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POLÍCIA E SEGURANÇA
Stephen Kanitz
A chance de você ou alguém da sua família
ser assaltado, sua filha estuprada ou um parente sofrer um seqüestro relâmpago
no Brasil é de aproximadamente 97% no decorrer da vida. Poucas famílias irão
escapar. Um amigo meu se orgulha de ter se safado oito vezes de levar um
tiro na testa. Todas as ideologias políticas, do socialismo ao
neoliberalismo, acreditam que cabe ao Estado a proteção do indivíduo. O
socialismo e o comunismo sempre investiram pesado em policiamento e segurança.
A China comunista executa criminosos diariamente e entrega o cartucho à família.
Liberais, que tendem a confiar no indivíduo e não no Estado, são contra
fazer justiça e segurança pelas próprias mãos. Neoliberais, que preferem
um Estado fraco, pregam um Estado forte na área de segurança pública.
Nossos governos têm sido uma certa exceção. Fazem praticamente "tudo
pelo social", mas negligenciam a segurança, função primordial do
Estado em todas as ideologias. Acrescentaram aposentadorias grátis, cultura
grátis, terras grátis, creches grátis, mestrados grátis, investimentos
em energia grátis, a ponto de levar as finanças do Estado à ruína. De
nada adianta ter saúde ou um mestrado e levar um tiro num assalto.
Quatrocentos anos atrás, Hobbes já escrevia: "Quando não existe
poder capaz de manter os homens em respeito, temos a condição que se
denomina guerra civil; uma guerra de todos os homens contra todos."
Nossos policiais reclamam por aumentos salariais com absoluta justiça.
Alguns têm de viver em favelas, onde temem que alguém descubra sua profissão.
O policial de Nova York ganha cinco vezes mais que um policial brasileiro,
que por sua vez tem de enfrentar uma criminalidade cinco vezes maior. Quando
um policial prende bandidos arriscando a vida, sabe que eles logo estarão
livres novamente por falta de prisões.
Um policial, normalmente pouco treinado pelo Estado, se no cumprimento do
dever errar um tiro, será trucidado e execrado pela opinião pública. Quem
se candidata a um emprego desses que exige a rapidez de um executivo, a
coragem de um herói, o discernimento de um juiz, o tato de um psicólogo e
um salário vil?
Nossos policiais deveriam ser pagos num nível salarial que os fizesse temer
a perda do emprego, em vez de sentir vergonha dele. Como, apesar das estatísticas,
ninguém acredita que um dia será uma vítima, e vítimas fatais não
votam, nunca elegemos prefeitos e governadores que priorizam suas
secretarias de Segurança nem seus policiais. Preferimos eleger quem nos
promete um benefício imediato a aqueles que prometem eliminar um risco
incerto.
A maioria dos brasileiros está profundamente insatisfeita com o que está aí,
e quer "começar tudo de novo". Apesar de os contribuintes pagarem
35% do PIB em impostos, hoje temos um Estado fraco na maioria das áreas de
atuação: saúde pública com falta de recursos, educação com problemas,
um rombo na previdência e um policiamento sem os equipamentos necessários.
Vamos começar de novo, criando um Estado que cumpra no mínimo a primeira e
única função sobre a qual todas as ideologias concordam. Vamos reduzir um
pouco as inúmeras outras funções sociais, em digamos 5% cada uma, para
poder aumentar em 100% as verbas para policiamento, Justiça e segurança.
Sou a favor de o Estado promover políticas de inclusão e agregação
social com nosso dinheiro, contanto que o faça com competência. Se o
Estado conseguir devolver ao povo a segurança de ser brasileiro, conquistará
credibilidade para assumir outras funções sociais, todas em que souber
demonstrar competência.
Em resumo, nosso Estado social-democrata está fazendo coisas demais e mal
feitas. Vamos fazer um pouco menos, e bem feito.
Artigo Publicado na Revista
Veja, edição 1714, ano 34, nº 33, 22 de Agosto de 2001
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