|
|
|
||||||||||||||||||||
|
|
|
|
|||||||||||||||||||
|
PADRÕES DE POLICIAMENTO George Felipe de Lima Dantas
David Bayley é dos poucos pesquisadores autores estrangeiros em
segurança pública já traduzidos para o português. Sua obra tem por título
"Padrões de Policiamento". Ela é um estudo comparativo da atuação
da polícia em diferentes países, trazendo um pequeno ensaio sobre o
"caso Brasil" e uma visão da situação no restante da América
Latina. O autor afirma que "a organização da polícia deve ser
modificada para o exercício efetivo da função preventiva, ao invés de
esperar que os fatos se ajustem à sua organização atual...” O contexto
referencial é o norte-americano, país onde o sistema de segurança pública
passa por uma grande transição da chamada “era clássica” para a do
“policiamento comunitário”.
A gestão da justiça criminal de alguns países, hoje em relativa ordem e
paz social, passa por essa transição da "era clássica" para a
do "policiamento comunitário". Ainda assim, o próprio Bayley
afirma que "nos Estados Unidos da América (EUA), o policiamento
comunitário é mais freqüentemente uma aspiração do que uma realidade
implementada". Ele refere, substantivamente, a priorização da prevenção
em lugar da repressão, ou o comunitário ou proativo em contraponto ao
modelo "profissional clássico" reativo (a polícia que
principalmente responde, ou reage ao crime consumado...).
Aqui é diferente... A situação brasileira diz respeito a antigas
questões estruturais idiossincráticas à nossa realidade local, caso do
velho contencioso da unificação e desmilitarização das polícias, questões
tão à baila nos dias atuais, em que pese a grave crise da segurança pública
que vivemos. È como querer reorganizar a unidade de emergência do hospital
em meio a uma calamidade pública... O paradigma, bastante atual, da função preventiva, ao qual faz referência o autor norte-americano, tem por premissa básica a resolução de potenciais problemas com o concurso da própria comunidade, que passa a ter um papel ativo e coordenado com o poder público, no sentido da promoção da sua própria segurança. Os pontos principais dessa nova filosofia de gestão incluem programas de prevenção criminal baseados em ações conjuntas polícia/comunidade; aumento da capacidade da comunidade em responsabilizar a autoridade policial e descentralização dos comandos policiais, face a necessidade de dar autonomia a esses novos "agentes policiais comunitários", com acrescido poder decisório e de articulação direta com a sociedade. Não parece que haja paralelo entre nossos "policiais de linha" e os dos países em que isso possa funcionar... Cabos e Soldados, Agentes e Inspetores, a maioria esmagadora de nossos agentes da segurança pública, jamais tiveram algo próximo desse tipo de poder. Por que teriam agora?!
Enquanto isso, a questão policial brasileira, na atualidade, está muito
mais centrada no exame e crítica da "estrutura" do sistema de
justiça criminal do país como um todo, que mesmo no modelo e filosofia com
que hoje ele opera. Todos os segmentos do Poder, e da própria Sociedade
Civil, imaginam hoje algo como um "modelo ideal" de sistema de
justiça criminal para o Brasil. A esse respeito, há quem sustente que a
"fórmula mágica" seja uma polícia única para substituir o
modelo atual de duas polícias estaduais... Entre outros argumentos por uma
polícia única: ineficácia; dispêndio; irracionalidade; obsolescência;
falta de efetividade; corrupção; interesse das lideranças na manutenção
do "status quo" (ao contrário do interesse daqueles que alguns
chamam de "baixo clero"); interpenetração das atividades
ostensivas e investigativas; duplicidade jurisdicional e até mesmo o fato
da nossa estrutura policial remontar, em sua concepção, ao Século XIX...
Oportuno lembrar que grande parte dos fundamentos políticos das repúblicas
atuais remonta ao Século XIX, Ou mesmo antes disso... Afora algumas
poucas questões bastante específicas, caso da interpenetração de
atividades operacionais e da redundância de certas atividades
jurisdicionais, as críticas citadas podem ser aplicadas ao próprio Estado
brasileiro como um todo. A pergunta que surge é: qual a certeza de que
unificado o sistema policial teríamos uma maior efetividade no controle da
criminalidade e da violência? -Difícil responder, se não for pela via
ideológica e opinativa...
David H. Bayley, em outra obra, "Police for the Future"
[Polícia para o Futuro (ainda não traduzida)], argumenta que "a polícia
não só não consegue prevenir o crime, como tampouco poderia lograr
faze-lo". O conceito remete o leitor a toda uma "cultura política
e administrativa da gestão da segurança", e que transcende os
organismos policiais propriamente ditos, na medida em que mostra o problema
como uma "questão de Estado", envolvendo vários outros setores
do poder público. A efetividade da segurança pública, parece, demanda uma
liderança afinada não só com esse tema específico, mas com toda uma política
estrutural de gestão que lhe é correlata.
O argumento da unificação, entretanto, pelo caráter específico da
realidade brasileira, carece de sustentação alicerçada em boa pesquisa
acadêmica e que, em não existindo, dá conformidade apenas ideológica e
opinativa aos seus proponentes. Não existe hoje no Brasil, e parece nunca
ter existido antes, uma "política de segurança pública".
Talvez, por isso mesmo, seja temerário afirmar que a solução do problema
da atual "insegurança pública" passe necessariamente por mudanças
estruturais nos órgãos que compõem o sempre tão detratado organismo de
segurança pública.
Nesse quadro de "vazio de liderança do Estado", as ações
da Secretaria Nacional de Segurança Pública (SENASP) do Ministério da
Justiça, em seus vários desacertos do passado recente, são uma prova
rotunda de que, antes mesmo de tocar na questão da dualidade polícia civil
& polícia militar, falta ao governo federal encontrar formulações básicas
de efetividade na gestão do setor.
Segurança pública não parece ser um problema setorial da gestão,
mas sim uma questão geral, ampla e profunda da crise atual do Estado. A Colômbia
que o diga... |
|
|||||||||||||||||||
|
Web designer: Otálio Afonso |