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O CRIME COMO QUESTÃO POLÍTICA
Décio Freitas O
problema não suscitava controvérsia política. Convinha-se em que seu
diagnóstico e sua solução cabiam a uma restrita província de
especialistas e profissionais designados pelo Estado. As reformas sociais e
os progressos científicos, incrementando a prosperidade e reduzindo a
pobreza, extinguiriam o crime. Por mais de um século, entre 1850 e o pós-Segunda
Guerra Mundial, os índices de criminalidade caíram de forma progressiva e
constante no mundo ocidental, culminando na abolição da pena de morte,
tirante os EUA, onde ainda assim passou a se circunscrever a uns poucos
Estados. Na pior das hipóteses, os índices da criminalidade pelo menos se
estabilizaram. Quando começou a esmorecer esta tendência, dando lugar a uma progressiva e incontrolável explosão de criminalidade? David Garland, emérito criminólogo americano, em livro recente sobre a criminalidade na sociedade contemporânea, acha que as instituições, crenças e práticas do modernismo penal começaram a entrar em colapso nos anos 70, com uma rapidez e uma força que desconcertaram seus adeptos. O fenômeno teria sido incubado pelo etos da modernidade tardia. Idéias neoclássicas ou neoliberais que se acreditava condenadas à lata de lixo da História ressurgiram e tornaram-se dominantes no Ocidente, sepultando o reformismo social do welfare state. Resumidamente, os criminólogos assim identificam a etiologia desta virulenta epidemia criminal: Estado impotente para determinar a política econômica e social; desemprego prolongado ou “emprego nunca” como destino de número crescente de pessoas; escalada das clivagens sociais que reverteram a tendência progressiva à inclusão e à solidariedade sociais; desagregação das estruturas familiares, que junto com o emprego exerciam um papel informal de dissuasão criminal; o novo consumismo e o individualismo hedonista; e o solapamento da autoridade moral dos agentes da justiça criminal, sobretudo a polícia. A
obsessiva parcimônia fiscal dos governos restringe investimentos públicos
na segurança, estimulando sua privatização. Uma concepção de justiça
privada substitui a de justiça pública. Predica-se a ação da comunidade
para prevenir o crime e proteger-se contra a onipresente ameaça da vitimização.
Gigantesca indústria da segurança privada oferece aos aterrados cidadãos
possuidores de recursos a segurança que o Estado já não pode garantir.
Cidades grandes ou pequenas viram infernos cotidianos e a paranóia coletiva
leva à mudança de rotinas e hábitos urbanos. Para quem pode pagar, há a
contratação de capangas para a segurança, circuitos fechados de televisão,
condomínios fechados. Já existe privatização direta da segurança pública
mediante prisões privadas e segurança privada para transporte de presos. As
prisões já não são vistas como meios de reabilitação: são
intrinsecamente jaulas destinadas a incapacitar os delinqüentes para a
reincidência. Descartam-se explicações sociais, clínicas ou culturais do
crime. O criminoso, um predador que deliberadamente escolheu o mal, seria
insuscetível de reabilitação. Toda invocação de direitos do criminoso
é suspeitada como denegação do interesse das vítimas e da coletividade. A
cólera coletiva face à expansão duma criminalidade audaz, poderosa e bárbara
nos métodos, na escala e nas características – em São Paulo ela se
permite desafiar abertamente o governo e se comporta às vezes como um
contrapoder – faz da lei e da ordem questões altamente políticas, para a
direita e a esquerda. O debate ainda se dá em parâmetros grosseiramente
populistas, cada político prometendo ser mais “duro” contra o crime. A
questão se presta à exploração fácil de demagogos que oferecem soluções
simplistas. Na verdade, não há solução única e direta para essa questão
extraordinariamente complexa, malgrado pareça evidente que qualquer solução
pressupõe a recuperação de valores cívicos, sociais e humanos da pretérita
modernidade. Segundo Le Monde, a expansão da criminalidade será o tema central das eleições gerais francesas deste ano – e adverte para a necessidade de se evitar a demagogia. Se há o perigo da demagogia nas eleições dum país como a França, o que dizer do perigo nas eleições dum país como o Brasil? |
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