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DO ESPÍRITO ABSOLUTO DE HEGEL À REALIDADE CONCRETA
José Renato
Salatiel
"Esses jovens de
hoje, tão alienados...". Esta expressão, que a maioria de nós já ouviu
alguma vez na vida, provavelmente foi entendida como se referindo ao fato de
que, na juventude, não temos muita responsabilidade, queremos mais é curtir
a vida. Mas, afinal de contas, será que somos alienados? O que é, então,
alienação?
O termo entrou no vocabulário contemporâneo graças a
Karl Marx, que, assim como no caso do
conceito de dialética, retirou a idéia de alienação de suas
leituras de
Hegel, mas o revestiu de um caráter inovador e, como em tudo em
Marx, muito crítico.
Tanto em Marx quanto em Hegel, alienação está ligada ao trabalho. Para
Hegel, o trabalho é a essência do homem, quer dizer, é somente por meio de
seu trabalho que o homem pode realizar plenamente suas habilidades em
produções materiais.
Mas quando o
pensamento puro
se torna
pensamento sensível,
visando uma realização material na forma de trabalho, nos alienamos, isto é,
nos separamos da essência pura e abrimos caminho para uma separação entre
ideal e real, que de novo irão se unir ao que Hegel chama de Espírito
Absoluto.
Muito abstrato? Marx também achou, mas viu nestas idéias algo interessante,
que poderia explicar as relações sociais no
capitalismo e, mais do que isso, desvendar um dispositivo
fundamental da máquina capitalista.
Para isso, voltou-se para a realidade concreta, em que os trabalhadores eram
explorados em fábricas e deixavam seus patrões cada vez mais ricos, enquanto
eles e suas famílias ficavam cada vez mais pobres. Como poderiam aceitar tal
coisa?
Trabalho alienado
Alienação, para Marx,
tem um sentido negativo (em Hegel, é algo positivo) em que o trabalho, ao
invés de realizar o homem, o escraviza; ao invés de humanizá-lo, o
desumaniza. O homem troca o verbo SER pelo TER: sua vida passa a medir-se
pelo que ele possui, não pelo que ele é. Isso parece familiar? Pois é, vamos
ver os detalhes.
O filósofo alemão concebeu diferentes formas de alienação, como a religião
ou o Estado, em que o homem, longe de tornar-se livre, cada vez mais se
aprisionaria. Mas uma alienação é básica, segundo Marx: a
alienação econômica.
A alienação econômica pode ser descrita de duas formas: o trabalho como (a)
atividade fragmentada
e como (b)
produto apropriado por
outros.
Tempos modernos
No primeiro
caso, a separação do trabalho, em todas as suas instâncias, aliena o
trabalhador, que não se reconhece mais em uma atividade - porque ele faz
apenas uma peça de um carro em uma escala produtiva e não tem a visão do
conjunto, por exemplo - e porque acaba desenvolvendo apenas uma de suas
habilidades, seja braçal ou intelectual, provocando, com isso também, uma
divisão social.
Essa divisão do trabalho foi fundamental para a organização da sociedade
capitalista. Não seria possível sequer vestirmos tênis se não existissem
trabalhadores que os produzissem em larga escala em fábricas, onde cada um é
responsável por uma etapa na produção.
O melhor exemplo de como funciona este processo e suas conseqüências sociais
pode ser visto no filme "Tempos Modernos" (1936), dirigido e estrelado por
Charles Chaplin, que mostra, de forma bem humorada, a vida de um operário
sendo controlada pela máquina na linha de montagem de uma fábrica.
Exploração
No segundo caso, o
trabalhador tem a riqueza gerada pelo seu trabalho tomada pelos
proprietários dos meios de produção. Ele é levado a gerar acumulação de
capital e lucro para uma minoria, enquanto vive na pobreza.
Um empregado de uma fábrica de TV de LCD, por exemplo, em oito horas diárias
de trabalho produz, ao final do mês, um número considerável de aparelhos,
mas recebe apenas uma pequena parcela disso em forma de salário. O que
recebe não permite sequer adquirir aquilo que ele produz - uma TV de R$ 5
mil - e o modo de vida de sua família é muito diferente daqueles que
consomem seu produto.
O trabalhador não reconhece mais o produto de seu trabalho e não se dá conta
da exploração a que é submetido. O que se exterioriza não é sua essência,
mas algo estranho a ele.
Diz Marx: "A alienação aparece tanto no fato de que meu meio de vida é de
outro, que meu desejo é a posse inacessível de outro, como no caso de que
cada coisa é outra que ela mesma, que minha atividade é outra coisa e que,
finalmente (e isto é válido também para o capitalista), domina em geral o
poder desumano".
Divisão do trabalho
e
acumulação de capital,
que, juntos, formam a base de uma sociedade capitalista, são também as
fontes de alienação moderna, segundo Marx, por meio das quais se constitui
um sistema de dominação.
Comunismo
Qual a
solução? Se o trabalho, no sistema capitalista, é fonte de alienação, e se o
capital é, basicamente, propriedade privada, isto é, a posse e o acúmulo de
objetos, a superação do homem alienado só virá, para Marx, com a sociedade
comunista.
Segundo Marx, somente com o comunismo as pessoas deixariam de ser alienadas,
pois tudo seria de todos e não haveria necessidade de divisão ou
expropriação do trabalho alheio. "A superação da propriedade privada é, por
isso, a emancipação total de todos os sentidos e qualidades humanas", diz
Marx.
Marx, provavelmente, ficaria muito aborrecido em ver que, na prática, os
ideais do comunismo, na forma de dogmas,
somente trouxeram mais alienação. Sua crítica, no entanto, parece
atual diante de uma juventude destituída de ideais políticos que se contenta
com prazeres imediatos proporcionados pelo consumo. É o celular da moda, o
tênis de marca e o carro de luxo que definem sua essência?
O que ler
O texto-base
para entender a teoria da alienação de Marx é Manuscritos
Econômico-filosóficos (Boitempo Editorial). Trata-se de uma obra de
juventude, em que Marx antecipa boa parte das teses que desenvolveria em
O Capital, além de demonstrar como suas teorias são incompatíveis com as
ditaduras comunistas dos séculos 20 e 21.
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