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O INIMIGO MORA AO LADO
Antonio Werneck
No primeiro
contato, medo: o policial fala tão baixo que é quase impossível ouvir seu
relato pelo telefone. Sussurrando, explica que não pode falar mais alto
porque há gente em frente à sua residência. As pessoas que impedem o
policial de usar livremente seu telefone são traficantes de drogas que
montaram um ponto de venda perto de sua casa, uma construção humilde numa
favela do Rio. Cabo da PM, ele não é o único a viver perto de tão incômoda
companhia. Levantamento do Serviço Reservado da PM (P2) entregue à
Secretaria de Segurança identificou 2.800 PMs — quase 10% de todo o
efetivo — morando em condições semelhantes na Região Metropolitana do
Rio.
Na Polícia Civil, o problema se repete, segundo Fernando
Bandeira, presidente do Sindicato dos Policiais Civis do Rio. Ele calcula
que 1.200 profissionais estejam vivendo em favelas ou conjuntos
habitacionais dominados por traficantes no Grande Rio. O número representa
cerca de 10% do efetivo.
— É uma estimativa, mas o percentual pode ser bem maior,
cerca de 50% do
efetivo das duas polícias, se levarmos em consideração os policiais que
moram em áreas de risco, perto de favelas — diz Bandeira. Policiais não
usam fardas onde moram Assim como o cabo da PM, os demais policiais civis e
militares que vivem em áreas críticas, dominadas por bandidos, passam seus
dias com medo. Muitos
sequer se apresentam em sua comunidade como policiais, não andam fardados
e,
em vários casos, chegam a respeitar o toque de recolher imposto pelos
traficantes.
— Quando deixo o trabalho à noite, não volto para casa.
Durmo no quartel —
diz um sargento da PM.
Para não morrer, esses policiais também são forçados a
fazer vista grossa ao
funcionamento de bocas-de-fumo perto de suas residências:
— Já recebi várias ameaças. A última aconteceu após uma
operação da PM. Os
traficantes ficaram gritando em frente à minha casa: “Tem X-9 (alcagüete)
na área, tem X-9 na área”. Fiquei quieto. Afinal, o que poderia fazer?
— pergunta um policial militar.
Há três anos morando numa favela, um policial civil foi
obrigado a abandonar
sua casa há três meses, depois de ser ameaçado por bandidos armados. Ele
foi
abordado quando chegava em casa:
— Fui rendido por traficantes armados numa noite e nem sei
como não acabei
executado. Na manhã seguinte, deixei minha casa com a família. Um amigo
foi pegar minhas coisas para fazer a mudança.
Relatos assim viraram rotina no Rio. Bandeira lembra que,
recentemente, policiais foram ameaçados na Rocinha, na Barreira do Vasco e
em favelas situadas nos complexos do Alemão e da Maré.
— Tivemos relatos também de problemas na Baixada Fluminense
— completa
Bandeira.
O presidente da Associação de Cabos e Soldados da Polícia
Militar, Wanderley
Ribeiro, afirma que a situação dos policiais militares é gravíssima:
— O PM que mora na favela vive com medo e tem que suportar
muitas cantadas
para não passar para o outro lado. É preciso que o governo do Rio resolva
essa situação o mais rapidamente possível.
O medo dos policiais é justificado pelas estatísticas que
mostram que a violência sofrida por eles aumentou este ano. Nos dez
primeiros meses de 2000, um levantamento feito pela Secretaria de Segurança
revelou que 80 policiais civis e militares tinham sido assassinados no
estado. Este ano, até setembro, o número de mortos já chega a 110 nas
duas corporações. No ano passado, foram mortos 98. A grande maioria é
assassinada nos dias de folga. Dezessete mil na fila da casa própria. Uma
saída para os policiais deixarem as favelas seria a casa própria. Mas,
segundo o presidente da Associação de Cabos e Soldados da PM, os juros
altos
cobrados pela Caixa Econômica Federal impedem que essa aspiração se torne
realidade.
— Com o salário que o soldado recebe, ele só tem a opção
de alugar uma casa
na favela ou em outras áreas de risco. Eu espero que a situação se altere
com a mudança no governo federal — diz Ribeiro.
Segundo informações obtidas pelo GLOBO na Subsecretaria
Administrativa da
Secretaria de Segurança, existem 17 mil policiais (a maioria deles PMs)
cadastrados no programa Moradia Segura à espera de uma chance de comprar a
casa própria. O programa, fruto de parceria entre a Secretaria estadual de
Habitação e a CEF, oferece condições mais acessíveis para o
financiamento de um imóvel para o policial.
O Moradia Segura foi criado durante o governo Marcello Alencar,
prosseguindo no governo de Anthony Garotinho e na gestão de Benedita da
Silva. O policial que se habilita a um financiamento do programa e ganha até
mil reais por mês, por exemplo, paga 6% de juros ao ano, acrescido da TR
(taxa de referência). Se o financiamento fosse obtido diretamente na CEF, o
mesmo policial pagaria o dobro de juros. Há financiamentos também para
policiais que recebem entre mil reais e R$ 2 mil (juros de 8,16%); e entre
R$ 2 mil e R$ 3.200 (10,16%).
— Para o policial civil, os juros cobrados ainda são muito
puxados — diz Fernando Bandeira.
Para se habilitar ao financiamento, o policial preenche uma
ficha fornecida pela Caixa Econômica Federal, como qualquer outro
interessado. Se o cadastro for aprovado, ele entra na fila e fica esperando
sua vez de comprar a casa própria.
— O problema, por incrível que pareça, é que tem
construtor oferecendo à secretaria projeto de moradia em áreas de riscos
— contou ao GLOBO um oficial da Secretaria de Segurança Pública, que
pediu para não ser identificado.
Wanderley Ribeiro diz que, com o agravamento da violência no
Rio de Janeiro, aumentou o número de relatos de policiais que foram ameaçados
por traficantes e tiveram que deixar suas casas com parentes.
— Soube de um caso outro dia mesmo. O policial militar ganha
muito pouco. O
soldo é horrível. Se com esse dinheiro ele não consegue nem pagar o
aluguel
num lugar seguro, imagine comprar uma casa própria — diz Ribeiro.
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