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Os heróis mortos
em confrontos
Assassinato
de capitão e de sargento eleva para seis o número de PMs vitimados
em serviço neste ano no Estado
JOSÉ LUÍS
COSTA
RODRIGO CAVALHEIRO
Honras militares: dezenas de colegas se despediram do capitão
Carlos Augusto Vieira, sepultado no início da noite de ontem no
Cemitério João XXIII, na Capital
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Honras
militares: dezenas de colegas se despediram do capitão
Carlos Augusto Vieira, sepultado no início da noite de
ontem no Cemitério João XXIII, na Capital (foto Mário
Brasil/ZH)
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Uma
série de trágicas coincidências abateu o moral da tropa da
Brigada Militar na terça-feira à noite. O capitão Carlos Augusto
Cabral Vieira, 32 anos, e o sargento Ari Frank, 48 anos, foram
abatidos em confronto por bandidos, quando participavam da Operação
Reconquista, uma ofensiva contra o crime no Estado.
Os
dois militares usavam coletes à prova de balas, mas foram alvejados
em pontos vulneráveis. Vieira, na cabeça, e Frank, na veia femoral
da perna direita. Ambos colecionavam elogios por bravura e fariam
aniversário na próxima semana. Para cada um, estava sendo
preparada uma festa por parte de colegas e amigos. Eles agonizaram
no Hospital Cristo Redentor e morreram com diferença de 50 minutos.
–
A Sociedade gaúcha e a Brigada Militar perderam muito com essas
mortes – resumiu o chefe do Estado-maior da BM, coronel Tarso Antônio
Marcadela, que esteve no enterro do capitão, ao lado do
subcomandante-geral, coronel Luiz Antônio Brenner Guimarães.
O
secretário da Justiça e da Segurança, José Paulo Bisol, não foi
ao enterro de Vieira, mas enviou uma mensagem à família do
oficial.
Vieira
e Frank engrossam uma lista que soma neste ano a morte em serviço
de seis policiais militares durante combates.
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Morte de oficial
deixa órfãs 20 crianças carentes
O
tiro que matou o capitão Carlos Augusto Cabral Vieira, aos 32 anos,
fez dezenas de outras vítimas.
Ficaram
órfãs 20 crianças abandonadas pelos pais em abrigos e idosos
esquecidos em clínicas geriátricas.
Desde
que passou a atuar no Destacamento Especial Sarandi, na zona norte
de Porto Alegre, no final do ano passado, o oficial se engajava em
campanhas em favor de desamparados. Lotado na 3ª Companhia,
costumava angariar recursos entre empresários para compra e
distribuição de cestas básicas em creches e asilos. Dedicava-se a
palestras nas quais alertava para os males das drogas em escolas e
colaborava com a Fundação Projeto Pescar – programa formado por
um conjunto de empresas que treina jovens para o mercado de
trabalho.
Uma
das paixões de Vieira era o Centro Social O Samaritano, instituição
que abriga 20 crianças de zero a 12 anos, expulsas do convívio
familiar por maus-tratos e abuso sexual. Vieira tinha o hábito de
visitar a casa para aconselhar os mais rebeldes.
–
Ele veio aqui um dia, conheceu as crianças, fez amizade e voltava
sempre que precisávamos de ajuda. Os pequenos tinham medo da
Brigada, e ele mostrava os aspectos sociais da polícia – lembrou
a comerciante Patrícia Xavier, que administra o abrigo com o
marido, Oldemir Xavier.
Chocado
com a morte de Vieira, o casal lembrou que o oficial promoveu a última
festa de Natal.
–
Foi a melhor que tivemos. O capitão comprou torta e bolo,
providenciou refrigerantes e salgadinhos e trouxe um Papai Noel com
um saco cheio de presentes. Ele já estava planejando outra festa,
para o Dia das Crianças – contou Oldemir.
Segundo
colegas de farda, Vieira morreu fazendo o que mais gostava: capturar
bandidos. Comandante do Pelotão de Operações Especiais (POE) da
unidade do Sarandi, o capitão e outros três PMs perseguiam um trio
que roubara um Pointer na terça-feira à noite. Na Avenida Souza
Melo, no Sarandi, iniciou-se um sangrento tiroteio, que resultou em
três mortes.
Alvejado
na cabeça, Vieira foi levado para o Hospital Cristo Redentor, onde
morreu três horas depois. Um dos assaltantes, Iroceli Reus Pinheiro
Pires, 29 anos, tombou no local. Volmir Quevedo de Araújo, 35 anos,
ferido nas pernas, morreu às 6h30min de ontem, no Cristo Redentor.
Pires tinha condenações por roubo qualificado. Araújo era
foragido da Justiça, por crimes de homicídio e roubo. Um terceiro
ladrão, ferido, teria escapado.
Casado
e pai de um garoto de dois anos, Vieira era natural de Porto Alegre.
Ingressou na Academia da BM em 1993, formando-se tenente em 1997,
ano em que comandou o Esquadrão de Polícia Montada de Uruguaiana.
Em 1998, foi transferido para o Destacamento Especial Partenon, e,
em 2000, comandou a unidade de Dois Irmãos.
Em
outubro passado, Vieira retornou à Capital, sendo promovido a capitão
no mês seguinte. Casado e pai de um menino de dois anos, o oficial
foi sepultado ontem à noite no Cemitério João XXIII.
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AS
BAIXAS
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Ano
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PC
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BM
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1995
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3
|
7
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1996
|
6
|
6
|
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1997
|
16
|
11
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1998
|
3
|
9
|
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1999
|
6
|
6
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2000
|
2
|
9
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2001
|
8
|
8
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Total
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44
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54
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Um líder comunitário
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Cortejo:
corpo de sargento foi levado para sepultamento em Santa
Catarina (Júlio Cordeiro/ZH)
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Enfrentar
bandidos nunca foi preocupação para o sargento da BM Ari Frank, 48
anos.
Na
tarde de terça-feira, ao deparar com dois suspeitos, em Alvorada,
agiu com o mesmo destemor que o caracterizou em 25 anos de serviço
e lhe rendeu elogios como confronto com a quadrilha dos irmãos
Galhardo, perigosos assaltantes de banco da década passada.
Surpreendido
pela reação de um dos homens abordados, levou um tiro na perna
direita que dilacerou a veia femoral direita e o levou à morte
horas depois, por perder muito sangue.
–
Era um homem valente. O único medo dele era o coração.
Hipertenso, costumava dizer que, se desse um problema com o
“bobo” (coração), que eu não deixasse ele morrer sozinho.
Queria estar entre amigos – lembrou a auxiliar de enfermagem Vânia
Fabian, 49 anos, amiga e comadre do PM que atuava no Batalhão de
Polícia Rodoviária (BPRv), em Porto Alegre.
Vânia
contou que Frank fora líder comunitário em cidades onde morou.
Sentia-se à vontade em galpões de CTGs. Desde que ingressou na BM,
em Três Passos, passara por Frederico Westphalen, pela Casa
Militar, pelo Quartel-general da BM e pelo BPRv. Era considerado um
ótimo colega e tinha comportamento excepcional.
Frank
passou o último dia de vida longe do batalhão, colaborando com um
blitz na RS-118, em Gravataí. Ao perceber que uma motocicleta
desviara da barreira, saiu em perseguição e acabou morto ao tentar
dominar o bandido. O assassino sumiu. Seu parceiro, Luís Osmar
Carvalho dos Santos, 37 anos, foi capturado e preso em flagrante.
Frank
era natural de Seberi. Casado pela segunda vez, deixa um filho de 18
anos. Um cortejo o levou a Frederico Westphalen. À noite, seria
velado e depois seguiria para Palmitos (SC), onde será sepultado
hoje.
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“Somos uma família,
estamos no mesmo barco”
Entrevista:
Wagner Artini, PM baleado em serviço
Em
24 de julho passado, o soldado Wagner Artini, 35 anos, escapou vivo
da linha de frente na qual pereceram o capitão Vieira e o sargento
Ari Frank, na terça-feira. Artini esteve perto de morrer. Passados
15 dias, enquanto se recupera em casa dos ferimentos causados por três
disparos, Artini foi surpreendido com a notícia da morte de dois
colegas em confrontos.
Chocado,
o soldado contou a ZH os momentos dramáticos da caçada que
resultou nos ferimentos em seu corpo. Ele perseguia o foragido
Gelson André de Oliveira, que minutos antes baleara outros dois PMs
na 21ª DP. Um dos projéteis perfurou o intestino do policial.
Confira trechos da entrevista:
Zero
Hora – Como o senhor recebeu a morte dos dois policiais em serviço?
Wagner
Artini – Mesmo não os
conhecendo, senti muito. Somos uma espécie de família, estamos no
mesmo barco, para evitar agressões.
ZH
– O risco da morte é lembrado nas operações?
Artini
– Sabemos que podemos ser
alvejados, mas nunca esperamos, mesmo com o treinamento de tiro.
ZH
– Como foi o dia em que o senhor foi ferido?
Artini
– Não tinha noção de
quantos tiros me acertaram. Sentia dor na perna e no ombro, mas não
percebi o ferimento na barriga. Fiquei calmo.
ZH
– Foi a primeira vez que foi ferido?
Artini
– Já tinha sido acertado
no Presídio Central por uma arma artesanal, nas costas.
ZH
– O senhor já perdeu algum colega em ação?
Artini
– É estranho lembrar que
cumprimentou alguém e descobrir que essa pessoa morreu.
ZH
– A experiência muda algo no trabalho?
Artini
– Volto sem medo. Por
instinto, não gritei ao ser acertado. Se tivesse desviado a atenção
dos colegas, talvez eles pudessem ter sido alvejados.
ZH
– Como está a sua recuperação?
Artini
– Tirei os pontos hoje
(ontem). Os médicos tiram os órgãos, limpam e põem para dentro,
fica a sensação de que está tudo remexido. Com o tempo passa.
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PMS
MORTOS EM 2002
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•
Jair Francisco Leão Quinteiro,
44 anos, morreu baleado em Três Coroas por uma quadrilha
que tentava assaltar uma agência do Banrisul no dia 21 de
fevereiro. Ao levar para a cidade de 19 mil habitantes a
mulher e três filhos, Quinteiro elogiou a tranqüilidade
do lugar em relação a Canoas, onde morava.
•
Natural de Bagé, José Eduardo Moraes Fagundes, 43
anos, tinha 23 anos de BM. Morreu em 22 de abril,
perseguindo um assaltante em Guaíba, onde vivia havia 10
anos. Morador do bairro Santa Rita e integrante do
movimento negro da cidade, era conhecido e respeitado no
meio cultural local. Era casado, tinha cinco filhos e a
fama de brincalhão.
•
Ao investigar um veículo roubado no Morro do Paula no dia
15 de abril, em São Leopoldo, Rogério Trindade da
Rosa levou um tiro na cabeça. Nascido em Canoas, o
soldado de 32 anos foi criado no bairro Niterói e
ingressara havia 12 anos na Brigada Militar.
• O
policial militar Deroci Gonçalves Brandolt foi
baleado três vezes ao repreender um homem que atirava
pedras contra uma capela em Quaraí. Brandolt, 40 anos,
chegou em casa após o trabalho na madrugada no dia 27 de
abril. Mesmo já sem a farda, morreu tentando conter o
vandalismo denunciado por uma vizinha. Deixou mulher e três
filhos.
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