|
Fomos criados ouvindo
contos, histórias, fábulas, que visavam incutir em nossas mentes
infantis a diferença entre o bem e o mal. Em todas elas sempre foi
necessário eleger um vilão, alguém que representasse a essência da
maldade e, como tal, devesse ser justamente combatido. Um desses
eleitos, personagem contumaz, foi o lobo.
Vilão por excelência,
o lobo protagonizou histórias sem fim, de Chapéuzinho Vermelho a
outras em que, ludibriando o bom pastor, aniquilava impiedosamente cândidas
ovelhinhas. Visando recuperar a desgastada imagem lupina, criou-se a
expressão "vestir a pele do lobo", preconizando ao julgador
uma necessária transferência para a situação do réu, antes de
proferir a sentença final.
A intenção era
evitar julgamentos apressados, suscitar no julgador a dúvida: Qual
seria o meu proceder no lugar do acusado? Uma primeira e sábia advertência
seria lembrar que ninguém está acima do bem e do mal, vestimos ambas
peles, ora personificamos dóceis carneirinhos, ora vorazes lobos.
Fugindo das fábulas,
entrando na vida real, nos dias de hoje, nossa Polícia Civil gaúcha
foi eleita o lobo - mau - da história. Tal qual engenheiros de obras
prontas, muitos arvoraram-se o direito de julgar procedimentos, ditar
regras, condenar atitudes da nossa Polícia Civil. Doutos, profundos
conhecedores, perfeitos julgadores de todas as mazelas, incompetências,
desmandos atribuídos à polícia.
A polícia virou um
bando de fascínoras, uma banda, podre. Todos apressados em julgar e
condenar a organização - sem exceções -, devem ser cidadãos
exemplares, cumpridores da lei, pagadores de todos os impostos,
incorruptíveis, muito acima destas mazelas, portanto, perfeitamente
habilitados ao lançamento da primeira e de todas as pedras.
Esses donatários da
honra deveriam tentar imaginar um pai, um destes policiais qualquer,
de nível médio, vivendo na modesta realidade que seu salário
permite, explicando para os filhos o que é banda podre da polícia.
Explicando que, apesar do que pode parecer, não são todos os seus
membros instrumentistas da banda, que eles podem continuar se
orgulhando do pai.
Governos malversam
verbas, virtuosos sonegam impostos - roubando do povo; geram
desigualdades sociais brutais, milhões de excluídos. Depois é fácil,
entrega-se para a polícia o papel que não lhe cabe, "lixeiros
da sociedade" responsáveis por lidar com conflitos, solver
problemas sociais - por outro sociólogo - não resolvidos. Ora
senhores, convenhamos! Isso até pode ser "caso de polícia";
certamente não é caso para a polícia!
Julgadores que agora
se proclamam vestais, personificando Pilatos, lavam as mãos - sem
calos. Julgam-se merecedores de uma polícia do primeiro mundo,
esquecendo que ajudaram a criar uma sociedade de último mundo. O que
é pior, essa polícia malpaga, mal-equipada e maltreinada, polícia
jogada aos cantos, é obrigada a fazer o trabalho sujo com perfeição,
defender o patrimônio, a integridade fisíca de uma elite
"chocada" com a inexplicável(?) violência.
O delegado chama o
policial, determina a missão ao seu subalterno. Avisa: Coisas para
lembrar: identificar-se como policial; só responder à agressão após
agredido; usar meios razoáveis na defesa; todos são inocentes até
prova em contrário; e que, para julgar tudo isso - corretamente! -,
dispõe de toda uma fração do segundo. Coisas para esquecer: que é
mal pago; que o suspeito pode não errar o primeiro tiro; se tudo bem,
cumpriu o dever, se errar, está ferrado; esquecer também a familía,
os filhos. Coisas para torcer: que o suspeito não seja tão mau; se
mau que tenha também má pontaria; para, depois de tudo, voltar vivo
para casa.
Enquanto isso nosso
governo esquece, convenientemente, que a polícia deve trabalhar para
o Estado, não para atender interesses do governo ou ideais partidários
- que são muitas vezes escusos. Esquece, também, que não é
solapando a hierarquia, desvalorizando funcionários, enlameando a
instituição com acusações da existência de "bandas
podres" que vai justificar as falhas do governo, a falta de uma
política séria no setor da segurança.
Bandas podres,
quaisquer que sejam ou de onde quer que sejam, devem ser combatidas,
eliminadas pelos meios adequados, inquéritos, processos, justiça;
nunca servir para discursos governistas, bandeiras demagógicas e
eleitoreiras, visando encobrir a existência de outras bandas
conhecidas, das suas próprias bandas podres.
Quanto ao lobo? O lobo
ao abater sua presa não o faz por ser bom, nem por ser mau; está
apenas cumprindo o papel que lhe cabe, de lobo, seguindo os desígnios
perfeitos da natureza.
|