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Estresse
e álcool corroem policiais
PMs envolvem-se com bebida e com drogas, ameaçam carreiras e
colocam em risco segurança da população
CARLOS
ETCHICHURY
A
tensão e o álcool estão corroendo a vida de homens remunerados
pelo Estado para garantir a segurança dos cidadãos.
Durante
uma semana, Zero Hora ouviu depoimentos surpreendentes de policiais
militares e familiares que mostram situações de degradação
extrema e comprovam pesquisas da própria Brigada Militar sobre
alcoolismo e estresse dentro da corporação gaúcha.
São
praças como um soldado de 41 anos (o nome e o batalhão são
preservados a pedido dos policiais), que atua há 15 anos no
policiamento ostensivo de Porto Alegre. Ele conta que costuma tomar
o primeiro gole de álcool às 10h “senão os braços e as pernas
começam a tremer”.
–
Depois, bebo dois martelinhos e fico normal. Coloco um chiclete na
boca e vou trabalhar – revela o PM, que patrulha ruas entre
12h30min e 18h30min.
Outro
PM, hoje com 31 anos, lembra, quando, embriagado, perdeu o controle
na rua. Começou a beber às 8h, e às 11h, quando foi atuar junto a
uma manifestação perto da Usina do Gasômetro, viu-se bêbado
sobre um cavalo. Atualmente, ele se submete a um tratamento para
largar a bebida.
–
Dava vontade de mudar o mundo. Uma vez, chumbado (alcoolizado),
espanquei um criminoso. Depois, bateu o arrependimento e a depressão.
Não faria isso novamente – diz o policial.
O
PM, há 12 anos na corporação, trabalha no policiamento e faz bico
como segurança em um posto de gasolina durante a madrugada, para
complementar a renda familiar. Mora numa casa simples na periferia
da Região Metropolitana.
Os
índices de estresse da atividade policial, apontados em uma
pesquisa realizada por quatro capitães na Academia de Polícia da
BM, em novembro de 2000, alarmam. Dos 983 policiais militares de
batalhões operacionais (1º BPM, 9º BPM, 11º BPM, destacamentos
especial do Sarandi, do Partenon e da Restinga, Batalhões de Operações
Especiais e de Policia Rodoviária) que participaram da pesquisa,
metade (50,85%) apresentava sintomas psicossomáticos de estresse.
Ou seja, precisavam de acompanhamento psicológico ou médico.
Outra
pesquisa, abrangendo 561 PMs – 10% do efetivo de praças da BM na
Capital –, constatou que 25,13% eram alcoólatras e outros 7,66%
tinham risco de se tornarem alcoolistas. O estudo foi feito pela
socióloga Maria Caetana Pedroso Rodrigues em março de 2000.
Novo trabalho, desta vez entre os oficiais, constatou que 10,27% dos
entrevistados eram alcoólatras, e 4,32%
eram suspeitos de ter o vício. Os autores, Hélio Beck Leão Filho
e Nélio Tedesco Sperling, testaram 185 policiais – 30% do efetivo
de oficiais de Porto Alegre.
O
alerta maior, porém, vem do relato emocionado dos próprios PMs.
Protegidos pelo anonimato, eles chegam a admitir até o consumo de
drogas ilícitas, como maconha, cocaína e crack por representantes
da corporação. Um soldado alcoólatra, abstêmio há um ano e
meio, assegura que policiais que trabalhavam com ele à noite, em um
município da Região Metropolitana, “bebiam, cheiravam (cocaína)
ou fumavam maconha”.
O
Código Penal Militar prevê pena de seis meses a dois anos de detenção
para o militar que se embriagar em serviço, ou apresentar-se bêbado
no quartel. Para a promotora de Justiça das Auditorias Militares da
Capital, Sandra Goldman Ruwel, a embriaguez em serviço é um delito
gravíssimo e fere o princípio da disciplina.
Na
Academia de Polícia da BM, em Porto Alegre, um grupo de PMs, suas
mulheres e mães se reúnem duas vezes por semana para relatar suas
experiências.
Há
histórias quase surreais, como a do soldado que, embriagado, matou
a mulher com um tiro. Há o praça que, em meio a uma bebedeira no
quartel, resolveu sair e passar a noite em um bordel – quando
deveria estar de serviço. A do policial de 38 anos, que chegou a
beber um litro de uísque com um colega em uma noite de trabalho e,
depois, participou de tiroteios.
–
Graças a Deus, não deu nada. Éramos seis PMs, sendo que cinco
tinham bebido. Podia acontecer uma coisa muito séria – recorda.
O
grupo é coordenado pela própria Maria Caetana, autora da pesquisa
sobre a incidência de alcoolismo entre praças da Capital.
–
Os dependentes que participam recebem alta após dois anos de abstinência
– explica.
Ao
final de 2000, quando o grupo foi montado, receberam alta 22
policiais. No ano seguinte, outros oito obtiveram alta. Também
integram o programa um médico psiquiatra e uma psicólogo.
O
objetivo é tentar acabar com casos como o de um soldado de 38 anos,
que admite ter trabalhado embriagado, com uma arma na cintura e no
comando de um carro da BM. Hoje, sóbrio, o soldado continua nas
ruas. Sua mulher acha que ele deveria estar afastado do
policiamento.
–
Meu marido usa diariamente um antidepressivo, um anticonvulsivante,
um ansiolítico (medicamento contra ansiedade). Você acha que os
reflexos dele são os mesmos que os meu? – questiona.
| OS
NÚMEROS |
USO
DE ÁLCOOL ENTRE OFICIAIS
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Pesquisa
com 185 oficiais (30% do efetivo de oficiais em Porto
Alegre)
Principais conclusões:
Alcoolistas: 10,27%
Bebedores-problema (apresentam risco de se tornarem
alcoolistas): 4,32%
Não-alcoolistas: 85,4%
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USO
DE ÁLCOOL ENTRE PRAÇAS
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Pesquisa
com 561 soldados, cabos e sargentos do efetivo da BM (10% do
efetivo da Capital)
Principais conclusões:
Alcoolistas: 25,13%
Bebedores-problema: 7,66%
Não-alcoolistas: 67,20% |
| CONTRAPONTO |
O
que diz o coronel Luiz Antônio Brenner Guimarães,
subcomandante-geral da BM:
|
“Não
tenho dados científicos, mas sei que organizações que
trabalham com grande risco e tensão têm problemas com álcool.
Temos um departamento de saúde com médicos e serviço
social para que as pessoas procurem. A orientação é de
que policiais identificados com o problema (uso abusivo do
álcool) sejam encaminhados para atendimento
especializado. Além disso, os policiais devem ser
retirados do policiamento e não devem portar armas.
Pode ocorrer um ou outro caso de que um oficial não
proceda desta forma, mas não é a regra. É preciso
compreender que há mecanismos utilizados pelos
dependentes que dificultam a identificação dos casos
dentro da corporação. Mas se identificamos o problema, o
policial é encaminhado para tratamento. O importante é
tranqüilizar a sociedade de que o problema existe, mas
diz respeito a um universo restrito de policiais. As
pessoas não devem achar que o problema é
generalizado”.
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Psicólogos acompanharam PMs
durante seqüestro do lotação
As
conseqüências do estresse na atividade policial vem preocupando a
cúpula da Secretaria da Justiça e da Segurança (SJS).
Tanto
que secretário da SJS, José Paulo Bisol, sugeriu que quatro psicólogos
e um enfermeiro acompanhassem a atuação de praças e oficiais da
BM durante o seqüestro com reféns do lotação 350, no início do
mês, pelo auxiliar de cozinha João Sérgio dos Santos Pereira, 27
anos. Conforme a técnicos da SJS, foi a primeira vez no Estado que
policiais foram avaliados por profissionais de saúde em meio a uma
ocorrência.
O
acompanhamento buscou dar apoio técnico aos PMs envolvidos na operação
e fazer um diagnóstico do comportamento deles ao longo do seqüestro.
A psicóloga da SJS, Alneura Ana Provenzi, revela que os técnicos
chegaram à Avenida Osvaldo Aranha na madrugada de sábado. Eles
passaram a conversar com os policiais diretamente envolvidos na
negociação e com PMs do 9º Batalhão de Polícia Militar (BPM) e
do Batalhão de Operações Especiais (BOE).
–
Procurávamos saber como eles estavam psicologicamente. Caso não
tivessem condições de permanecer, iríamos orientar o comandante
à substituí-los. Mas isso não ocorreu – recorda Alneura.
A
psicóloga explica que o cansaço físico foi o maior problema
enfrentado pelos participantes da megaoperação, que mobilizou 119
policiais militares.
–
A idéia é repetir o procedimento sempre que houver eventos como
motins e seqüestros – afirma.
A
SJS promete colocar em prática um programa de saúde mental
dedicado aos servidores da segurança pública. O objetivo é
diagnosticar, com critérios científicos, quais os principais
problemas de ordem psíquica que atingem os servidores da segurança.
A partir desse levantamento, será oferecido tratamento aos
servidores.
Um
convênio com Fundaçao de Apoio da Universidade Federal do Rio
Grande do Sul (Faurgs) deve garantir profissionais das áreas de
psiquiatria, psicologia, enfermagem, serviço social, sociologia,
antropologia, educação física, terapia educacional, arte e
pedagogia no atendimento dos servidores. Centros de atendimento à
saúde mental devem ser instalados em Porto Alegre, Santa Maria,
Pelotas, Passo Fundo, Caxias do Sul e Santo Ângelo.
Entre
os praças da BM, o índice de alcoólatras apontado pela pesquisa
da socióloga Maria Caetana Pedroso Rodrigues é uma vez e meia
superior a estimativa de alcoolistas existentes entre a população
de Porto Alegre. Na Capital, estudos estimam que 10% da população
adulta é dependente de álcool. O levantamento feito pela socióloga
com 10% dos praças locados em Porto Alegre constatou um universo de
25,13% de alcoolistas entre soldados, cabos e sargentos envolvidos
na pesquisa.
O
psiquiatra e psicanalista Sérgio de Paula Ramos, da Unidade de
Dependência Química do Hospital Mãe de Deus, não se surpreende
com a constatação do estudo.
–
Profissões que lidam com uma carga maior de estresse vulnerabilizam
esses profissionais para o alcoolismo. É o caso de pessoas ligadas
a segurança (policiais), médicos, jornalistas, coveiros –
exemplifica o especialista.
Ramos
pondera que o consumo excessivo do álcool entre policiais também
é registrado em outros países.
–
É um fato que vulnerabiliza ainda mais a segurança – constata
Ramos.
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“Estava alcoolizado em vários
tiroteios”
Aos
40 anos, o soldado que atua em um batalhão da Região Metropolitana
é um dos policiais dispostos a vencer o álcool. Pai de três
garotas e três rapazes, divide a atividade militar com a profissão
de pedreiro nas horas vagas. Ele ingressou na BM aos 22 anos, e há
um ano e meio não bebe. A seguir, trechos da entrevista:
Zero
Hora – Quando o senhor começou a beber?
PM
– Bebo
socialmente desde os 15 anos. Mas quando vim para o policiamento
ostensivo, na Região Metropolitana, há oito anos, passei a beber
todos os dias.
ZH
– Bebia em serviço?
PM
– Sempre,
todos os dias. Trabalhava das 19h às 7h. Lá pelas 22h, chegávamos
em um bar e começávamos a tomar. Eu esquecia o policiamento. Só
levantava quando tinha de ir embora. Bebia o que aparecia, de
cerveja a cachaça.
ZH
– A turma de policiais era sempre a mesma?
PM
– Mudava,
mas os parceiros acompanhavam. A maioria dos que trabalhavam à
noite bebiam. Outros, cheiravam (cocaína) ou fumavam maconha. Eles
facilitavam que eu bebesse, e eu facilitava que eles usassem droga.
A noite permite o uso da droga, do álcool, a corrupção, tudo. O
cara viciado sempre vai querer trabalhar à noite.
ZH
– Vocês tinham dinheiro para gastar com álcool e droga?
PM
– O álcool
era dado por comerciantes e donos de cabaré. E a droga era retirada
de marginais. Para os comerciantes, é vantagem o PM estar ali
porque se sentem seguros. Eles não sabem as conseqüências.
ZH
– O senhor já participou de uma ocorrência alcoolizado?
PM
– Estava
sob o efeito do álcool em vários tiroteios. Efetuei prisões, tive
o carro furado a tiro.
ZH
– Por que o senhor bebe?
PM
– A pressão
dentro e fora do quartel é muito forte. Você tem de estar sempre
bem e resolver o problema das pessoas. Somos seres humanos. Não
estamos sempre bem. Então, você pensa: “vou tomar um trago, não
vai dar nada”. As coisas ficam mais fáceis. Depois, o corpo passa
a exigir o álcool.
ZH
– O senhor conhece muitos PMs que bebem no trabalho?
PM
– No meu
quartel, dos 150 policiais, cerca de 30 bebem e uns cinco ou seis
usam droga.
ZH
– O que estes policiais representam andando na rua?
PM
– Um
perigo. Eles agem sob o efeito de droga e não estão conscientes do
que fazem. Você perde o controle. Tornam-se perigosos. Você vai
com tanta raiva, com tanta gana em uma ocorrência, que se puder
executar um marginal, executa.
ZH
– Já tentou o suicídio?
PM
– Duas
vezes, quando estava bêbado. A primeira eu estava dentro do
quartel. Fui para o banheiro, retirei o cadarço do coturno, amarrei
na janela e tentei o enforcamento. Acordei no hospital. Na outra
vez, há um ano e meio, quando fazia o policiamento de rua, coloquei
meu revólver 38 na cabeça e disparei duas vezes. A arma falhou.
ZH
– O senhor faz bico?
PM
– Trabalho
como pedreiro. O salário de R$ 600 da BM é pouco. Eu não queria
morar aqui (uma área ocupada irregularmente, na Região
Metropolitana). Na casa grudada à minha, por exemplo, moravam
assaltantes. Os marginais contavam dinheiro, usavam droga e faziam
festas. Cheguei a ser ameaçado de morte. Registrei queixa na
delegacia. Você se sente impotente. Hoje, por sorte, eles estão
presos.
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“Tomo três ou quatro doses em
serviço”
O
soldado de 37 anos, há 12 na BM, conversou com a reportagem de Zero
Hora semana passada. Antes, havia tomado quatro doses de cachaça. O
militar, que começou a beber aos 25 anos, quando entrou na BM,
tentou explicar os motivos que o levaram a comprometer sua carreira
com o álcool.
ZH
– O senhor trabalha quantas horas por dia?
PM
– São seis
horas na BM mais 12 horas de bico, como segurança.
ZH
– Por que o senhor começou a beber?
PM
– Você vai
começando a aturar certas coisas e procura um subterfúgio. São
coisas que não se consegue mudar. Soldados, cabos e sargentos só
executam ordens. Eles (os oficiais) dizem assim: pega um revólver,
fica lá na vila. Não querem saber se você tem mulher, filho, mãe.
Fica lá, com um revolverzinho, como se fosse o dono do mundo. Pensa
bem, um lugar escuro, de noite, sozinho...Você busca forças onde não
tem.
ZH
– Como foi o início?
PM
– Comecei
nessas de beber um pouquinho. Hoje, a minha necessidade é tanta que
não sou a mesma pessoa se não tomar um gole. É vital. Tenho de
tomar um gole para ficar mais ou menos ligado.
ZH
– Há quanto tempo o senhor vem bebendo todos os dias?
PM
– Há uns
cinco anos.
ZH
– Qual o horário que o senhor toma o primeiro gole?
PM
– Chego em
casa, em torno de umas 8h, quando venho do bico. Aí tenho que tomar
um gole. É primordial. Relaxo. Quando levanto, para ir para o
quartel, tenho de tomar outro gole. Fico cansado. Lá pelas
11h30min, saio para o quartel.
ZH
– Bebe no serviço?
PM
– Tomo umas
três ou quatro doses quando estou na rua.
ZH
– Gasta quanto com álcool?
PM
– Nós não
gastamos. São os comerciantes que dão a bebida.
ZH
– Já teve algum enfrentamento armado embriagado?
PM
– Graças a
Deus, ainda não. Mas tenho medo de enfrentar uma situação como
esta sem beber.
ZH
– A família reclama?
PM
– Estou
separado da mulher. Ela não agüentou a rotina.
ZH
– Já teve depressão?
PM
– Imagina
você em uma vila, num tiroteio, e você tentando se abrigar num
canto mais seguro para não morrer. Chega uma pessoa para você e
diz que você está errado, que tem de ficar mais visível porque a
população tem de te ver. Você descobre que não tem valor nenhum.
Só o que tem valor é a farda.
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