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O
FIM DAS IMPRESSÕES DIGITAIS
A
referência que praticamente inventou as técnicas modernas da polícia
forense pode estar com seus dias contados – ou, ao menos, nos Estados
Unidos. Pela primeira vez na história, um juiz decidiu que a impressão
digital não
vale como prova. É uma mudança que
abre um precedente dramático e afeta não só a Justiça como também os
bons romances policiais – afinal, antes mesmo de ter valia judicial de
fato, já estava botando gente atrás das grades na ficção.
A decisão foi do juiz Louis Pollak, na Filadélfia,
num caso envolvendo máfia, cartéis milionários de drogas e assassinatos
encomendados. "É uma decisão que vai repercutir muito", comentou
ao "New York Times" Paul Giannelli, um dos maiores especialistas
acadêmicos em investigação criminal. "Afinal", continuou,
"impressões digitais sempre foram consideradas as provas mais confiáveis."
Mas se a decisão de Pollak a princípio parece
escapar ao bom senso, numa discussão mais ampla ela é coerente. Em 1993, a
Suprema Corte do país estabeleceu uma nova regra para consideração
judicial de análises científicas, que acabou chamada de Padrão
Daubert (vem do caso Daubert v.
Merrell Dow Pharmaceuticals, mas essa já é outra questão).
E cientista nenhum discutiria o teste que os juízes
devem impor aos especialistas que estiverem depondo. A prova científica
deve ter sido já testada, tem que ser aprovada por outros cientistas, deve
ser aceita pela sociedade em geral e, aí tropeçaram as digitais, tem que
ter uma margem de erro. De quantos em quantos testes há uma falha?
A resposta mais crua, ou seja, dada uma digital
inteira dum dedão a ser comparada com outra, não há dúvidas: o erro é
zero. (Na verdade, um em 64 bilhões; na falta de tanta gente assim no
mundo, zero.) Mas isso é numa situação ideal, pois em cena de crime
nenhuma encontram-se digitais inteiras. São sempre fragmentos. É verdade
que muitos fragmentos até ajudam em muito para ter certeza. A dúvida
torturou o juiz Pollak e ele cravou: não serve como prova.
Coisa de cinema
Os jornais da Filadélfia estão em polvorosa já
há um ano com o caso. No banco dos réus, dois assassinos de aluguel
porto-riquenhos, Carlos Llera-Plaza e Wilfredo Martinez Acosta, além do
capo Victor Rodriguez. Naquela área, Rodriguez comandava um negócio que,
na conta mais pessimista, rendia 100.000 dólares a semana em tráfico e
distribuição.
A mando de Rodriguez, desceram bala primeiro
num inocente em Puerto Rico e depois, já na Filadélfia, em Jorge
"Flacco" Martinez e seu sobrinho de 17 anos. Flacco era seu
principal adversário num negócio que envolveu, pelo menos, 300 quilos de
cocaína e 100 de crack. Mortos em meados de 1998, seus algozes só estão
sendo julgados agora.
E o rigor do juiz Pollak pode estar dando uma
bela lição de o que é Justiça. Afinal, se são culpados e devem
enfrentar o corredor da morte, que tudo seja provado de maneira a deixar o
caso todo irrefutável. Os promotores públicos suam. Logo de início,
Pollak ordenou-os que apresentassem bons
motivos para pedir a pena capital.
Seu argumento foi oferecido pelos advogados de
defesa. Num outro crime envolvendo gangues, mortes e tráfico, a
procuradoria geral do estado tinha pedido o diabo como pena mas não cogitou
a morte. Eram brancos. O juiz deixou claro que não vê nenhuma evidência
de que o racismo esteja por trás do pedido de morte para este caso, onde os
envolvidos são latinos. Mas cumpre explicar os critérios.
De Mark Twain a Pollak
O
sujeito que, sentado na bancada e de
toga decidiu pela primeira vez tirar das impressões digitais seu valor jurídico
para identificação não é qualquer um. Professor da respeitada Escola de
Direito de Yale, foi reitor da Faculdade de Direito da Universidade da
Pensilvânia. Por baixo, é considerado um dos maiores constitucionalistas
do país.
E a tradição
que ele está rompendo não é nada
pequena. O primeiro criminoso a ser identificado pelas marcas deixadas por
seus dedos foi fictício, um personagem de "Life on the
Mississippi" (Vida no Mississippi) de Mark Twain. O livro, um tanto
autobiográfico, mas que também fez uso de trechos de rascunhos do Huck
Finn, antecedeu em cinco anos a garantia científica de que impressões
digitais eram de fato distintas.
A prova foi dada em 1888 por sir Francis
Galton, um antropólogo britânico primo do naturalista Charles Darwin. Mas
nem por isso, em pleno susto londrino com os casos de Jack, o estripador, a
técnica foi adotada pela polícia. Os precursores, quem diria, foram os
argentinos, que de posse do estudo de Galton passaram a fichar os criminosos
com seus dedões em 1891. A Inglaterra a sucedeu em 1901 e os EUA em 1903.
No tempo do DNA, ao que parece, começa a ter
seus dias de irrefutável postos abaixo.
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