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Violência
expulsa alunos da escola
Estudantes estão
abandonando salas de aula em Porto Alegre por medo do confronto entre
gangues
RODRIGO
LOPES
–
A situação aqui está difícil. Não temos liberdade para ir à escola.
Eles ficam armados na porta e não têm horário para assaltar. Já deixei
de ir à aula porque há tiroteios de manhã e de tarde. Penso em largar o
colégio.
O
desabafo de uma estudante de 16 anos, moradora do Loteamento Cavalhada, zona
sul de Porto Alegre, expõe uma chaga aberta na educação gaúcha: a violência
está tirando alunos da sala de aula.
Em
Porto Alegre, 140 estudantes da Escola Municipal Neuza Brizola abandonaram
ou pediram transferência do colégio entre dezembro e março, segundo o
Conselho Tutelar da Microrregião 6, responsável pelas zonas centro-sul e
sul da Capital. Pelos cálculos da direção, dos 580 alunos matriculados
este ano, apenas 380 continuam freqüentando as aulas. Para a direção da
escola, o motivo do alto índice de evasão é um só: o medo.
A
tensão no bairro aumentou depois da morte da menina Thielen Fontoura
Scartezine, 10 anos, atingida na cabeça durante um tiroteio, quando saía
para comprar sorvete perto de sua casa, no final de dezembro. A Neuza
Brizola fica no centro de territórios disputados a tiros por quadrilhas
rivais.
Sob
condição de anonimato, a estudante de 16 anos revela que, em dias de troca
de tiros nos arredores da escola, os alunos são obrigados a ficar agachados
ao final das aulas no interior do prédio.
–
Tenho de fazer um trajeto maior para chegar à escola, porque não posso
passar pela avenida principal, dominada por uma das gangues – conta.
As
declarações da jovem rompem o tradicional silêncio. No bairro Rubem
Berta, zona norte da Capital, por exemplo, assassinatos ligados ao tráfico
de drogas estão entre as maiores causas de morte. Os estudantes sabem de
cor as áreas proibidas, mas o terror faz com que prefiram não falar à polícia.
Pesquisa
da Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura
(Unesco) revelou índices de violência em Porto Alegre comparáveis a números
alarmantes de Rio e São Paulo. Na Capital, 49% dos professores
entrevistados apontaram o conflito entre quadrilhas pelo controle do tráfico
como um dos maiores problemas.
–
As escolas viraram reféns das gangues e das drogas. Estão brincando com a
vida dos alunos. Falta policiamento – alerta Raul Gomes de Oliveira Filho,
presidente da Federação das Associações e Círculos de Pais e Mestres do
Estado (ACPM).
A
violência transformou colégios em fortalezas, nem sempre invulneráveis.
Na Escola Estadual Itamarati, no bairro Sarandi, onde um PM que vigia a
entrada foi espancado e baleado na frente dos alunos no ano passado, um portão
de aço de dois metros protege a entrada há quatro anos. Desde o incidente,
em dezembro, a escola está sem guarda. Aparatos de segurança como câmeras,
na Escola Estadual Oscar Tollens, no Partenon, e catracas eletrônicas, no
Colégio Protásio Alves, Azenha, tentam manter o medo do lado de fora.
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MEDO
NA SALA DE AULA
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Pesquisa
da Unesco ouviu 2 mil alunos, 311 professores e 557 pais em 21
escolas (16 públicas e cinco particulares) da Capital. Veja o que
eles relataram:
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Gangues
ou tráfico de drogas são o maior problema – * 49%
Relatos de roubos de carros ou objetos pessoais na escola – **
38%
Relatos de depredação da escola – ** 26%
Relatos de agressões ou espancamento de alunos, pais ou
professores – 23%
Relatos de assaltos a alunos, pais ou professores no ambiente da
escola ou imediações – 16%
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*
Respostas da amostra de professores
** Respostas da amostra de alunos
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QUEM
FAZ A SEGURANÇA
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Arrombamentos
com furto em escolas do Estado
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2001
– 2.128
2000 – 2.192
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Furto
simples em escolas do Estado
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2001
– 3.530
2000 – 3.207
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Número
de escolas
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ESTADUAIS
– 3.031 (490 na Capital)
MUNICIPAIS DA CAPITAL– 91
PARTICULARES 1.648 – (503 na Capital)
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Seis
instituições arrombadas por dia no Estado
Seis
escolas, em média, são vítimas de furto e arrombamentos no Rio
Grande do Sul a cada dia, segundo a Secretaria da Justiça e da
Segurança (SJS).
Em
2001, foram 2.128 arrombamentos no Estado. Com pequenas variações,
as cenas se repetem: vidros quebrados, equipamentos eletrônicos e
merenda roubados e uma legião de estudantes sem aula.
Na
madrugada de quarta-feira, assaltantes invadiram a Escola Municipal
Lauro Rodrigues, no bairro Jardim Ingá, zona norte da Capital, e
roubaram aparelhos de fax, telefones, computadores, merenda e R$ 1
mil do cofre.
O
guarda municipal de plantão na escola percebeu três homens no pátio
por volta das 4h30min. Ao verificar a movimentação, encontrou próximo
ao muro cinco monitores de computador, duas copiadoras, teclados e
CPUs em sacos no chão, prontos para serem carregados. As salas
reviradas e o material escolar jogado no chão revoltaram a
orientadora educacional Telma Machado Lamas, há 12 anos no local.
–
Quando vim para cá, não tinha luz nem água, hoje tem até
computador. A gente está sempre batalhando pelo melhor, mas o
melhor não chega – desabafa.
As
aulas foram suspensas por um dia, prejudicando mil alunos.
No
bairro Petrópolis, a violência deixou outro 600 estudantes fora da
Escola Estadual Imperatriz Leopoldina por cinco dias, depois de um
arrombamento no último final de semana. Os assaltantes levaram uma
copiadora, extintor de incêndio, caixas de som, bolas, furadeira,
microscópio, telefone, impressora e parte da merenda escolar.
–
Quando dissemos que não teria aula, os alunos pequenos baixaram a
cabeça, como se estivessem de luto. Isso dói – lamenta a
diretora, Rosiane Taim Stankievich.
O
arrombamento foi antecedido por duas ligações a cobrar com ameaças
nos dias 17 e 18. Segundo Rosiane, até sexta-feira pelo menos dois
estudantes e duas professoras pediram transferência da escola.
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QUEM
FAZ A SEGURANÇA
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PM
Residente
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PMs
que moram nas escolas estaduais. Nas horas vagas, são
zeladores. São 280 PMs (141 na Região Metropolitana)
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Corpo
Voluntário de Militares Inativos (CVMI)
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É
a guarda escolar. PM da reserva, que atua voluntariamente
na segurança de escolas estaduais manhã e tarde. Limite
de idade de 60 anos. São 1.371 PMs (77 na Região
Metropolitana)
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Programa
Educacional de Resistência à Violência (Proerd)
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Desde
1998, 74.849 crianças participaram do programa da BM. Ao
longo de um semestre, os alunos estudam as conseqüências
do álcool e do cigarro, aprendem a diferenciar maconha,
cocaína e inalantes e são orientados a se afastar da
violência. Em 2001, o programa atingiu 1.624 escolas de
451 municípios
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Guarda
Municipal da Capital
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A
segurança nas escolas municipais da Capital é feita por
300 homens, que trabalham fixo em 60 estabelecimentos
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Fontes:
secretarias Estadual da Educação, da Justiça e da
Segurança e Municipal de Educação e Brigada Militar
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Mães
zelam pelos filhos no recreio
Preocupadas
com a falta de segurança, um grupo de mães do bairro Medianeira,
na Capital, decidiu acompanhar a vida escolar dos filhos em tempo
integral. A dona de casa Cláudia Regina Martinez, 31 anos, mãe de
duas filhas, de sete e de 10 anos, que estudam na Escola Estadual
Venezuela, integra um grupo que acompanha o recreio das crianças.
Cláudia
é uma das sete integrantes do Projeto Mães Voluntárias, iniciado
ano passado pela direção e pelo Círculo de Pais e Mestres. O
objetivo é a participação das famílias na recreação dos
alunos: as mães jogam bola, pulam corda e brincam. Segundo Cláudia,
com o aumento da violência nos arredores do estabelecimento, o
grupo passou a atuar também na prevenção de assaltos.
–
As mães são a segurança da escola – garante.
Na
última segunda-feira, um homem armado invadiu o pátio do colégio
quando as crianças preparavam uma apresentação do Dia do Índio e
tentou render o PM que guarda a entrada.
–
Foi um pânico geral. Depois do Hino Nacional, o homem entrou e
ficou apontando a arma – conta uma das mães.
O
PM sacou a arma, e o assaltante fugiu. A polícia investiga o caso.
Os pais dizem que a região é disputada por gangues.
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Desenhos
e redações denunciam o medo
No
centro da guerra travada entre quadrilhas no bairro Rubem Berta, na
Capital, estão os 2.208 alunos, 120 professores e 25 funcionários
da Escola Municipal Grande Oriente.
O
cotidiano de medo é refletido em aula. Professores dizem ser comuns
desenhos e redações em que alunos expressam cenas de violência.
Maior
bairro do Estado, com 78 mil habitantes, o Rubem Berta é alvo de um
toque de recolher diário a partir das 17h, imposto a moradores e
comerciantes pelas gangues. O confronto das facções divide a área
mais alta e a baixa do bairro.
–
O tiroteio ocorre à noite, mas há dias em que é impossível sair
de casa de manhã para ir à aula. Há risco de bala perdida. Já
faltei a muitas aulas por isso. Morro de medo – relata uma jovem
de 15 anos.
A
violência aparece nos trabalhos escolares. Um aluno descreveu em um
texto um jogo de futebol com uma bola feita de um saco recheado com
gatos vivos. Em um desenho, outro estudante retratou uma pessoa
rindo enquanto chuta a cabeça de outra, no chão.
–
Alguns têm comportamento agressivo. Se um colega olha diferente, é
suficiente para um empurrão. Falam que um cara está morto como se
estivessem vendo alguém passar – conta a diretora, Iara Ramme.
Para
a psicóloga e psicopedagoga infantil Aidê Knijnik, os estudantes
vivem uma realidade que banaliza a violência. A saída, diz a
especialista, é canalizar a energia para o esporte ou outras
atividades. Na Grande Oriente, há aulas de capoeira e dança.
–
Graças a Deus, ainda há sentimento. À noite, os estudantes
demonstram mais cuidado com os professores. Pedem para usar crachá
com foto, para que possamos identificá-los. Quando saem, desejam:
“vai com Deus” – diz Iara.
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CONTRAPONTO
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O
que diz o coronel Ilson de Oliveira, comandante do
Policiamento da Capital da BM:
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“Não
há como pôr um homem em cada local de risco. O
policiamento se faz por meio da possibilidade de estar no
local com mais rapidez. Em Porto Alegre, nos horários de
aula, cobrimos quase todas as escolas. Em 77, tem o guarda
escolar. Nas demais, temos patrulhas escolares.
Nos fins de semana, não há como deixar um guarda em cada
escola. As entidades têm de criar dispositivos que
colaborem com sua segurança. Em relação às escolas do
Rubem Berta e da Cavalhada, estamos trabalhando
fortemente. Na Zona Sul, está havendo um trabalho
integrado com o Ministério Público contra essas gangues.
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CONTRAPONTO
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O
que diz João Carlos Feix, da 1ª Coordenadoria Regional
da Secretaria Estadual da Educação:
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“Garantimos
o maior número de alunos em sua escola de zoneamento.
Isso faz com que o aluno fique um pouco longe da violência.
Não é só pela violência que temos evasão. A maioria
dos arrombamentos ou destruição do patrimônio escolar
era feito por pessoas próximas à escola. Com a
Constituinte Escolar, procuramos pautar discussões sobre
segurança, tentando apontar que a escola se transforme em
um espaço referencial.
Não queremos trabalhar na lógica de que a saída é a
intimidação ou a repressão. Temos PMs residentes em
mais de cem escolas de Porto Alegre. Temos essa preocupação
do policiamento, mas não apostamos nele como solução.
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CONTRAPONTO
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O
que diz Davi Schimidt, secretário adjunto da Secretaria
Municipal de Educação (Smed) de Porto Alegre:
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“Temos
300 guardas municipais em nossas escolas. Todas têm
alarme integrado. Onde não há guarda fixo, existe ronda
noturna. Estamos nomeando mais 101 guardas, dos quais 80%
vão para escolas. Criamos um fórum municipal de prevenção
à violência no meio escolar, que se reúne
periodicamente para analisar como está a situação e
para coordenar ações. Temos uma política de educação
para a paz. É muito sério constatar que a violência
impede o desenvolvimento dos nossos alunos.
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