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Retratos
da guerra brasileira
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Os
enviados especiais de ZH ao Rio acompanharam chacinas, perseguições
e ocupações de favelas na mais cruenta batalha urbana do país, na
semana em que o ex-governador Garotinho deu início a nova estratégia
de combate ao narcoterror (foto Ronaldo Bernardi/ZH)
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Cenas da guerra civil no Rio
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TEXTOS:
HUMBERTO TREZZI FOTOS: RONALDO BERNARDI/ Enviados Especiais/Rio
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A guerra civil que assola o Rio há
duas décadas inverte valores e subverte a lógica. PMs escondem a
farda quando saem do quartel para não serem mortos por bandidos,
enquanto repórteres vestem coletes à prova de balas e usam carros
blindados para subir os morros. Policiais são alvo de atentados,
peritos só trabalham com escolta e presos ditam quem vive, quem morre
e quem deve ser banido das favelas.
Por trás deste cenário, ronda a morte, transformada em espetáculo
banal. Como torcidas de clubes, facções criminosas disputam território
em nome de siglas temidas por todos, como CV, ADA e TC. A diferença
é que, em lugar de bandeiras, os torcedores carregam fuzis e lança-granadas.
Em vez de festas, promovem chacinas.
Na semana em que o novo secretário da Segurança Pública, Anthony
Garotinho, assumiu a função, ZH foi ao Rio retratar a guerra que
contamina o Estado.
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Brincando
no rádio antes do combate
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Sargento
no Grupamento Especial Tático Móvel (Getam), bicho-papão da PM
carioca, Ramiro tira o dedo do fuzil por um instante e aperta o botão
do rádio Motorola: - Fala aí, Três C... Vou rodar geral, vou
quebrar coco. Te cuida, tá ligado!
Logo uma voz aguda rompe a estática do rádio. Entre chiados, alguém
avisa:
- Tem nada pra fazer aí não, ô verme? Vem que a parada é dura.
O que parece um diálogo entre amigos é o desafio a um duelo. Na gíria
dos morros cariocas, Três C... é o integrante do Terceiro Comando,
uma das três principais facções criminosas do Rio e que controla
cerca de 40 favelas. Verme (ou comando azul) é como os policiais são
chamados pelos bandidos.
Na noite de quarta-feira, 30 de abril, os PMs que patrulham a Linha
Amarela (artéria viária que corta a Capital de Leste a Oeste), nas
cercanias da Cidade de Deus, estão irritados porque têm o silêncio
do rádio cortado sistematicamente por criminosos que invadem a freqüência.
Mais aborrecidos ainda porque têm ordens expressas do novo secretário
da Segurança Pública, Anthony Garotinho, de não ocupar morro sem um
forte motivo. A idéia é acalmar os ânimos, ocupando as vias
expressas do asfalto (além da Linha Amarela, a Avenida Brasil e a
Linha Vermelha, no sentido Norte-Sul) e evitando as invasões de
favelas. As ocupações se limitam a avenidas, sem incursões pelas
vielas.
Cansados de provocar pelo rádio os policiais e não obter reação,
os traficantes da Cidade de Deus se divertem atiçando os rivais do CV
(Comando Vermelho), que dominam a vizinha Vila do João e outras 80
favelas.
- O rodo vai passar, vai ser faxina geral - ameaça o integrante do TC,
recebendo palavrões como resposta.
A faixa de onda da PM vira zona livre. Quase sempre a brincadeira
termina mal. Há 10 dias, na Linha Amarela, bandidos numa passarela
atacaram um comboio de PMs com metralhadora antiaérea. Um microônibus
foi furado a tiro e caiu em um valão.
Atirar nos policiais, depois de brincar no rádio, é outra das diversões
escolhidas pelos traficantes para quebrar o tédio. Que o diga o
soldado Paulo (o nome foi trocado), 28 anos, oito de PM, que na noite
de quarta-feira patrulhava em dupla uma das 15 confluências da Linha
Amarela com favelas da periferia. O Gol que ele e o colega usam, com
giroflex, é o alvo do treinamento de tiro dos traficantes do Morro do
Adeus (dominado pelo TC), em guerra com os da Vila da Penha (sob domínio
do CV).
A mureta central da pista da Linha Amarela, junto à viatura da PM,
está toda furada a tiro.
- O pior é que, quando a gente ouve o barulho, a bala já passou. É
tiro toda noite, até acostuma. E nem posso devolver, senão mato
algum inocente num barraco - explica o soldado.
Sem água nem banheiro, com ordens de ficar parado 12 horas no mesmo
ponto da via, Paulo é o retrato do desânimo. Ganhando R$ 800
mensais, está atrás de um bico, mas não consegue, porque as vagas
de segurança estão disputadas. Quando faltou casa para morar, meteu
o pé na porta de uma residência que estava com placa de
"Aluga-se" há três anos, invadiu e deixou ali a família:
- Era isso ou morar em favela, morte certa.
O soldado é nostálgico da época em que "para cada policial
morto baixavam 10 bandidos no inferno". Para surpresa do PM, a média
está próxima disso. Em março deste ano, morreram 113 pessoas no Rio
em confronto com policiais, contra 63 no ano passado. Entre civis e
militares, o número foi 13.
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Baixas
de março
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Morreram
113 pessoas em confronto com policiais.
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Entre
policiais civis e militares,o número de mortes foi 13.
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Imprensa usa carro blindado e PM tira a farda
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"É
a nossa guerra, não é brinquedo", diz o fotógrafo do jornal
Extra Guilherme Pinto (à direita na foto), que anda em carro
blindado com o repórter Jorge Machado (de colete à prova de balas)
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Todo mundo já sabe que
repórter carioca não precisa sair de casa para ser correspondente de
guerra. A novidade é que os jornalistas do Rio, ao entrar em favelas,
passaram a usar parafernálias de segurança características de países
em conflito.
Nas Organizações Globo, a orientação virou regra, apelidada Efeito
Tim Lopes (repórter da TV Globo esquartejado por traficantes no ano
passado). Os jornais do grupo têm veículos blindados para subir
morros que vivem situações de confronto.
No jornal Extra, um Golf. Em O Globo, uma Blazer. As TVs Globo e
Record adotaram ainda coletes à prova de balas para profissionais em
missões de risco.
- O legal dessa história é que o carro tem ar-condicionado - brinca
o repórter Jorge Machado, 23 anos, há três atuando no Extra, que
dispõe de colete à prova de balas com as inscrições Imprensa
desenhadas em letras garrafais.
- Essa é a nossa guerra, não é brinquedo - justifica o experiente
fotógrafo Guilherme Pinto, também do Extra.
Enquanto os repórteres cada vez mais se parecem com soldados, os
militares, quando de folga na PM, fazem de tudo para esconder a
identificação.
O motivo é a série de assassinatos premeditados que estão sendo
cometidos contra policiais civis e militares fluminenses desde que o
chefão do tráfico carioca, Luiz Fernando da Costa, o Fernandinho
Beira-Mar, jurou vingança por ter sido exportado para prisões de
outros Estados (São Paulo e Alagoas).
Só na primeira semana da gestão de Anthony Garotinho, três
policiais (dois civis e um militar) foram executados a tiros. Um
deles, o detetive André Luiz Prata (lotado na 37ª Delegacia da Polícai
Civil, da Ilha do Governador), foi esquartejado.
- Saio do quartel vestido de camiseta, calça jeans e tênis. Escondo
a farda numa sacola, e a pistola, embaixo da blusa. Vou de ônibus
para casa, e os vagabundos fazem blitze nas pistas para assalto ou
somente para conferir se tem inimigo dentro. Se desconfiarem de que
sou policial, sou morto na hora - justifica o tenente Sérgio S., que
atua no Batalhão de Choque, um dos mais temidos da Polícia Militar.
Só em março deste ano, o tenente Sérgio perdeu dois colegas
oficiais da sua unidade, um deles assassinado dentro de um ônibus,
quando bandidos perceberam a sua carteira funcional.
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PMs
viram alvo e pastor pede proteção
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Depois de alguns dias
de trégua, o narcoterror voltou a mostrar as suas garras na madrugada
da última quinta-feira no Rio. Armados com metralhadoras, quatro
ocupantes de um Siena abriram fogo contra uma cabine da Polícia
Militar no subúrbio do Méier (Zona Norte).
Eram aproximadamente 3h, e os três policiais que estavam de plantão
na cabine se jogaram ao chão para escapar das rajadas. A vidraça foi
destruída, e balas acertaram os prédios vizinhos, mas ninguém se
feriu. Os bandidos foram perseguidos, mas conseguiram escapar do
local.
Longe dali, em Manguinhos (Zona Oeste), uma viatura da PM foi atingida
por uma série de disparos. Ali também ninguém ficou ferido.
Em Cidade de Deus, famosa por ter inspirado o filme brasileiro de
maior sucesso no ano passado, o pastor evangélico Orlando Pacheco
requisitou proteção policial para se mudar. Amigo pessoal do secretário
da Segurança Pública, Anthony Garotinho, ele acusou os traficantes
Pará e Carlinhos, que mandam no bairro, de tentar extorqui-lo em R$ 4
mil.
Ex-governador, Garotinho ordenou uma blitz na favela, mas não foram
efetuadas prisões. O pastor e sua família foram escoltados pela PM
até um refúgio no centro da cidade.
No mesmo dia, a violência fez uma confeitaria centenária fechar as
suas portas para o público. A Leiteria Silvestre, instalada no centro
do Rio há mais de um século, deixou de funcionar na sexta-feira
"em função dos assaltos contra os clientes que deixavam o prédio",
justificou o gerente do estabelecimento, o português Armando Jorge.
Ele culpou também as brigas entre os camelôs e os fiscais da
prefeitura pela perda de 50% da clientela ao longo deste ano. Os 13
funcionários do estabelecimento, situado na Rua São José e um dos
mais conhecidos do Rio, ficaram desempregados.
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