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Crianças vendem
droga em ponte internacional
CARLOS WAGNER
Barra do
Quaraí
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Flagrante:
uruguaio se aproxima de menino e lhe estende dinheiro,
apanhando em seguida a droga (foto Antônio Pacheco/ZH)
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Crianças
brasileiras estão traficando maconha na Ponte Internacional Rio
Quaraí, uma travessia de 672 metros entre Barra do Quaraí, no
Brasil, e Bella Unión, no Uruguai.
Segundo
a polícia, criminosos aliciaram e transformaram pelo menos 10
jovens da região em soldados do tráfico.
Cada
um deles recebe por dia de cinco a oito baseados (cigarros de
maconha) para vender, pelo preço médio de R$ 0,50 cada um. Eles
também vendem trouxinhas da droga. Com isso, conseguem faturar até
R$ 40 semanais.
O
tráfico se restrige à maconha porque é uma droga barata e a região
é pobre. Segundo a polícia, os traficantes compram a droga de
fornecedores na maior cidade da região, Uruguaiana, a 70 quilômetros
da Triplíce Fronteira.
Os
garotos escondem a droga debaixo da ponte que liga Barra do Quaraí
a Bella Unión. A poucos metros dali, o Quaraí desemboca no Rio
Uruguai, na frente do município argentino de Monte Caseros. As três
cidades formam a Triplíce Fronteira Brasil/Uruguai/Argentina.
Os
pequenos traficantes atravessam a ponte várias vezes por dia
levando um baseado de cada vez para atender aos consumidores.
Geralmente à tarde e nas sextas-feiras o movimento é mais intenso.
A sede do tráfico é Barra, a menor das três cidades que somam em
torno de 50 mil habitantes. O maior número de consumidores está em
Unión.
Um
dos meninos é um garoto de 11 anos que passou a atuar na ponte
depois que se mudou, com a mãe e os irmãos, para Barra do Quaraí.
Antes, ele ajudava o pai, safrista das lavouras de arroz no interior
de Uruguaiana. O abandono paterno da família provocou a mudança.
História
semelhante de dificuldade conta outra criança. Aos 12 anos, ele
fazia biscates em Bella Unión para auxiliar a família. A crise e a
perspectiva de uma renda melhor levaram-no às drogas.
A
diminuição no fluxo do chibo – pequeno contrabando – é a razão
apresentada por um jovem de 15 anos para atuar no tráfico de
drogas. O adolescente também trabalha metade do ano como safrista
nas granjas de arroz. Quando acabava o serviço, ganhava dinheiro
passando pelo rio mercadorias de um país para o outro. Com a queda
do chibo causada pelos problemas econômicos dos países, encontrou
um meio de vida no tráfico de drogas.
Outro
jovem, de 17 anos, diz que a venda de maconha é a única
possibilidade de ganhar dinheiro. Os R$ 10 semanais que arrecada com
a droga são difíceis de obter com o trabalho regular na região. O
rapaz era ajudante na pesca nos rios Quaraí e Uruguai.
Recentemente, a quantidade de peixe diminuiu e ele perdeu o emprego.
Tentou ganhar a vida como pequeno contrabandista, sem sucesso. Então,
aceitou a oferta de serviço de um conhecido, e tornou-se traficante
do Rio Quaraí.
–
Ou é isso ou é roubar. Prefiro isso – diz um terceiro garoto, de
15 anos, que costuma vender maconha nos fins de tarde na ponte.
O
vaivém dos adolescentes não despertava a atenção em meio ao trânsito
cotidiano entre os dois países. Em junho, porém, alertados pelo
depoimento de um jovem flagrado vendendo a erva, os guardas
uruguaios da fronteira passaram a usar um cachorro que fareja droga.
O animal descobriu um adolescente transportando maconha dentro dos
canos do quadro de uma bicicleta.
A
descoberta da polícia causou uma mudança no tráfico. Agora, além
de vender a droga na ponte, os garotos também ficam nas margens do
rio pescando e os clientes buscam a maconha em barcos a remo ou
motor, as chalanas.
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Sob domínio de
pequenos traficantes
A
proliferação do tráfico de pequenas quantidades de maconha na
fronteira nasceu de um acerto de contas entre um grupo que comandava
a venda de drogas em Uruguaiana e seus fornecedores, diz o delegado
Luiz Dall’Agnese, da Polícia Federal.
A
região de Barra do Quaraí, Bella Unión e Monte Caseros é pouco
povoada – em torno de 50 mil habitantes, e de baixo poder
aquisitivo. É um mercado que não interessa para o grande
traficante porque o risco não compensa o lucro. Segundo a PF, o
local serve como corredor da droga vinda do Paraguai e que se
destina à capital uruguaia, Montevidéu.
De
acordo com Dall’Agnese, a venda de drogas na região de Uruguaiana
na década passada era partilhada entre o bicheiro Jairo Machado
Ribeiro, Nelson Ricardo Cuty Camara, o Massa de Tomate, e Carlos
Renato Rodrigues, o Caio. Em conjunto, os três teriam comprando um
partida de 30 quilos de cocaína, no valor de R$ 300 mil, de
fornecedores de Araranguá (SC). Esses atravessadores seriam ligados
a Nei Machado, ex-patrão de CTG em Passo Fundo que vivia refugiado
no Paraguai e era associado de Luiz Fernando da Costa, o Fernandinho
Beira-Mar, hoje preso no Rio.
A
apreensão de parte da droga pela PF teria desencadeado uma crise no
grupo. Como a carga havia sido fornecida aos traficantes pelo
sistema de consignação – o pagamento da mercadoria ao fornecedor
ocorre depois da venda aos consumidores – os traficantes não
teriam conseguido saldar suas dívidas. Acabaram sendo mortos, entre
1998 e 2000. Depois disso, outros outros seis traficantes foram
presos.
A
retirada dos grandes ou médios traficantes do mercado abriu
oportunidades de negócios para pequenos criminosos, que estariam
tentando se tornar patrões, como descreve Dall’Agnese.
–
Sem os cabeças (chefes), os soldados (pequenos revendores de droga)
tomaram conta do tráfico – sustenta o delegado.
Boa
parte dos consumidores de maconha experimentou a droga pela primeira
vez em festas em Uruguaiana. Além da erva, o contrabando de lança-perfume,
produto que tem venda proibida no país, é comum nas épocas de
carnaval. Os frascos são adquiridos em Monte Caseros e trazidos
para o Brasil.
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Prefeitos temem
alastramento do crime
Autoridades
municipais e policiais do Brasil e Uruguai estão se aliando para
tentar impedir que o tráfico de drogas se alastre em Barra do Quaraí
e em Bella Unión.
Há
dois meses, o capitão de corveta da Marinha do Uruguai, Juan José
Nieto, subprefeito do Porto de Bella Unión, observou que das 30
principais ocorrências policiais registradas em sua cidade, 25
envolviam problemas com drogas. Dessas, 40% era tráfico feito por
brasileiros de 12 a 16 anos. Nieto levou o fato ao conhecimento das
autoridades de Barra do Quaraí e da Polícia Federal (PF), em
Uruguaiana.
–
No início das investigações, pensávamos que o problema era
apenas de um grupo de adolescentes. Mas logo notamos que o tráfico
estava se enraizando e se espalhava pela comunidade – comenta.
O
problema também preocupa o prefeito de Barra do Quaraí, Ely Manoel
Rosa (PTB):
–
Aqui todos se conhecem. Fica difícil lidarmos com o problema. Por
outro lado, é preciso tratar o assunto de frente porque senão
amanhã vamos estar recebendo ordens de traficante.
A
estratégia traçada por Ely foi denunciar a situação às
autoridades brasileiras e uruguaias durante um seminário sobre
problemas da fronteira que aconteceu em Santana do Livramento, no início
de julho. A uma platéia formada também por policiais das cidades
fronteiriças do Brasil e do Uruguai, Ely disse ter aumentado a
exploração de crianças e jovens pelo tráfico em seu município
nos últimos três anos.
Como
não há Polícia Civil na cidade, o sargento Paulo Augusto, responsável
pelo destacamento local da Brigada Militar mapeou suspeitos pelo
recebimento da maconha em Barra do Quaraí, com auxílio da Polícia
Federal. Segundo o policial, a droga vinha de ônibus de Uruguaiana.
Durante vários dias, a BM e a PF fizeram barreiras nas estradas.
A
tática não surtiu resultado durante muito tempo, admite a polícia.
Os traficantes acabaram mudaram o itinerário: a droga agora vem de
ônibus até uns 30 quilômetros da cidade e dali é transportada a
cavalo ou de bicicleta até o distribuidor local.
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Polícias devem
trabalhar em conjunto
A
região de Barra do Quaraí e Bella Unión sediará um dos seis núcleos
compostos por representantes consulares, das polícias e dos poderes
judiciários do Brasil e do Uruguai que começam a trabalhar em
setembro na fronteira.
A
criação dos núcleos foi definida na 2ª Reunião de Alto Nível
da Nova Agenda de Cooperação e Desenvolvimento Fronteiriço
Brasil-Uruguai, realizada no dia 10 de agosto, em Porto Alegre.
Na
ocasião, foi firmado um acordo para dar início às operações
integradas de combate à criminalidade nas áreas de fronteiras dos
dois países, localizadas no Rio Grande do Sul. Os núcleos
coordenarão os estudos de ações conjuntas de cooperação e
intercâmbio.
Além
de Barra do Quaraí-Bella Unión, também haverá núcleos em Chuí-Chuy,
Jaguarão-Rio Branco, Santana do Livramento-Rivera, Aceguá-Acegua e
Quaraí-Artigas. Entre as propostas apresentadas está a criação
de um posto policial fronteiriço, compartilhando informações
sobre crimes como roubo e furto de veículos, abigeato, e ocorrências
envolvendo foragidos e desaparecidos, entre outros. O termo de
cooperação também definiu metas para ações nas áreas de saúde,
educação, ambiente e saneamento.
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