlio, em
uma mansão em Realengo. Fomos
recebidos como gente e assim vivemos até a sua morte. No dia seguinte, Getúlio
enterrado, Café Filho mandou nos despejar, ou seja, de um palácio suntuoso
passamos para um barraco em um bairro miserável de Nova Iguaçu. Estávamos
rodeados de pobreza e miséria”.
Sobreviveu. Neves Maia diz que foi taxista,
auxiliar de enfermagem e vendedor de classificados das Páginas Amarelas.
Cursou direito e começou a advogar. Há 10 anos conheceu o PCC e viu ai a
possibilidade de fazer sua “limonada”. E hoje é esse suco que o
advogado confessa, à boca pequena, que reserva o segredo de sua matemática:
a tática está nos cabos eleitorais. “Pense comigo, porque essa conta é
do pessoal do PCC. O sistema prisional paulista tem 100 mil detentos, cuja
ascendência principal é da organização. Se cada um dos irmãos fizer com
que dois ou três parentes ou amigos votem em mim terei pelo menos 200 mil
votos, o que é mais do que suficiente para me eleger”, tabula Neves Maia.
“Assim nem preciso fazer campanha. Eles farão por mim. A única coisa que
preciso fazer é defender sempre o direito de voto do preso e o direito a
acomodações decentes nas penitenciárias do país. É tudo simples
assim”.
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