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OS
EUA GRAMPEARAM O ALVORADA
Confira a íntegra da entrevista de Carlos Costa, que chefiou o FBI no Brasil
por quatro anos.
Por Bob Fernandes
CartaCapital: Você chefiou o FBI no Brasil? Por quanto tempo?
Carlos Alberto Costa: Chefiei o FBI no Brasil. Por quatro anos, até quase o
final do ano.
CC: Como eram, são, as relações dos serviços secretos dos Estados
Unidos com as polícias do Brasil?
CAC: Você se refere à polícia de vocês ou à comprada por nós?
CC: Comprada?
CAC: Sim, comprada. Nossas agências doam milhões de dólares por ano
para a Polícia Federal, há anos, para operações vitais. No ano passado, a
DEA doou uns US$ 5 milhões, a NAS (divisão de narcóticos do Departamento de
Estado), também narcóticos, uns US$ 3 milhões, fora todos os outros. Os
Estados Unidos compraram a Polícia Federal. Há um ! antigo ditado, e ele é
real: quem paga dá as ordens, mesmo que indiretamente. A verdade é esta: a
vossa Polícia Federal é nossa, trabalha para nós. Os vossos governos parecem
não dar importância à Polícia. Não sei se é herança da ditadura, quando a
Polícia era malvista, mas isso é incompreensível. A Polícia, que deve ser
uma entidade independente da política, independente de influências internas
e externas, está, na prática, em mãos de estrangeiros.
CC: Isso se refere a todas as agências americanas que trabalham aqui?
CAC: A CIA é outra história... A CIA tem a função legal de um Serviço
de Inteligência que atua no estrangeiro.
CC: Sim, mas também “doa”, e atua com maior ou menor autonomia, se o
Brasil permite.
CAC: Bom, eu concordo: atua com ! maior ou menor autonomia, mas o
papel da CIA, do ponto de vista dos Estados Unidos, é correto e legal: é um
Serviço de Inteligência no exterior.
CC: Quanto a CIA “doa”?
CAC: Não sei. Os outros serviços secretos são mais abertos, a CIA é
fechada... O orçamento da CIA entra no orçamento da Defesa... Mas, óbvio,
como qualquer serviço secreto, utiliza o dinheiro para comprar, chantagear,
pagar propinas...
CC: Vocês se mexem, se locomovem com facilidade no Brasil?
CAC: Aqui? Com toda a facilidade. Temos no Brasil o FBI, a DEA, a CIA
e outros Serviços. Somos identificados como diplomatas: attachés, adidos,
assistentes. Eu, por exemplo, fui adido jurídico...
CC: Mas, em bom português, vocês são agentes secretos, espiões...
CAC: Se quiser usar esses termos, é isso mesmo. A ques! tão é que não
há razão nenhuma para se ter aqui agentes do FBI, da DEA, da NAS, da US
Customs... Admiro muito como é que países com sistemas de Inteligência como
a China e a Rússia autorizaram a operação do FBI nos seus territórios com
cobertura diplomática. Há um escritório do FBI em Hong Kong e outro em
Pequim. Qual é a necessidade de ter agentes de uma polícia, o FBI, cuja
jurisdição é apenas nos Estados Unidos? Isso é uma violação à lei, segundo
as próprias leis americanas.
CC: Chávez autoriza o FBI na Venezuela?
CAC: Chávez herdou um escritório, mas só que lá esses agentes não
fazem nada; são monitorados e não podem se mexer.
CC: Antes de entrarmos no específico, na rotina, no dia-a-dia da
embaixada, quais são as funções dos serviços secretos?
CAC: Digo logo: uma das importantes funções que nós temos na
embaixada é manipular a imprensa brasileira...
CC: O quê? Explica isso aí...
CAC: Manipular, conduzir, controlar a imprensa brasileira no que nos
interessa.
CC: Ah, é?! Manipular...?
CAC: A isso chamamos “influenciar”.
CC: Por favor, detalhe esse “influenciar”, dê exemplos.
CAC: Sem nomes. Começa, digamos assim, com o estabelecimento de boas
relações. Detectamos jornalistas que sejam pró-América – evidente que isso
em órgãos influentes junto à opinião pública – e os convidamos a ir aos
Estados Unidos, com todas as despesas pagas. Essa não era a minha área, mas
começa assim. Influenciar é mudar o pensamento contrário o aos nossos
interesses. A primeira atividade em qualquer reunião da embaixada é uma
análise sobre o que diz a mídia a nosso respeito; Carta Capital, por
exemplo, nunca foi vista com bons olhos lá na embaixada, para dizer o
mínimo.
CC: Imagino o máximo...
CAC: Pois pode imaginar...
CC: Que argumentos valem para “influenciar”?
CAC: ...muita criatividade. “Influenciar” a imprensa, a mídia, é uma
coisa muito natural de fazer...
CC: Em português claro: “Influenciar” significa, inclusive, se
necessário, comprar?
CAC: É virar a opinião pública a nosso favor.
CC: Tá, mas...
CAC: Seja lá o que for necessário. Se é comprar, é comprar, há várias
maneiras. Mas deixa isso pra lá... Voltemos às funções da CIA.
CC: Voltaremos à mídia adiante. A CIA: depende do Brasil cercear ou
não a atuação da CIA, se deixar “comprar”...
CAC: É preferível o termo “influenciar”. E também depende o quanto e
a quem a CIA, a DEA e os demais vão “influenciar” no Brasil.
CC: É melhor usar o termo “influenciar”, assim como em relação à
imprensa...
CAC: Agora, o FBI, a DEA, a NAS, a US Customs (alfândega), o RSO, que
são os seguranças internos da embaixada, e tantos outros serviços, o que
estão a fazer aqui? Como é que os brasileiros, o seu governo, não se
perguntam sobre isso? Como é que a imprensa não investiga, não diz nada a
respeito? Todos têm agentes que entram e saem constantemente, atuam
livremente por todo o País, é uma coisa incrível...
CC: O serviço secreto do seu presidente também investiga no Brasil?
CAC: Sim, e sem autorização da embaixada, autonomamente, nem nos
avisam. Uma das suas funções é investigar a falsificação e exportação de
dólares, modalidade na qual o Brasil, na Tríplice Fronteira, é talvez o
maior produtor. Já os outros serviços secretos...
CC: Todos agem como policiais e sem controle algum dentro do Brasil?
CAC: Sim. Se o Brasil assim permite, então muito bem.
CC: Em nosso primeiro encontro há três anos, lhe perguntei como é que
atuavam CIA, DEA, etc., como eram suas ações via Policia Federal. À época
você, diplomaticamente, esquivou-se...
CAC: Então eu não podia falar, muito menos sobre a extensão e a
profundidade da nossa presença aqui. Quando cheguei! , em 1999, me
surpreendi com a precisão das suas informações sobre nós, sobre os Serviços,
e foi inclusive por isso que depois quis conhecê-lo e marquei aquele jantar
em São Paulo...
CC: Você pensou em tentar nos “influenciar”?
CAC: Bem... (risos), digamos que eu estava traçando o seu perfil para
ver se havia essa possibilidade. Não havia, mas recordo-me que fiquei a
pensar que provavelmente muitas das fontes que utilizamos estavam a jogar
nos dois lados. Eu estava certo?
CC: ...voltemos às polícias do Brasil...
CAC: Olha, se a ABIN mandar seus agentes trabalharem nos Estados
Unidos, isso é muito natural, é função de um Serviço de Inteligência do
presidente. Cabe a cada país anfitrião permitir, controlar essa presença ou
não. Mas a ABIN é um Serviço de Inteligência sem missão. Não atua no
estrangeiro como deve atuar um órgão vinculado à Presidência da República.
Vivia, vive a investigar o MST e outros cidadãos brasileiros mais ou menos
ilustres. Isso é uma violação de direitos civis em qualquer país
democrático. Se a ABIN tivesse que investigar aqui dentro do Brasil, deveria
investigar estrangeiros que aqui atuam, como os agentes de outros países.
CC: E se a Polícia Federal fizer ações de polícia dentro dos Estados
Unidos?
CAC: Sem monitoramento, nunca aconteceu. Eu autorizava muitos
suportes, dava muito suporte à Polícia Federal para fazer investigações
dentro dos Estados Unidos, mas nenhum policial brasileiro, em missão
oficial, claro, entraria nos Estados Unidos sem a minha autorização e sem
ter seus passos controlados pelo FBI. Por quê? Porque assim o protocolo é.
CC: Uma questão muito delicada. Tenho a informação de que vocês –
quando eu digo vocês, me refiro aos serviços secretos sediados na embaixada
americana – receberam ordens, instruções para grampear a Presidência da
República do Brasil e o Itamaraty...
CAC: Bem... essa pergunta me surpreende!
CC: Surpreende? Mas quem executou a missão?
CAC: ...reafirmo: estou surpreso com sua pergunta. O que você sabe? O
que você soube disso?
CC: Da ordem e do grampeamento dos Palácios da Alvorada e
Itamaraty...
CAC: Não toco nesse assunto. Ponto final!
CC: Então você não confirma nem desmente?
CAC: Não confirmo nem desminto. Ponto final!
CC: Foi você que executou essa ordem?
CAC: ...Como você ! verá na nossa conversa daqui por diante, me
recusei a cumprir ordens bem menos graves do que essa.
CC: O Estado brasileiro não controla os agentes estrangeiros?
CAC: Não controla. Porque quem paga é quem dá as ordens. Os Estados
Unidos pagam, eles dão as ordens nos setores que lhe são vitais. Os seus
governos não querem uma polícia independente, autônoma, bem paga e bem
treinada, porque temem que o feitiço se volte contra o feiticeiro. É óbvio
que qualquer polícia federal em qualquer país tem que buscar ser apolítica.
Num cenário como o vosso, se instala um nível de corrupção ao qual temos de
dar completa atenção. Mas mesmo assim tenho um grande respeito pela
instituição da Polícia Federal. Tem bons delegados e agentes, o problema é
de falta de autonomia. E que quero fazer um! a ressalva...
CC: Faça sua ressalva.
CAC: Fiquei quatro anos na chefia do FBI aqui no Brasil. Os primeiros
três no governo passado, do Fernando Henrique, e só dez meses no governo
atual. Até me admirei com o governo atual, que no cenário internacional tem
tomado claras atitudes pró-Brasil e pró-independência diante dos Estados
Unidos, mas, pelo que sei, não creio que o governo tenha noção do quanto a
sua Polícia Federal está infiltrada por nós há anos, o quanto depende de
nós. Por que não tem autonomia na prática, não tem recursos.
CC: Operações como essas, cotidianas no Brasil, se acontecem nos EUA,
o que seria dos policiais norte-americanos envolvidos?
CAC: Nunca aconteceria. Se acontecesse, iriam todos para a prisão, de
cima a baixo.
CC: Cadeia para o secretário de Justiça?
CAC: Para todos, inclusive para o diretor do FBI. Por quê? Porque
isso é uma violação à soberania. Agora, quero lembrar também que nós
prestamos suporte e assistência ao Brasil constantemente, por exemplo, na
corrente história de investigação do Banestado. Na investigação do juiz
Lalau, rastreamos as contas e passamos isso tudo para o Brasil. Uma das
coisas de que me honram foi conseguir o Tratado de Cooperação Mútua Legal,
que facilita às polícias federais de ambos os países e os respectivos órgãos
judiciais a se comunicar diretamente. Se estou nos Estados Unidos e
necessito de uma ficha no Brasil para uma investigação, posso requerer
diretamente à Polícia Federal ou ao Judiciário. Então não há razão alguma
para os Estados Unidos manterem! aqui policiais e agentes, o que apenas
caracteriza uma agressão à soberania do Brasil.
CC: Então vocês estão aqui para quê?
CAC: É para ser claro? Para buscar informações e “influenciar” o
anfitrião.
CC: Influenciar com aspas, inclusive. Vocês fazem qualquer coisa,
quando querem?
CAC: Você entra em contato com o cidadão, compra qualquer cidadão,
passa informações impunemente...
CC: Pode comprar um cidadão tranqüilamente?
CAC: Lembra o caso de um fugitivo americano, Shalom Weiss, refugiado
na comunidade hassídica em São Paulo? Ele havia recebido a maior pena da
Justiça americana, 845 anos de prisão por um rombo financeiro na Heritage
Insurance Company; pagamos US$ 95 mil dólares, em cheque, a um informante
brasileiro.
CC: Como foi essa operação?
CAC: Eu, do FBI, montei uma equipe com delegados da sua Polícia
Federal, de Brasília, todos da minha confiança. Eles trabalharam para o FBI
por uns três ou quatro meses, tudo pago pelo FBI. No governo Fernando
Henrique. Eu não tinha confiança em certos policiais de São Paulo, e também
do Rio, então requeri que essa equipe fosse transferida para São Paulo para
trabalhar no caso, tudo pago.
CC: Tudo o quê?
CAC: Transporte, alojamento, carros, diárias, tudo. Os policiais
federais do Brasil sob nossa direção fizeram um excelente trabalho,
inclusive grampearam a namorada brasileira do fugitivo. E aí essa namorada
foi acompanhada por uma delegada da Polícia Federal num vôo para Viena,
Áustria, onde se reuniu com Weiss. Lá, os agentes do FBI e a polícia local o
prenderam. Esse homem era muito inteligente, tão genial que durante o
julgamento, no tribunal, apenas com um laptop conseguiu fraudar mais US$ 15
milhões. Nós rastreamos tudo.
CC: Por que fichar brasileiros que visitam os Estados Unidos?
CAC: Nestes tempos, os Estados Unidos cada vez mais se isolam da
comunidade das nações. O mundo, desde outubro do ano passado, investe mais
capitais fora dos Estados Unidos do que costumava investir. E é com
investimentos estrangeiros que os Estados Unidos, o maior devedor do mundo,
paga a sua dívida. Se a política externa dos Estados Unidos continuar nesse
rumo, a credibilidade que existe no dólar se dissolverá. A dívida externa
dos EUA só não preocupa o mundo porque é ancorada na fé e credibilidade
total que investidores têm no governo, ou seja, no seu bom nome e na
estabilidade política e econômica. Essa fé significa confiança numa crença
que não está baseada em prova ou fato. E, hoje, cada vez menos se põe muita
fé ou confiança no governo do meu país.
CC: Por quê?
CAC: A administração Bush, com a desculpa de buscar armas de
destruição em massa, atropelou a ONU, desmoralizou-a, ao menos naquele
momento, e agiu unilateralmente...
CC: O senhor tinha acesso a documentos reservados sobre o Iraque?
Existiam informes secretos que confirmassem a existência de arsenais de
destruição em massa?
CAC: Eu era, até deixar o FBI, em outubro, um dos únicos 45 chefes do
FBI a trabalhar no mundo, fora da fronteira dos Estados Unidos. Na minha
posição tinha acesso, no mais elevado nível, Secret, Top Secret, a todo e
qualquer documento secreto produzido, o que inclui os da CIA. Afirmo que
jamais li um documento secreto que indicasse a existência de armas de
destruição em massa no Iraque. Ao contrário, o que li em todos os meus
quatro anos no Brasil, e em Washington, foram informes que asseguravam o
contrário. Muitas vezes discuti com meus colegas do FBI e da CIA, de
qualquer parte do mundo, e concordamos que a administração Bush, e Blair,
apenas buscava uma justificativa para invadir o Iraque. Fabricava para a
imprensa o contrário do que todos nós afirmávamos, e isso desmoraliza a
nossa comunidade de inteligência. Agora é claro que também no topo dos
Serviços de Inteligência há sempre quem esteja mais interessado nas suas
carreiras do que nos fatos, e são estes os que rearrumam os fatos como quer
a administração Bush.
CC: Dê um exemplo pessoal?
CAC: Muitas vezes tive altas discórdias com os meus informes de
Inteligência porque Washington queria que eu adaptasse fatos às suas
necessidades paranóicas... O problema é que o senhor Bush não tem a menor
compreensão do que seja o mundo, aliás, nem mesmo o seu próprio país. E essa
arrogância está a isolar os Estados Unidos...
CC: ...do resto do mundo.
CAC: E o mundo está a constatar que a tal fé e credibilidade no
governo dos Estados Unidos é simplesmente a crença num governo vacilante,
arrogante e paranóico. Sem contar que, noutros tempos, fomos nós, os Estados
Unidos, todos nós dos Serviços, que em algum momento ou circunstância
armamos o Noriega no Panamá, demos suporte aos Contras na Nicarágua,
estivemos no Chile de Allende, em toda a América Latina, Central, Ásia...
CC: Sempre como política de governo...
CAC: Uma política de governo. As! sim como fomos nós, todos os nossos
Serviços, que treinamos e demos suporte ao Bin Laden. Ora, isso é algo que
já sabemos alguma coisa, você pode me dizer. O.k., mas aqui quem está a
falar é alguém com a autoridade de quem trabalhou 22 anos no FBI e chefiou
uma secção de contra-inteligência e espionagem industrial internacional em
Washington.
CC: Vocês treinaram e armaram Bin Laden quando ele...
CAC: ...enquanto ele combatia os soviéticos no Afeganistão. Nós que
demos suporte ao Saddam Hussein para ele conter os aiatolás do Irã, nós é
que lhe demos armas químicas...
CC: Quando e como vocês deram as armas químicas?
CAC: Fornecemos, por exemplo, o antraz, assim como outras armas
químicas que agora nós, hipocritamente, anunciamos ir lá procurar.
CC: F! oram mesmo vocês, diretamente, que deram maneiras para
produzir o antraz?
CAC: Demos as técnicas e demos toda a assistência.
CC: Quem fez isso? Em que época?
CAC: Donald Rumsfeld, atual secretário de Defesa dos Estados Unidos,
à época era um representante emissário especial do presidente Ronald Reagan;
início dos anos 80, guerra entre o Iraque e o Irã, com mais de um milhão de
mortos em ambos os lados. Nós não tínhamos relações diplomáticas com o
Iraque, considerado um país que dava suporte ao terrorismo internacional e
que estava na lista de excluídos do Departamento de Estado. No entanto, em
1982, os EUA removeram o Iraque dessa lista e, em 20 de dezembro de 1983, o
mesmo Rumsfeld de hoje encontrou-se com Saddam Hussein em Bagdá.
Confraternizou-se com Saddam e deu a ele todo o suporte político e militar
dos Estados Unidos...
CC: O que significa “todo” o suporte?
CAC: Como já disse, entregamos a ele a tecnologia de algumas das
armas que agora iríamos procurar com uma guerra, mas não apenas isso. A Casa
Branca e o Departamento de Estado ordenaram ao Banco Export-Import que
financiasse o Iraque na guerra. Isso muito antes de os Estados Unidos
restaurarem relações diplomáticas com o Iraque, o que só aconteceria em
novembro de 1984. E, oficialmente, a nossa posição era de neutralidade.
CC: A propósito de neutralidade, qual foi a posição real dos Estados
Unidos, dos seus serviços secretos, na Guerra das Malvinas, da Argentina
contra a Inglaterra, em 1982?
CAC: Demos completo suporte de Inteligência, especialmente de
satélites, para os ingleses. Fotografávamos, tínhamos a posição dos
militares argentinos e passávamos para os ingleses. E, ao mesmo tempo,
jogamos também um pouco com os argentinos. Havia uma dúvida: se os ingleses,
depois, devolvessem aos argentinos as ilhas, que teriam petróleo embaixo,
nós íamos querer que os argentinos nos facilitassem o acesso. Vendemos armas
para os argentinos, e mais: navios ingleses, se não me engano dois
destróieres que eles destruíram, o fizeram com base em nossas informações,
de satélites, sobre a posição dos ingleses. Os ingleses ficaram pasmos:
“Como é que os argentinos nos localizaram?” Localizaram porque fomos nós que
fornecemos suas posições. À época, Margaret Thatcher esteve em Washington e
pressionou o presidente Reagan. Só então paramos de fornecer informações aos
argentinos. Passamos a enrolá-los.
CC: Sabe-se que as coisas foram e sempre serão assim no mundo real,
em especial o das grandes potências, mas essa história...
CAC: Essa é a política externa dos Estados Unidos. São as razões
pelas quais hoje não temos paz. É um país que sempre foi isolado pelo
Atlântico e pelo Pacífico, mas agora isso chegou ao auge. Ninguém duvida que
o Saddam Hussein é um criminoso, mas a hipocrisia do nosso governo é
insuperável. Quando, com as nossas armas químicas e nosso dinheiro, as
mesmas atrocidades foram cometidas por Saddam contra os curdos do norte e as
minorias do sul, ignoramos e viramos a cara, até demos suporte. Hoje, usamos
isso como argumento para justificar a guerra. Mas não é possível fazer o
mundo todo de imbecil todo o tempo...
CC: O que isso quer dizer hoje?
CAC: A credibilidade, a fé nos Estados Unidos, já não são as mesmas,
por exemplo, na comunidade da União Européia. O euro supera o dólar, os
europeus procuram investir na sua própria casa. O valor do dólar é baseado
na fé e credibilidade no governo dos Estados Unidos. Qual é o cenário hoje
nos EUA?
CC: Diga-nos.
CAC: Clinton havia conseguido um superávit de US$ 127,3 bilhões.
Bush, em três anos, cortou impostos, aumentou os gastos, especialmente na
área da Defesa, cortou o orçamento de programas sociais e, nesse tempo,
produziu um déficit de US$ 541 bilhões de dólares. Esse déficit gera riscos
para o mundo. Há muita verdade no velho ditado que diz: “Quando os Estados
Unidos espirram, o mundo apanha uma gripe”. A desvalorização do dólar terá,
em algum momento, como conseqüência, a elevação dos juros.
CC: Qual ! será, na economia, o futuro, o legado de Bush?
CAC: Para equilibrar suas contas externas, os Estados Unidos precisam
de um fluxo de capitais externos de volume equivalente ao déficit, coisa de
US$ 1 bilhão/dia de capital estrangeiro. Hoje o país já não consegue viver
simplesmente da sua produção. Simultaneamente, a comunidade internacional
compreende que pode dispensar os Estados Unidos; mas os Estados Unidos não
podem dispensar o mundo. Os Estados Unidos predatoriamente sacam da economia
mundial o máximo que podem. Muito em breve, para manter sua hegemonia e
padrão de vida, os Estados Unidos terão que lutar militarmente e
diplomaticamente. Somos 4,5% da população do mundo e consumimos entre 45% e
50% da matéria-prima do planeta. Maiores consumidores de petróleo, emitimos
por pessoa, a cada ano, 19,7 toneladas de dióxido de carbono, que é
poluição. O Brasil emite 1,8 tonelada por pessoa. Não se iludam quanto aos
Estados Unidos. O que importa são os seus interesses.
CC: Vocês, agentes secretos, têm plena consciência disso?
CAC: Obviamente. Mas nenhum país vai lutar pelos interesses dos
outros. Os governantes americanos fazem o que lhes interessa, e viemos aqui
para cuidar dos nossos interesses. Ponto final. O resto é retórica.
CC: Mais claro, impossível.
CAC: Posso te falar uma coisa sobre o juiz Sebastião da Silva?
CC: Aquele juiz que tomou a decisão de fichar os americanos que
entram no Brasil?
CAC: Sim. Acho que o juiz mostrou uma fortitude testicular, como se diz no
vernáculo americano. Isso é manter a dignidade do povo brasileiro. Se estão
a tratar mal os brasileiros nos Estados Unidos, então o mesmo tratamento
deve ser dado pa! ra com os americanos aqui. Eu o considero um bom
brasileiro. Não existe razão nenhuma para que se imponha fichação aos
cidadãos brasileiros. Nunca tive conhecimento de um ato terrorista cometido
por um brasileiro, exceto no seqüestro do embaixador Charles Elbrick, mas
mesmo isso foi em um outro contexto, em 1969. Então, por que fichar
brasileiros que não só têm sido aliados dos Estados Unidos, mas são um povo
pacífico, até demais? É comum na embaixada ouvir relatos de brasileiros
maltratados e humilhados quando entram nos Estados Unidos. E isso aumentou
muito depois do 11 de setembro.
CC: Há muitas queixas de maus-tratos a brasileiros dentro dos Estados
Unidos?
CAC: Constantemente. Mas se a nossa própria embaixadora queria ser
tratada como se fosse um ser superior a todos...
CC: A Donna Hrinak?
CAC: Ela mesma. Um dia tentou! furar uma fila na entrada do seu país,
mas foi posta na sua posição. Disseram a ela: “Não, você tem de esperar como
todas as outras pessoas”. A Polícia Federal agiu certo. Veja o caso do seu
ex-chanceler Celso Lafer... foi humilhado, forçado a tirar os sapatos quando
embarcava nos Estados Unidos.
CC: O fato é que aqui parece ser a casa-da-mãe-joana.
CAC: Já sei o que é a mãe-joana, e é isso mesmo. Mas, em relação aos
Serviços Secretos nossos, ao FBI, até no Congresso dos Estados Unidos já
existe uma controvérsia. Alguns congressistas com mais perspicácia
questionam a presença operacional do FBI, uma polícia federal, no
estrangeiro. Mas os próprios agentes do FBI nos Estados Unidos requerem
operações de lá; operações como se o Brasil fosse uma extensão o do
território norte-americano. Eu recebia instruções assim: “Localize, conduza
a investigação apropriada e prenda fulano de tal...”.
CC: Recebia documentos secretos que diziam “localize e prenda tal
cidadão”, como se você estivesse em Chicago, Miami?
CAC: Isso. Diziam: “Esse fugitivo está no Brasil”. Eu respondia: “Nós
não temos autoridade para fazer uma coisa dessas, temos de trabalhar em
conjunto com a Polícia Federal”.
CC: E qual era a contra-argumentação de Washington?
CAC: Muitos respondiam, indignados: “Porra, isso aí é o Brasil! Just
do it! (Apenas faça!)”.
CC: Imagino como vocês operam, por exemplo, no Paraguai?
CAC: O Paraguai é uma marionete dos Estados Unidos. Isso ninguém
contesta. Muitos altíssimos membros do governo têm contato direto com os
agentes, é uma ligação direta com a embaixada.
CC: Inclusive o presidente da República?!
CAC: (Risos. Apenas risos.).
CC: E o Congresso americano...
CAC: O Congresso americano, que financia os escritórios do FBI e os
outros Serviços no estrangeiro, questiona muitas vezes, mas eles são
enrolados pelo bom marketing comunicativo, especialmente o do FBI: o ego da
instituição FBI é movido a poder e dinheiro. É comum ouvir os agentes e o
comando a dizerem: nós somos os melhores e mais poderosos, temos influência
no Congresso para obter orçamento e temos poder. Temos uma unidade na sede
em Washington que é só para lidar, influenciar o Congresso quanto a verbas e
outros assuntos. O FBI luta tenazmente para manter o seu poder e expandi-lo
diante dos outros Serviços. E na verdade o FBI tornou-se uma gorda
burocracia que não faz justiça à lenda e ao contribuinte.
CC: O Congresso brasileiro deveria estar mais preocupado com o que o
FBI e os outros serviços estão fazendo aqui do que o Congresso do EUA...
CAC: O FBI até não é dos piores. A DEA, por exemplo, “contribui” com
milhões de dólares na conta privada de delegados da Polícia Federal... Se
quer fazer uma doação, que a faça aberta. Agora, pôr numa conta privada?
Isso é indicativo de que alguma coisa está errada.
CC: Que estão a “influenciar”...
CAC: Isso é indicativo de que você compra a polícia e, quando pede
alguma coisa, tem de ser dado. Veja a preocupação número 1, por exemplo, do
representante do Departamento de Estado na Seção de Narcóticos, a NAS. A
primeira preocupação dele, a número 1, é que a Polícia Federal aceite o
dinheiro que ele está a doar, entre aspas. Geralmente, uma quantia que
varia, a cada ano, de US$ 1 milhão a US$ 3 milhões.
CC: Todo ano a preocupação da NAS é que o Brasil aceite o dinheiro
que ele está a “doar”. Por quê?
CAC: Porque, se a Polícia Federal recusar esse dinheiro, não aceitar,
esse representante da NAS não será bem avaliado, isso vai afetar a sua
carreira. Ele não terá demonstrado capacidade para “influenciar”.
CC: Então, quem não consegue “influenciar” no Brasil, seja a mídia, a
polícia, seja o governo, o Parlamento, é um fracasso?
CAC: Uma instituição mal remunerada, como a Polícia Federal, que não
tem dinheiro para pagar a conta do telefone, não vai aceitar uma doação?
Isso é absolutamente ridículo. O Brasil carece de investir no treinamento e
no pagamento. Como diz o velho ditado americano, não existe almoço grátis.
No FBI, como qualquer outra instituição americana, nós não podemos aceitar
um centavo de ninguém. A minha diferença aqui é que eu, como chefe do FBI,
não dava dinheiro ao Brasil, não comprava o Brasil. Dava assistência
técnica, treinos, treinava os vossos policiais...
CC: Mas treinar já é “influenciar”, você já está a se infiltrar...
CAC: Ah, sim, mas isso é natural. Nós treinamos colegas brasileiros
em técnicas de investigação, a pedido de vocês. Estamos a desenvolver uma
cooperação nesse sentido, não estamos a comprar.
CC: Voltemos à mídia. Então, jornalistas também sã! ;o mandados aos
EUA?
CAC: Isso são outros programas que não têm a ver com o FBI...
CC: Têm a ver com a CIA?
CAC: Têm a ver, por exemplo, com o Departamento de Estado, que manda,
além de jornalistas, outros profissionais para conhecerem os seus iguais. É
um intercâmbio... mas voltemos às polícias do Brasil (risos): nós não
deveríamos ter, como tivemos e temos, contato direto com as polícias civis,
militares. Só deveríamos nos mover com monitoramento da Polícia Federal, e
todos se movem aqui como querem. Falamos direto com as polícias, temos
relações diretas com, por exemplo, municípios ou polícias civis ou
militares. Como eu fazia e como o outro faz ainda.
CC: Direto com governadores, secretários de Estado, chefes de
polícia, comandantes da PM, soldados...!
CAC: Com todos. Se eu faço e ninguém reclama, continuo a fazer porque
está a me servir. Eu tinha mais sucesso nas relações com as polícias
estaduais do que, por exemplo, com a Polícia Federal, que está muito
isolada, às vezes, da realidade da rua, dos acontecimentos.
CC: Com você o FBI trabalhava em companhia, em parceria com alguma
outra instituição dos EUA?
CAC: Sim. A CIA é o nosso primo na área de contra-inteligência, nós
trabalhamos muito em conjunto. Muito mais com a CIA do que com a DEA ou
outra organização. O FBI é constituído por uma seção criminal e outra de
contra-inteligência.
CC: Na contra-inteligência vocês e a CIA se encontram?
CAC: Óbvio, somos colegas, primos.
CC: Vocês trabalharam juntos na questão da Tríplice Fronteira?
CAC: Trabalhamos. A função da CIA é buscar informações fora do seu
país. Se o outro país permite, é uma outra questão. Já a função do FBI no
estrangeiro está errada. A função do FBI é investigar casos criminais dentro
dos Estados Unidos e não fora. Se está fora, é indicativo de que...
CC: Está fazendo o que não deveria, como, aliás, já indica a própria
denominação FBI: Federal Bureau of Investigation. O.k. Federal, mas lá!
CAC: É um órgão federal que não deveria ter poder investigatório
aqui. É desperdício do dinheiro do contribuinte americano, é falseamento de
atividade. Queremos ser tudo e terminamos não sendo nem bons agentes de
investigação criminal nem ! bons agentes de contra-inteligência – que
deveria ser um órgão distinto, como em outros países, França, Inglaterra,
Espanha...
CC: Há razões estratégicas para que o FBI atue fora dos Estados
Unidos?
CAC: Nem o FBI nem a DEA, nem a US Customs nem a NAS, nenhuma
instituição policial federal deveria estar no Brasil, fora dos Estados
Unidos. A própria “segurança da embaixada”, RSO, que também é uma polícia
entre eles, tem influência para obter informações da Polícia Federal sobre
dados de cidadãos brasileiros.
CC: Ah, é? Até esses?
CAC: Eu muitas vezes precisava de uma informação rápida sobre alguém
e, para não expor o FBI, pedia a esses seguranças: vão à Polícia Federal
obter um cadastro sobre fulano de tal. Em minutos eu tinha a resposta. Um
policial brasileiro não tem a mesma facilidade. Em outras situações, eu
sentava em frente a um terminal da sua polícia e lia informações sobre
brasileiros, estacionava sempre meu carro na garagem da sede da PF. Sabe
quando isso aconteceria com um policial brasileiro nos Estados Unidos, na
Europa, Ásia? Nunca. Um policial ou representante de uma polícia de um outro
país entrar com facilidade e obter informações sobre um cidadão do seu
território sem haver uma razão? Acorda, Brasil! Aqui fala quem gosta e
respeita o seu país.
CC: Então essas polícias, entre elas as norte-americanas, estão aqui
a fazer o quê?
CAC: Toda e qualquer coisa que seja do nosso interesse. Ponto final.
Mas isso é o que nós chamamos de ações de Inteligência ou
contra-inteligência.
CC: Que eu poderia chamar de espionagem?
CAC: Bom, contra-inteligência é uma coisa e espionagem é outra.
CC: O.k. A rede que você montou no Brasil, pelas minhas informações,
é imensa. E isso eram só você e os seus. E a dos demais Serviços?
CAC: Bem... Vamos para outro assunto. Veja: há alguns dos meus
colegas de outros países com funções limitadas; eles vêm aqui só para
facilitar alguns contatos, por exemplo, na área de drogas, mas eles não
estão a comprar. A Espanha tem contatos próprios e não está a comprar
ninguém.
CC: Como é que era o jogo entre vocês, os russos, a ABIN?
CAC: A ABIN é um órgão que não dá para definir...
CC: Não dá para ser definida?
CAC: Não dá para ser definida. A ABIN foi criada com as boas
intenções de um Serviço de Inteligência, mas não tem as divisas suficientes
para se desenvolver. Quando um Serviço de Inteligência se torna pedinte ante
estrangeiros, se expõe, deixa de ser secreto. Corre imensos riscos. A ABIN,
como a Polícia Federal, pede equipamentos, recursos, treinamento, a vários
países, e não apenas aos Estados Unidos. Pedem para Israel, Rússia, Japão,
França, entre outros. A ABIN se prostitui. Quando você recebe equipamentos
de serviços secretos, deve saber que é rotineira a clonagem...
CC: O que é clonagem?
CAC: É um duplo embutido no seu equipamento, que transfere para o
“doador” as informações disponíveis naquele equipamento.
CC: Uma outra informação que antes não tive como publicar: a ABIN foi
grampeada através de equipamentos que vocês haviam fornecido?
CAC: Não sei... não posso falar... fazer suposição sobre isso, mas...
CC: Mas vocês forneceram equipamentos?
CAC: ...não sei, mas calculo, pelos meus contatos, que a ABIN tinha
também outros países a fornecer equipamentos. Deixa eu lhe dizer uma outra
coisa: se eles grampearam ou grampeiam alguém, se eles o fazem com algum
equipamento nosso ou alguma coisa, é irrelevante para nós. O uso que outros
fazem dos equipamentos não é problema nosso.
CC: Vocês, os serviços secretos dos EUA, forneceram equipamentos a
ABIN para grampear?
CAC: Sim. Nós prestamos essa assistência aos nossos parceiros. Mas
isso não indica que nós vamos saber aquilo que eles estão a fazer.
CC: O.k. Agora apenas uma hipótese e não sobre grampeamento direto:
se houver a necessidade de monitorar, por exemplo, o que se passa no Palácio
da Alvorada num domingo de tarde. Isso é possível?
CAC: É. Essa é uma tecnologia, de satélite, que todos sabem que
existe.
CC: A propósito de monitoramento por satélite vem à cabeça o Sivam,
Amazônia...
CAC: Isso de dizer que os americanos querem a Amazônia é paranóia, é
uma invenção dos militares brasileiros para obter verbas. Sempre tive acesso
aos documentos secretos e nunca li uma coisa assim, nunca houve esse
interesse, nem há. Até porque a invasão da Amazônia seria uma missão
impossível. Se nós estamos com esse problema no Iraque, que só tem areia, e
fomos derrotados na selva do Vietnã, imagine a Amazônia, um território
desconhecido, com milhões de árvores... Seríamos comidos. Senão pelos
caboclos, pelo pessoal treinado na selva ou pelos índios, seríamos devorados
por mosquitos e cobras. Esqueçam essa paranóia, a maioria dos
norte-americanos pensa que Buenos Aires é a capital do Brasil... Eles não
têm a menor idéia do que é a Amazônia. Aliás, tenho a impressão de que o meu
ilustre presidente não tem a mais vaga idéia nem do que seja a Amazônia.
Muito menos onde ela se encontra.
CC: E o Brasil, eles sabem onde fica?
CAC: O ex-embaixador dos Estados Unidos no Brasil Neil Harrington me
disse que, quando lhe ofereceram o cargo, teve que olhar no mapa para saber
onde era o Brasil. Durante um coquetel, algumas caipirinhas depois, o
embaixador me revelou que não conhecia “absolutamente nada” sobre o Brasil,
a sua história, cultura, e pensava que! a língua aqui falada era o espanhol.
CC: Terroristas no Brasil. O que é fato, o que é ficção? Vocês
apuraram o quê, chegaram aonde?
CAC: Fizemos uma investigação conjunta dos atentados à embaixada israelense
em Buenos Aires, que em 17 de março de 1992 matou 29 pessoas e feriu
centenas, e à sede da AMIA (Associação Mutual Israelita Argentina), que
matou 85 pessoas e feriu mais de 300 em 1994. O FBI e a CIA prestaram
assistência às autoridades argentinas que investigavam. Eu, antes de assumir
no Brasil, tive acesso às informações e reuniões sobre esses assuntos com os
próprios argentinos, em Buenos Aires. O que eu posso dizer é que os
atentados na Argentina foram organizados no Brasil, em território
brasileiro.
CC: Isso é absolutamente seguro? Foram organizados no Brasil!?
CAC: Foram organizados no Brasil, na região de Foz do Iguaçu.
CC: Como? Houve reuniões, encontros?
CAC: Foi dali que eles planejaram os atentados. Agora, as pessoas que
os organizaram e os fizeram não foram pessoas que necessariamente viviam no
Brasil e muito menos eram brasileiros.
CC: Mas usaram o território brasileiro?
CAC: Usaram o território brasileiro, mas ali é uma Tríplice
Fronteira...
CC: Aí entramos numa outra questão: há células terroristas na
fronteira? Vocês investigaram. Há ou não há?
CAC: Não há. Planejaram-se atentados ali, é verdade, mas investigamos
exaustivamente, nós, a CIA, os serviços secretos dos países, e não
conseguimos comprovar a existência de células terroristas ali, no entanto...
CC: No entanto o quê?
CAC: Havia, e há, uma obsessão, uma paranóia do governo Bush, para
encontrar terroristas. Ali não há, pelo menos não comprovamos, apesar de
amplas investigações. Há simpatizantes, mas essa é uma outra questão. Sempre
houve uma obsessão com a Tríplice Fronteira, e sempre achei isso uma coisa
muito ridícula. Os nossos Serviços de Informação e de Inteligência estavam,
estão, focados no lugar errado. Na Tríplice Fronteira, existem mais ou menos
40 mil árabes ou descendentes, enquanto São Paulo tem mais libaneses ou
descendentes, por exemplo, do que o próprio Líbano.
CC: O que acontece, então, na Tríplice Fronteira?
CAC: Algumas coisas. A primeira delas é que ali é um lugar que por si só é
fora-da-lei. É um lugar de ! contrabando, e muitos desses grupos árabes são
bons contrabandistas, bons comerciantes, vamos dizer assim. É um lugar que
facilita a troca de mercadorias de segunda classe, pirataria de equipamento,
lavagem de dinheiro...
CC: Mas grupos terroristas vocês nunca detectaram?
CAC: Terroristas nunca foram detectados. E investigamos muito, até
porque o Brasil sempre perguntou a nós: “Vocês sabem onde estão os grupos
terroristas?” O que tem é muita retórica...
CC: Vocês monitoram aquela fronteira já há muitos anos, não?
CAC: Eu, o FBI pelo menos, jamais consegui confirmar um único caso de
células terroristas ali. Sempre informei isso e os colegas da CIA informaram
o mesmo. O que há são atividades criminosas de outra ordem. Agora, que
dinheiro é recolhido para organizações que têm seus braços terroristas, isso
é uma outra questão.
CC: Isso vocês identificaram?
CAC: Há quem envie dinheiro para o Hezbollah? É certo que há, mas o
Hezbollah é um partido político legal que tem o seu braço armado,
terrorista. Bem, em Detroit, em Nova York, nós temos cidadãos americanos que
mandam dinheiro para o Hezbollah, para orfanatos, hospitais, mas que destino
final tem esse dinheiro é algo tão incerto quanto parte do dinheiro que,
Brasil e mundo afora, grupos judaicos enviam para Israel. Quando os
israelenses fazem suas operações, alguém financiou, e certamente o fez via
um braço legal. Da mesma forma, em Boston, em Nova York, simpatizantes do
IRA mandam e sempre mandaram dinheiro para a Irlanda....
CC: E o IRA é também um partido político com vida legal, assim como
os bascos têm partido político com vida legal...
CAC: A própria família Kennedy, de católicos irlandeses, sempre
simpatizou com os católicos irlandeses, e esses envolvimentos às vezes são
arriscados. Você manda uma contribuição para uma escola, mas não tem certeza
se aquele dinheiro, ou todo ele, servirá exatamente à escola. Mas, se você
me pergunta se é possível que dinheiro da Tríplice Fronteira chegue aos
braços armados do Hezbollah, aí eu respondo: “Sim, possível é, o que não
quer dizer que tenha sido confirmado”.
CC: Bem, vocês têm uma extrema-direita que age dentro do próprio
território americano, com atentados...
CAC: Essas milícias de direita que provocam e provocaram atentados
como em Oklahoma existem, isso é fato. Como é fato que o que temos hoje no
governo dos Esta! dos Unidos são facções políticas também da
extrema-direita, e elas estão a alienar cada vez mais o país do mundo.
CC: Dentro dessa moldura, do pós 11 de setembro, houve a
determinação, um empenho extra para que vocês achassem terroristas dentro do
Brasil?
CAC: Sim. Em todo o mundo, e também no Brasil. Mas essa é uma outra questão
muito delicada...
CC: Muito delicada por quê? O senhor, além daquela, recebeu alguma
outra ordem, instrução, determinação específica relacionada ao Brasil...
CAC: Bem... Depois do 11 de setembro, o FBI queria justificar que
estava a fazer alguma coisa contra o terrorismo. E muita gente dentro do FBI
não tem noção de como combater o terrorismo, não faz a mínima idéia...
CC: Certo, certo, mas que questão delicada é essa a que o senhor se
referiu?
CAC: Houve uma determinação, uma ordem de Washington, e houve uma
recusa minha. Uma das minhas recusas nesses quase quatro anos no Brasil...
CC: Recusa a qual ordem?
CAC: A um monitoramento das mesquitas que existiam...
CC: No Brasil?
CAC: No Brasil.
CC: “Monitoramento” que todos os que conhecem um mínimo de
espionagem, contra-inteligência, sabem o que é: fazer escutas, vigiar,
vasculhar. Quem eram os alvos, os xeques?
CAC: Xeques, aiatolás, líderes da comunidade muçulmana, todos os
membros e de todas as formas possíveis. Claro que eu me recusei a fazer
isso.
CC: Isso numa das maiores comunidades árabes do mundo...
CAC: Eu me recusei a fazer uma coisa dessas porque...
CC: Com que argumentação recusou, se você é da contra-inteligência,
se é exatamente um espião?
CAC: A minha argumentação foi simples: isso é um crime. É crime nos
Estados Unidos porque fere a Constituição, assim como os direitos civis, é
crime na Europa e é crime segundo a Constituição no Brasil. Uma democracia
não pode admitir isso, ainda mais numa escala como a que pretendiam fazer no
Brasil, onde está prescrita a liberdade de religião e culto.
CC: Pela lei lá e cá você não poderia “monitorar” xeques e mesquitas
sem autorização legal?
CAC: Correto. E eles ainda pediram que eu fizesse listas...
CC: Que levantasse quem eram as pessoas, o que faziam...
CAC: Quem eram as pessoas, suas atividades... Não me admiraria se
hoje em dia isso estiver a acontecer no Brasil, e se isso um dia vier à
tona. Vivemos, infelizmente, um neomacarthismo e eu, algumas vezes, me
recusei a fazer parte disso. Há certas ocasiões em que uma pessoa deve se
recusar a cumprir ordens inconstitucionais.
CC: Setores importantes da Inteligência no Brasil temem que esteja a
se fabricar um ato terrorista que justifique esse tipo de política. Isso é
uma informação.
CAC: É provável. Todas as sociedades temem que um ato de terrorismo
vá acontecer dentro delas. Agora, se será implantado...
CC: ...fabricado...
CAC: ...fabricado num país alheio. Pelo menos os Estados Unidos não o
fariam... Melhor, escreva aí, com aspas: “Eu não o autorizaria”, e não creio
que os Estados Unidos fariam uma coisa dessas com o Brasil.
CC: Ainda com relação à Tríplice Fronteira e às comunidades árabes, e
a ordens e instruções o fato de você não ter feito ações não significa que à
sua revelia não possam ter sido feitas, ou que um outro Serviço não o tenha
feito?
CAC: Se fizeram, eu não saberia te dizer, só asseguro que com autorização
minha não fizeram. Agora, eu não posso falar do que está a acontecer hoje em
dia, nem quais são as ordens dos que me substituíram...
CC: Você não sabe se foi cumprido ou não. Isso vale para tudo? Vale
desde o “monitoramento” até...
CAC: Vale para tudo.
CC: Pelo protocolo, você deveria ser monitorado pela Polícia Federal
brasileira...
CAC: E deveria ter contato só com uma autoridade da Polícia Federal.
A DEA e a NAS, apesar de “doarem”, vamos dizer assim, milhões de dólares
para a conta de um só indivíduo da Polícia Federal, não poderiam ter contato
com outras instituições, especialmente estaduais.
CC: No total, entre todos os Serviços, vocês são uns cem funcionários
dentro do Brasil, pelo menos. É isso?
CAC: Não sei. Não sei quantos estão aqui. E você deve entender que há
coisas que não posso e não devo falar, mesmo depois de aposentado.
CC: Você e a CIA informavam a embaixadora sobre tudo o que se
passava? Como é que funciona isso?
CAC: Todos os órgãos do governo federal respondem ao embaixador...
Agora há embaixadores, ou embaixadoras, que querem saber de tudo e há outros
que não: “Vocês fazem aí, não me digam nada a não ser que alguma coisa possa
ter graves repercussões e eu tenha necessidade de saber antes”.
CC: No caso, ! você informava?
CAC: Eu e outros Serviços informávamos apenas o que nos interessava
informar.
CC: Na verdade, os Serviços dizem o que querem dizer e pronto,
acabou.
CAC: É, o que nos interessa. Essa história de dizer que nós estamos
debaixo dela, no caso a embaixadora, é verdade do ponto de vista legal, mas,
na realidade, cada um faz o que tem de fazer e, claro, vai contar ao
embaixador...
CC: ...metade da missa.
CAC: Conforme. Às vezes nem a metade nem a missa. Há certas coisas
que interessam contar, há outras coisas que nem vale a pena contar, e há
outras que não se deve contar. Agora, se houver um problema, algo que possa
causar um problema, nós vamos informar. Por exemplo: eu quando vou pagar um
indivíduo...
CC: Avisa à embaixadora, ao embaixador.
CAC: Às vezes eu posso informar:! “Olha, vai ser pago um indivíduo e
tal”. Em outros casos não se informa nada. Em relação à embaixadora Hrinack,
ela até fez um bom trabalho, embora na maior parte do tempo o seu trabalho
fosse pôr...
CC: ...perfume?
CAC: Perfume na shit...
CC: ...que produz o governo americano.
CAC: Que a administração Bush está a produzir (risos). Essa é a
realidade.
CC: Ela perfumava bem a substância que o governo Bush produz em
grandes quantidades?
CAC: Produz muito daquilo... Agora, como diplomata, acho que ela é
até uma pessoa muito boa nesse assunto, mas como alguém realista das coisas
do mundo ainda falta-lhe muito. Por quê? Porque o mundo do Departamento do
Estado... eles estão sentados em cadeiras de marfim, ou são, como dizemos
também sobre outros no comando do próprio FBI, yes people, pessoas que dizem
sim a tudo e a todos.
CC: Não foi o seu caso?
CAC: Não foi o meu caso. Há um ditado no FBI: grandes casos, grandes
problemas, pequenos casos, pequenos problemas, se não há casos, não há
problemas. Esses, que nunca tiveram um caso, nunca investigaram um caso, não
fizeram uma operação, são os que entram pela área administrativa...
CC: E são os que têm o poder.
CAC: O poder. São os que estão no comando do FBI hoje, sem problemas,
mas também sem casos, sem ações em suas carreiras. O diretor do FBI, Robert
Muller, é uma pessoa que não tem o respeito da instituição. E é detestado,
odiado. As pessoas o vêem como um cavaleiro que monta e galopa o cavalo até
morrer, até o cavalo cair de tanto cavalgar, de exaustão. Muitos dos bons
que existiam no FBI, muitos dos mais capacitados, saíram. Um agente hoje
gasta 75% do tempo empacado em burocracia e 25%, se tanto, em investigação.
E, ao investigar, se passa a maior parte do tempo atento ao lema CYA.
CC: O que é isso?
CAC: Cover Your Ass (Proteja o teu traseiro). Esse se tornou o lema
principal no FBI, desde a instrução na academia. Agora, para quem está no
topo do FBI, o lema é KMA, que vem a ser Kiss My Ass (Beije minha bunda). A
instituição está a se desmoralizar, os agentes sabem que investigações e
agentes que não atendam aos interesses da visão do diretor, da administração
Bush, correm o risco da marginalização.
CC: Já falamos do FBI, da CIA, até onde você quis ir. Como é a
atuação, especificamente, da DEA no Brasil? Como é que é essa história, a
relação deles no Brasil?
CAC: A DEA doa milhões de dólares para a Polícia Federal, e não só em
equipamentos, também em dinheiro. A DEA faz o que quer, onde quer, e, ao
contrário do protocolo, não tem monitoramento algum nas suas ações. Contrata
informantes, montou uma rede, paga por informações a cidadãos brasileiros,
infiltra-se e vale-se das informações e dos homens da Policia Federal. E
tudo isso porque “doa”.
CC: Cash?
CAC: Cash.
CC: Através do dinheiro, também a DEA monitora ou executa as
operações da Polícia Federal, em nome da Polícia Federal ou em parceria com
a Policia Federal, como CartaCapital descrevia desde 1999?
CAC: Como a Carta havia descrito, mas ainda mais. E ! isso é uma
coisa absolutamente impensável nos Estados Unidos. Nunca ia acontecer com a
DEA, o FBI, ou alguma das nossas instituições. Ninguém dessas instituições
pode receber dinheiro como se faz aqui. É corrupção. E, se a coisa é tão
aberta, por que o dinheiro vai para a conta de uma pessoa privada?
CC: Porque, se está na conta da polícia, do Ministério da Justiça,
quando o governo contingencia gastos, segura o uso desse dinheiro, prende
também esse dinheiro.
CAC: Ora, se o fizer, esse dinheiro vai para o Tesouro. Agora, em
nome disso, entregam a polícia para os estrangeiros? Não entendo essa
lógica.
CC: Nem eu. Mas o que a própria DEA diz é que não dá o dinheiro
direto para a Polícia Federal, porque quando o governo contingencia não
repassa mais esse dinheiro.
CAC: Mas é a DEA quem toma decisões aqui ou é o Congresso brasileiro,
o governo do País?
CC: Essa é uma boa pergunta. E CartaCapital a tem feito nesses
últimos anos, há cinco anos para ser exato.
CAC: Isso é uma vergonha e é uma quantia completamente irrisória para
nós e para um país continental como o Brasil.
CC: À venda por alguns milhões de dólares?
CAC: Pronto. Como é que um país vende a sua Polícia Federal por
alguns milhões de dólares? Outra coisa: será que esse delegado paga impostos
sobre esse dinheiro que entra na sua conta? Isso é, ainda, uma violação da
lei brasileira feita por delegados federais e com a conivência do Estado. E
também, provavelmente, é uma violação das leis americanas, pois não s! e
deve dar dinheiro a indivíduos e, sim, para instituições. Como é que vocês
esperam ser levados a sério?
CC: Ou seja: um chefe de seção da Polícia Federal que recebe US$ 4
milhões, US$ 5 milhões em sua conta pessoal está violando a lei se não
declara ao Imposto de Renda. E, se declara, como paga?
CAC: Cinco milhões, mas não só. Não apenas a DEA, a NAS, todas as
nossas instituições estão doando...
CC: O americano é tão bonzinho!
CAC: Nada disso é proibido nos Estados Unidos. Agora, se o Brasil
autoriza, então...
CC: Estejamos “influenciados”.
CAC: Então não reclamem. “Dinheiro nosso, ordens nossas”.
CC: A informação que tenho é que, em mais de uma dessas reuniões dos
serviços secretos! na embaixada, às segundas-feiras, discutiu-se seriamente
a questão de como “influenciar a imprensa brasileira”. É correto?
CAC: Bom, eu não posso confirmar uma coisa dessas. Eu não posso
afirmar o que é que se passa...
CC: Numa reunião secreta. O.k., compreendo perfeitamente...
CAC: Nós estamos aqui a falar em assuntos abertamente, mas...
CC: ...Há aspectos de assuntos secretos sobre os quais você tem que
manter...
CAC: ...Que eu tenho que manter, porque eu tenho responsabilidades
para com o meu país e a instituição à qual servi por 22 anos. Agora, se o
Brasil é um pouco ingênuo nas suas maneiras de dirigir politicamente...
Então, também eu, como um cidadão americano, tenho direito de expressar
certas coisas que eu acho erradas, desde que não influenciem ou afetem o meu
país e ajudem o seu. Compreende?
CC: Compreendo, claro, e isso não significa que você não seja leal ao
seu país e não respeite o Brasil...
CAC: Claro que não. Veja uma coisa: eu sou um cidadão americano, eu
amo o meu país, mas acho que a política externa do país já há muito está...
CC: Está errada?
CAC: Está errada e agora eu tenho o direito e até o dever de me
pronunciar sobre isso. Faço essa entrevista, essas revelações, porque eu
gosto do Brasil, respeito o Brasil, tenho mulher e filho brasileiros...
CC: Você está criticando a política, as decisões, não os países. Isso
para mim está claro.
CAC: Estou criticando a política, não estou a criticar outra coisa.
CC: Você vai ficar no Brasil?
CAC: A minha decisão é de viver nos Estados Unidos e viver no Brasil.
Eu não tenho, é proibido ter uma coisa dessas, mas eu sei, por exemplo, que
há agentes que têm cidadania dupla e, tenho quase certeza, o FBI não quer
saber desse problema.
CC: É verdade que há entre os agentes secretos um certo receio de
retornar aos Estados Unidos nos dias de hoje?
CAC: Já ouvi dentro do próprio FBI, da CIA, adidos militares,
principalmente de colegas meus que trabalham no exterior, que há um certo
receio...
CC: Por que o receio de retornar?
CAC: Por que nós, que somos a primeira linha de frente, que obtemos
informações, sabemos o quanto é possível que amanhã uma ou duas bombas
nucleares sejam detonadas dentro de uma cidade norte-americana. Eu espero
que isso nunca aconteça, mas que há esse grande receio, há. Agora mesmo
vimos esse terrível, mas previsível, atentado em Madri. Como é previsível
que tentarão na Inglaterra, em Londres.
CC: Quando você diz “ter informações”, é porque já houve ou vocês
interceptaram algum episódio do gênero?
CAC: Sim, já houve um episódio desses...
CC: Que episódio?
CAC: Uma ...uma bomba suja que podia ser detonada em Washington...
uma bomba radioativa foi impedida de ser detonada.
CC: Em que ano isso?
CAC: Há quase dois anos. Depois do 11 de setembro, muitas coisas
aconteceram.
CC: Isso seria em Washington, próximo à sede do FBI?
CAC: Em Washington, ali próximo, sim, mas obviamente não se fez
alarde, isso, se revelado em toda sua extensão, provocaria pânico na
população americana...
CC: Peraí. Essa história tem a ver com um certo Padilha, ou algo
assim, que foi preso em Chicago, creio, e que está incomunicável até hoje?
CAC: Eu não posso falar em nomes, mas já que você está a dizer, é
exatamente esse o homem.
CC: Qual era o alvo?
CAC: Washington. Oito quarteirões na área do Mall, aquela região
seria o epicentro, atingiria o Congresso Nacional, a Casa Branca, o Supremo,
mesmo sendo uma bomba suja, rudimentar...
CC: Quando o senhor fala em “bomba suja”, quer dizer exatamente o
quê?
CAC: Quero dizer uma bomba atômica, embora de menor potência, nesse
caso.
CC: Vocês conseguiram impedir uma, mas podem não conseguir impedir a
segunda?
CAC: Depois da queda da União Soviética, muitos daqueles países que
faziam parte das repúblicas ficaram com armas, artefatos, ogivas nucleares.
Nós suspeitamos, por exemplo, de que o Cazaquistão pode ter vendido uma ou
duas ogivas nucleares ao Irã. Lembre-se do caso mais recente, do pai do
programa nuclear do Paquistão que estava a vender segredos a outras nações.
CC: Na verdade, não se sabe onde está todo o antigo arsenal
soviético?
CAC: Não é muito animador falar isso, ainda mais em público, mas, na
verdade não, não se sabe. Não houve um inventário muito sério logo depois,
principalmente da parte da Rússia. E outra coisa: muitos dos generais russos
tiveram que vender armas para conseguir manter os seus exércitos.
CC: Para manter exércitos particulares?
CAC: Não, exércitos do Estado, mas eles, em meio àquela balbúrdia do
pós- União Soviética, eram os comandantes-em-chefe, os gestores de uma
enorme máquina de guerra. Então, para sobreviver, manter o mínimo daquilo
tudo, era necessário fazer dinheiro...
CC: Vendendo armas?
CAC: Vendendo armas, nada mais lógico. Então há um receio muito
grande de que amanhã algo catastrófico possa acontecer dentro dos Estados
Unidos, ou num dos países aliados. Espero que não aconteça, mas esse receio
existe entre os Serviços.
CC: Por que o senhor está a revelar isso?
CAC: Entre outros motivos para que o mundo saiba que o cidadão
norte-americano comum não é arrogante, prepotente e antidemocrático, como é
a atual administração.
CC: O senhor pretenderia mostrar que nem todas as forças secretas
americanas agem da mesma forma?
CAC: Nem todas. Os meus próprios! colegas dos Serviços de
Inteligência, muitos deles, discordam da maneira como as coisas estão sendo
feitas no governo do Bush. Grande parte dos meus colegas do FBI, dos
serviços secretos, pensa igual a mim e esse é outro motivo pelo qual estou a
falar, é preciso que as pessoas saibam disso, inclusive nos Estados Unidos.
Se quiserem, vou ao Congresso depor.
CC: Ao Congresso dos Estados Unidos ou ao do Brasil?
CAC: Com garantias, vou ao Congresso dos Estados Unidos e vou ao do
Brasil! O que eu penso é que até chefes, alguns chefes, mesmo colegas da
CIA, membros do Departamento de Estado – e eu estou a falar de altos
funcionários do Departamento de Estado e outros órgãos do governo – pensam e
sentem. Exatamente da maneira que eu estou aqui a me expressar, mas não vão
falar, têm receio de falar. Também eles acham que a administração de Bush é,
basicamente, uma cambada de loucos...
CC: De fundamentalistas, fanáticos...
CAC: Não tem nada a ver com religião e sim com interesses políticos e
interesses privados de quem não tem o mínimo conhecimento do que seja o
mundo. O governo de vocês, esse de agora, do Lula, está agindo com cautela,
com alguma distância necessária, inclusive nos negócios.
CC: Me dê um exemplo.
CAC: O GPS, o sistema de navegação global. O mundo depende dos
Estados Unidos, embora existam dois sistemas: o GPS nos Estados Unidos e o
sistema russo...
CC: E o Brasil adotou qual?
CAC: O Brasil está a adotar o sistema europeu, o Galileu.
CC: E daí, qual é a diferença? Não captei nada.
CAC: É uma boa medida, porque o Brasil não fica sujeito, primeiro, a
alterações de localização. Quer dizer, o GPS é um sistema militar que serve
também para o mundo civil; um barco, um avião, um carro podem ter o GPS.
Durante várias ocasiões, por exemplo, nas guerras da Bósnia e do Iraque, o
Departamento de Defesa simplesmente fechou acesso a civis. Pôs em perigo
aeronaves civis, barcos, que tiveram que voltar aos mapas e bússolas.
CC: Fechou o acesso por quê?
CAC: Num caso de conflito, guerra, esses são os olhos na escuridão.
Se só você tem acesso, a sua vantagem estratégica é enorme. Você tem olhos
num mundo de cegos.
CC: Exemplo: se o Brasil tivesse, hipoteticamente, um desentendimento
com os Estados Unidos e o sistema GPS brasileiro fosse o dos Estados Unidos?
CAC: Se o sistema fosse o americano, bastaria fechar o acesso e as
suas Forças Armadas ficariam cegas.
CC: Você conheceu o Coaf, o sistema brasileiro de rastrear lavagem de
dinheiro, chefiado no governo Fernando Henrique por Adriane Sena?
CAC: Eu mantive boas relações com ela e com alguns dos seus altos
subordinados, inclusive prestei treinamento especializado em lavagem de
dinheiro a vários membros do Coaf. Agora, ela gostava muito de falar que as
leis de lavagem de dinheiro do Brasil, embora copiadas dos Estados Unidos,
as superaram.
CC: Isso é verdadeiro?
CAC: É verdade? É. Que vocês têm lei, têm; vocês têm umas leis
fantásticas e maravilhosas para combater esse tipo de crime.
CC: E quanto aos resultados?
CAC: Where is the beef, onde está o bife? Essa era sempre a pergunta
que eu fazia a Adriane quando ela vinha com essa história da ótima
legislação. Que eu saiba, o Brasil nunca recuperou dinheiro ilícito
valendo-se do Coaf e suas leis. Só o fez quando eu, do FBI, recuperei o
dinheiro do juiz Lalau, e através da nossa legislação, certamente inferior à
da Adriane. Várias vezes eu tive de dizer: “Bom, vocês esqueceram do
dinheiro”. “Ah, é verdade, vamos buscá-lo”, me respondiam. E levou não sei
quanto tempo para o dinheiro ser entregue, e só foi porque eu tive de
lembrar, além de fazer todo o trabalho para eles. Imagine que o Lalau quase
conseguiu vender o apartamento de US$ 1 milhão em Miami. Não o fez porque eu
consegui uma ordem judicial, por minha iniciativa. O caso Banestado foi
outro em que eu prestei assistência. Quem instituiu o conceito de
força-tarefa, de ação conjunta entre as instituições, foi o FBI, fui eu.
Treinei, dei cursos em todo o País a policiais civis, militares, federais,
juízes, procuradores, promotores, e muitos deles foram aos Estados Unidos, a
treino, com meu orçamento. O órgão que realmente funciona, pelo menos
funcionava, é a parte investigativa do INSS.
CC: E por que não conseguem recuperar o dinheiro ilegal fora?
CAC: O Coaf, tecnicamente, é para rastrear os ativos ilícitos, para
depois encaminhá-los ao Ministério Público para o processo e a recuperação.
Há pouco, o Ministério da Justiça criou o Departamento de Recuperação de
Ativos e Cooperação Jurídica Internacional. Pelo que vimos e conhecemos,
nesses órgãos não se tem, para dizer o mínimo, idéia do que e como fazer
esses processos. Até agora não justificaram suas existências. Nos Estados
Unidos, quando há escassez de pessoal, o governo costuma contratar empresas
privadas para fazer esse tipo de investigação, e dá uma porcentagem, de 10%
a 25% do que é rastreado. Vocês, aqui, têm algumas empresas capacitadas a
fazer esse trabalho. Por quê não as usam?
CC: Como é com os políticos brasileiros? Vocês os acompanham?
CAC: Sim, sim.
CC: Têm um dossiê de cada um?
CAC: Bom, todas as coisas sobre quem interessa ter, sobre quem tem
poder e influência. Isso faz parte dos deveres no estrangeiro, saber quem
são as pessoas. Isso é fundamental. Agora, se o Brasil o faz ou não faz, não
sei. Deveria fazer por intermédio da suas Agências de Inteligência.
CC: Como eram as suas relações, de chefe do FBI, com políticos, com
governadores...
CAC: Conheci vários. Amazonino Mendes (AM), um bom amigo, Esperidião
Amin (SC), conheci o Jaime Lerner (PR), entre vários outros. Acho que eles,
em relações internacionais, são um pouco ingênuos, à exceção do Amazonino,
um homem perspicaz. O Garotinho...
CC: Você conheceu o Garotinho?
CAC: Ele é um bom amigo, um político talentoso. Ele foi o único
político brasileiro convidado para a posse do presidente Bush, em janeiro de
2000. Convidado por mim através do então prefeito de Miami, Joe Carollo, ele
foi apresentado ao governador Jeb Bush, irmão do presidente, numa noite de
nevasca. Estávamos de smoking. Ele esteve comigo no Departamento de Estado,
na OEA, e fomos à sede do FBI em Washington...
CC: O Garotinho ficou à vontade?
CAC: Muito à vontade. Recordo-me de que, na sede do FBI, entregou um
cartão dele à minha secretária e disse: “Te dou esse cartão para que um dia
você possa dizer que conheceu, aqui na sede do FBI, alguém que no futuro
seria presidente do Brasil”. Ele é talentoso, mas acho que se precipitou,
ainda é muito jovem, não deveria ter disputado a eleição presidencial.
CC: Esse é um mundo de espiões e tem suas regras próprias. O senhor
certamente sabe que o “Serviço” não irá gostar do que revelou ao longo desta
entrevista...
CAC: É óbvio, é uma organização muito sigilosa. Mas eu não vou
revelar informações que não devo, nem técnicas de investigação, equipamentos
ou o que está a se fazer numa investigação contra uma ou outra pessoa, outra
instituição ou outro país. Isso seria uma coisa que afetaria não só o FBI,
mas afetaria a nação americana. Mas o que eu posso falar e devo falar é que
a organização está a ir por água abaixo, que estão a fazer coisas erradas, e
não a servir a sociedade americana ou ao mundo. Está tudo mal direcionado e
eu vou falar...
CC: E se tentarem desacreditá-lo?
CAC: É o que eu espero, pois conheço o Animal há 22 anos, sei como
ele é. Vamos aguardar. Essa é uma história que ainda pode ter muitos
capítulos, cada vez mais picantes, espetaculares, se assim o desejarem.
Fatos que interessem não apenas ao Brasil, mas a toda a comunidade
internacional, inclusive ao Congresso americano. Estamos só no início...
CC: E se o senhor for acometido por uma gripe terminal?
CAC: (risos). Se uma gripe terminal me atingir...
CC: Uma gripe súbita, digamos assim.
CAC: Uma gripe súbita, como você diz. Bem, eu também aprendi, com os
próprios que me criaram, a me proteger e a enfrentar. Muita coisa que
poderia ser exposta já está gravada, escrita, e nas devidas mãos, se alguma
coisa me acontecer...
CC: Em caso de uma gripe terminal se saberá por que você teve essa
gripe?
CAC: Isso. E muito, muito mais do que nós falamos ou deixamos de
falar aqui.
CC: Você tem a intenção de escrever algum material específico sobre
os seus 22 anos como agente e chefe do FBI?
CAC: Já produzi uma parte das minhas memórias e isso inclusive
está...
CC: Em local não revelado e...
CAC: (risos) Tem que ser assim...
CC: Para o caso da gripe súbita...
CAC: E entregue a pessoas de confiança que saberão o que fazer se
acontecer algo fora do normal. Asseguro a você que são fatos que levariam a
uma enorme repercussão internacional. Quanto à primeira parte das minhas
memórias, já tenho até a idéia de um nome para o livro...
CC: Qual é o nome do livro?
CAC: FBI: o Mito e a Realidade. Vou dar, em detalhes, casos
concretos, histórias, etc. O que é, o que não é, como devia ser, o tamanho
do desperdício humano e financeiro e como o povo americano também não está a
ser bem informado, inclusive, sobre o que verdadeiramente é o FBI.
CC: Os ingleses são os grandes aliados do governo Bush. Em Londres
vocês espionam os ingleses, o governo Blair?
CAC: (risos) Bom, eu também não vou comentar isso... no mundo da
espionagem tudo é válido, vamos assim dizer, mas não quero falar sobre a
espionagem aos ingleses. São informações que não podem ser reveladas.
CC: E esse recente episódio do governo Tony Blair grampeando o
secretário-geral da ONU, Kofi Annan?
CAC: O que me surpreende é que nessa operação os flagrados, os
expostos, tenham sido os ingleses...
CC: (risos) ...mas, Carlos, isso é humor tipicamente inglês.
CAC: (Risos. Apenas risos).
CC: Esse assunto sobre espionagem às Nações Unidas estará no livro,
em detalhes?
CAC: Bem, você vai ter que aguardar e comprar o livro.
CC: A propósito dessa coisa de grampos e espionagem, qual é o clima
hoje em Washington, como estão os direitos civis?
CAC: Há um encolhimento dos direitos civis. Nossa sociedade é cada
vez menos democrática. A polícia pode entrar numa casa e fazer buscas sem
ter uma autorização judicial ou, melhor, sem ter tanto que explicar os seus
motivos a um juiz. Basta a desculpa da Segurança Nacional. Hoje em dia, por
exemplo, existem tribunais secretos.
CC: Tribunais secretos?
CAC: Tribunais nos quais agentes-chefes, como eu, em Washington,
dentro de uma sala à prova de escutas, grampeamentos, totalmente isolada,
uma câmara fechada, totalmente secreta para que nada vaze, para que nada
seja aberto ao público, depõe perante um juiz especial num caso qualquer.
Com isso, sob a alcunha de Segurança Nacional, terrorismo, consegue-se
rapidamente autorização para escutas telefônicas, grampeamentos vários.
Chegou-se a um ponto que hoje há mais autorizações secretas nos Estados
Unidos do que as normais. Imagine aí o espaço para arbitrariedades, abusos.
Os agentes do FBI são grandes literatos, a maioria dos juízes não entende
nada e engole qualquer coisa com poucas perguntas, não há um controle disso.
Os tais checks and balances, fundamento do nosso sistema democrático, nesse
caso foram postos de lado. São poderes de exceção para uma polícia. E afirmo
aqui que sob falso motivo eu nunca depus durante a minha carreira no FBI.
CC: Por último, uma questão, digamos assim, pessoal. Qual o
significado do verbo sancionar?
CAC: (risos). Sancionar é uma ordem, uma autorização dada pelo
governo para exterminar alguém. Para matar...
CC: Terminar subitamente com a vida biológica de outrem.
CAC: O FBI não sanciona! Essa autoridade é dada à CIA. Isso existia
desde...
CC: Desde a Segunda Guerra...
CAC: Desde a Segunda Guerra, e existiu até quando o presidente Gerald
Ford, pós-Nixon, por! Ordem Executiva, proibiu o sancionamento.
CC: Sancionamento, um belo eufemismo. É politicamente correto, não?
CAC: O grande e brilhante presidente Bush autorizou novamente os
assassinatos. Na minha opinião, e sei que também na de muitos colegas tanto
do FBI como da CIA, é algo bárbaro, contra os princípios mais elementares da
humanidade e de uma sociedade democrática, a que se considera a mais
moralista e civilizada do mundo. A que se autodenomina a Polícia do Mundo.
CC: Até porque tem sempre alguém que vai ter de determinar o que é ou
não um assassinato político, vai decidir sobre a vida ou a morte de um alvo.
CAC: E aí é que é o problema, porque os que para alguns podem ser os
inimigos, os terroristas, para outros podem ser os libertadores. Por
exemplo: quando os peregrinos ingleses já nos Estados Unidos se! revoltaram
contra a Coroa inglesa para impor a sua independência, tornar-se um país
independente, foram considerados terroristas, ou algo assim, pelos
britânicos. |
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