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A Porto Alegre que
está em guerra
ADRIANA IRION
E CLARICE ESPERANÇA
Há
uma Porto Alegre em guerra.
Nas
zonas conflagradas, os moradores encontram buracos de bala em suas
moradias, temem falar com estranhos, trancam-se em casa à noite e
sabem que atravessar uma rua pode significar a morte. Eles vivem sob
o domínio de grupos armados, geralmente traficantes, detentores de
um arsenal que inclui fuzis.
No
Loteamento Cavalhada, na Zona Sul, o palco da batalha é a
empoeirada Rua 4.523 ou Avenida Principal. Há anos, ela está
dividida por um conflito que amedronta as cerca de 500 famílias que
vivem no local. Quem percorre os seus primeiros 300 metros está na
base geográfica de um grupo. Os 350 metros adiante, em direção ao
interior do loteamento, são dominados por inimigos.
Neste
segundo trecho ficam uma escola, uma creche, o posto de saúde e
campos de futebol. A Rua da Fé é o limite dos territórios. Quem
ousa cruzá-la, é recebido a tiros.
–
O pessoal lá de baixo, os marcados, não pode vir aqui no posto. E
muitos moradores de lá fazem um desvio para chegar aqui – conta
uma funcionária do posto de saúde.
Em
29 de dezembro, a estudante Thielen Fontoura Scartezine, 10 anos,
pisou em área de risco e morreu baleada na cabeça em meio a uma
troca de tiros. A menina havia se afastado poucos metros de casa
para comprar um sorvete. O caso está sem solução até hoje.
–
As crianças viram ela no caixão sendo enterrada. Uma menina
pergunta até hoje “por que botaram a Thielen no buraco?” As
crianças têm medo até do som de foguetes – diz uma moradora,
que teme ser identificada.
A
mesma divisão de territórios impera quilômetros ao Leste, na Vila
Jardim. No bairro de classe média, as áreas são demarcadas por exércitos
de traficantes com clientela abundante, formada por freqüentadores
de casas noturnas próximas. A disputa pelos consumidores é feita
à bala, entre grupos estabelecidos na Rua Aldrovando Leão, na
parte alta do bairro, e os que dominam o chamado Cantão, na parte
baixa, um cruzamento das ruas Alberto Barbosa e Marajó.
O
combate impede moradores jurados de morte de cruzarem certas ruas,
de ir ao posto de saúde cujo zoneamento pertencem e de sair de casa
depois que escurece. Sete pessoas já foram mortas desde janeiro. A
maioria, suspeita de envolvimento com as gangues.
–
Muitas mulheres têm ansiedade, problemas para dormir. A população
é muito vulnerável a tiroteios – conta Angela Carmela Arena,
assistente social do posto de saúde Vila Sesc, na Rua Aldrovando Leão.
Uma
dona de casa de 49 anos teve de fazer um tratamento depois de
assistir, com toda a família, à execução de Charles Wilson Nunes
de Assunção, 31 anos, em um campo de futebol próximo, durante um
torneio do bairro, no dia 14 de abril, um domingo. No meio da tarde,
um grupo invadiu o campo e começou a disparar. Ao lado do corpo, a
polícia encontrou 15 cartuchos intactos e 22 deflagrados.
–
Eles vinham com toucas, óculos escuros, jaquetas de couro e muitas
armas. Achei que era brincadeira. De repente, começaram a atirar.
Um amigo do meu filho foi baleado de raspão, e a minha filha só não
foi atingida porque se atirou no chão. Quando me deito e me lembro,
fico em pânico – relata.
O
medo aumenta nos fins de semana, quando o risco de tiroteios é
maior. Na madrugada da Sexta-feira Santa, outra moradora, uma
faxineira de 32 anos, foi atingida por uma bala perdida dentro de
sua casa de madeira. O disparo perfurou-lhe a nádega e saiu pela
virilha.
–
Entrou uma coisa ardendo, minha perna ficou dormente e eu vi o
sangue saindo. Hoje, quando chega sexta-feira, boto meus seis filhos
para dormir no chão, até o domingo. Não tenho paz – confessa.
Se
Porto Alegre não chegou ao ponto de ter de transferir centenas de
moradores devido à luta de traficantes – como ocorreu no Rio
semana passada –, também aqui há refugiados. No último dia 23,
um jovem, catequista de uma comunidade religiosa, foi até o posto
da Brigada Militar (BM) na Vila Tronco, bairro Santa Tereza, Zona
Sul. Chorando, pediu ao único PM de plantão uma escolta para fazer
a mudança de seu barraco.
O
rapaz de 23 anos temia ser morto. Era ameaçado por ter permitido à
polícia entrar em seu pátio, onde, na noite anterior, havia
tombado um homem ferido em um tiroteio. Na troca de tiros, morrera
outro jovem.
–
Não agüento mais. Eles coagem jovens a participar da venda de
drogas. Primeiro fazem o cara se viciar, depois o obrigam a
participar do negócio, ameaçando com violências contra ele ou
contra sua família. Dominam tudo. À noite, a BM pede licença para
entrar – desabafou, enquanto esvaziava o casebre onde morava com a
irmã, o cunhado e o sobrinho de dois anos, sob o olhar vigilante de
três PMs com espingardas em riste.
A
algumas quadras, na Rua Banco Inglês, um aposentado de 66 anos
conta que o cotidiano da família se transformou em suplício por
causa da ameaça dos soldados do tráfico, que andam pelas ruas com
as armas à mostra e o rosto oculto por toucas ninja:
–
Espero meu filho, que chega todos os dias da faculdade às 23h, de
arma na mão. Num domingo, durante um churrasco, um homem que fugia
de um grupo armado pulou dentro do meu pátio. Eles só não
penetraram na minha residência porque peguei minha arma e ameacei:
“Vivo, ninguém entra aqui”.
Também
há áreas conflagradas na Zona Norte. No bairro Rubem Berta, por
exemplo, o enfrentamento se dá entre “os de cima” e “os de
baixo” da Rua Wolfran Metzler, onde fica uma escola, um posto de
saúde, duas creches e a associação dos moradores. Em abril, o
assassinato de um traficante gerou dias de terror, com tiroteios e
toque de recolher.
–
Estamos no meio do conflito, sujeitos a sofrer violências. Há
casos de mães que pedem a transferência de seus filhos de outras
escolas próximas porque ele está jurado de morte na outra quadra
– afirma Iara Ramme, diretora da Escola Municipal Grande Oriente.
Quadras
distante, o industriário Réverson Souza de Oliveira, 33 anos,
morador do Condomínio Costa e Silva, no mesmo bairro, também se
ressente. Seus filhos não estudam em escolas na região. E o
namorado de sua filha foi ameaçado por não ser da área.
O
mesmo terror que ultrapassa os limites dos campos de batalha no
Rubem Berta, na Vila Jardim e em Santa Tereza já extrapolou também
o Loteamento Cavalhada. O bangue-bangue invade apartamentos e
coberturas da Avenida Cavalhada. Na manhã de Natal, o advogado
Osvaldo Lucas, 50 anos, descobriu um buraco na parede da cobertura e
achou uma cápsula deflagrada no chão. Ele guarda até hoje o
cartucho, como um símbolo:
–
Sempre sonhei com uma cobertura. Agora, sonho viver em outro lugar.
Todos os dias chego em casa e vou ver se os vidros não foram
quebrados por tiros.
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