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HETEROGENEIDADE CONTROVERTIDA Alberto
Afonso Landa Camargo Sempre fui um questionador por excelência. Quando aluno na Academia de Polícia Militar eu já não me satisfazia com a pretensão dos meus superiores em quererem que todos os alunos fossem iguais e pensassem sempre a mesma coisa. Lembro de uma frase que corriqueiramente era repetida com incontido orgulho para definir-nos: “não somos melhores nem piores que ninguém; somos apenas diferentes”. Pois isto sempre me fez questionar por quais razões seria eu diferente se sempre pertenci a uma sociedade de onde todos provêm. Tinha desejos, aspirações, defeitos, virtudes como qualquer outra pessoa - embora não os mesmos é claro – ora bom, ora mau, pensava em sexo e gostaria de ler revistas pornográficas como qualquer jovem da minha idade na época que não estava na Brigada... O
fato é que os meus impulsos questionadores terminaram por, num primeiro
momento, a fazer com que meus colegas me rotulassem de “criador de
casos” e num segundo momento, já como oficial, acabou por me condenar a
ser sempre promovido por Antigüidade, além de a uma série de preterições
por colegas mais modernos que eram regularmente promovidos por merecimento.
É claro que conquistei, também, um depreciativo rótulo de
“subversivo”, este por querer com minhas idéias, “transformar a
Brigada Militar numa entidade socialista com igual regime”. A
idéia de que todos os militares da Brigada deveriam ser homogêneos era tão
grande, que sempre se considerou o alcoolismo - internacionalmente
reconhecido como uma doença - como transgressão disciplinar. Antanho eu já
questionava como hão de querer que um policial trate um bêbedo com
humanidade, se na caserna a embriaguez dá cadeia? Aliás, até o erro, uma
característica imanente de qualquer ser humano, era punível. Afinal, como
seres “apenas diferentes”, queriam na realidade dizer que precisávamos
ser perfeitos. Pois
passados mais de trinta anos desde que incluí na Brigada, quando
hodiernamente se fala em polícia comunitária, em polícia próxima da
sociedade, vejo que a coisa não mudou muito nessas três décadas em que
militei na Polícia Militar. Participante de um grupo de discussões sobre
polícia, mal surgiram assuntos de política e sobre a nossa tão maltratada
Amazônia, que não estão teoricamente ligados diretamente ao nosso meio, vários
colegas manifestaram-se descontentes com o rumo das discussões e, de forma
radical, alguns já anunciaram a sua incontinenti retirada do grupo. A alegação
é de que esses assuntos não pertencem ao nosso universo, como se pudéssemos
nos alijar da realidade, sequer manifestando alguma brincadeira mais
inocente numa atitude descontraída própria de qualquer mortal que não faça
parte deste mundo de "perfeições" no qual pretendem que labutemos. Lembrei-me,
assim, de quando queriam que todos os alunos do meu tempo só pensassem e
discutissem sempre as mesmas coisas fechadas nos assuntos de polícia, este
ente diferente e afastado de tudo que faz parte das patetices mundanas
(discutir “abobrinhas” como já foi dito entre nós). Assim, ao tentarem me impelir a discutir sempre as mesmices que fazem parte do nosso mundo fechado de alguns, concluí que, ainda hoje, por mais que tirem a farda, muitos não perdem o cacoete de pensar absurdamente que somos diferentes e perfeitos e que as discussões de assuntos que não estão relacionados diretamente com a sua megalomania pertencem a um mundo de imperfeições do qual só fazem parte reles mortais frustrados porque nunca vestiram uniforme. |
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