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Assassinatos avançam
para o Interior
Crimes
cresceram 27,15% em cidades interioranas e diminuíram 1% na Região
Metropolitana, em 2001
JOSÉ LUÍS
COSTA E JULIANA BUBLITZ
Os
pais de Vanilza França da Silva, nove anos, decidiram no ano
passado deixar Santa Cruz do Sul, cidade onde moravam havia 13 anos.
Selvino da Silva, 47 anos, e Marlise Ferreira França, 29, temiam a
violência.
O
casal buscou em Campestre, localidade com 300 moradores, no Vale do
Rio Pardo, um recanto seguro para criar Vanilza e os outros cinco
filhos – incluídos aí os gêmeos que devem nascer até outubro.
Acabaram traídos pelo avanço da criminalidade para o Interior.
Vanilza foi assassinada no domingo passado por um agricultor que
fazia biscates na região.
–
A gente achava que Santa Cruz estava ficando perigosa com o passar
dos anos. Podia ocorrer qualquer coisa com nossos filhos. Por isso
viemos para Campestre, onde tínhamos parentes e parecia ser um
lugar seguro – disse Selvino, que deixou os biscates para plantar
fumo no Interior.
A
sensação do casal é confirmada por levantamento da Secretaria
Estadual da Saúde, baseado em declarações de óbitos. Entre 2000
e 2001, a violência avançou para o Interior e diminuiu na Região
Metropolitana. Os dados mostram um aumento de 27,15% nos
assassinatos (homicídios e latrocínios) fora do eixo
metropolitano.
No
mesmo período, na Capital e nos 30 municípios vizinhos, houve
queda de 1%. Apesar da redução, morrem mais pessoas na Região
Metropolitana do que no Interior. E, em todo o Estado, os
assassinatos aumentaram 11,5% no período (de 1.653 para 1.844).
A
barbárie que vitimou a menina Vanilza pode ser conseqüência do
que o sociólogo José Vicente Tavares dos Santos classifica como
carência de convívio social.
–
Os crimes crescem nas áreas rurais pela inexistência de projetos
culturais, esportivos, de lazer e de emprego. Há uma relação
inversa entre participação social e crimes. Quando a pessoa se
integra, ocorre menos crimes – interpreta o sociólogo,
coordenador do grupo de pesquisa de violência e cidadania da
Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).
Embora
haja consenso de que muitos homicídios são inevitáveis,
autoridades alertam para ações do crime organizado no Interior.
Quadrilhas estariam se expandindo para pequenas e médias
comunidades e provocando mortes por desacertos e queimas de arquivo.
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Como a atividade policial é mais intensa nos grandes centros, os
bandidos estão migrando. O tráfico de drogas, por exemplo, está
disseminado. Não existem os grandes patrões, então, eles começam
a se devorar para tomar espaço. É uma carnificina pelo poder –
opina o delegado Lauro Santos, delegado de Soledade e que por seis
anos chefiou a Delegacia de Homicídios.
Fenômeno
semelhante já foi verificado em São Paulo, explica o sociólogo Túlio
Kahn, do Instituto Latino-americano das Nações Unidas para Prevenção
do Delito e Tratamento do Delinqüente (Ilanud).
–
A maioria das mortes está relacionada às drogas. Quando cresce o
tráfico de drogas, crescem os roubos de carro, os assaltos e os
homicídios. O tráfico é um crime multiplicador – analisa Kahn.
Uma
das explicações para o recrudescimento da violência no Interior
é o incremento populacional em cidades de médio porte. Segundo
dados do Censo 2000, na última década Porto Alegre teve
crescimento demográfico de 0,97% – taxa bem abaixo do índice
estadual de 1,5% –, perdendo moradores para municípios fora do
eixo metropolitano.
O
Censo mostra que famílias de classe média deixaram a Capital em
busca de melhor qualidade de vida – traduzida em mercado de
trabalho, escolas e universidades para os filhos, melhores condições
de lazer e de serviços e custo de vida e índices de violência
mais baixos.
Caxias
do Sul e Santa Cruz do Sul, por exemplo, despontam como pólos
atraentes para novos habitantes. Os dois municípios também
registraram as maiores elevações das taxas de assassinatos em
2001.
–
Quem se mudou foram pessoas com poder aquisitivo, elevando o padrão
de vida das cidades – observa Ana Soster, professora de geografia
urbana da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul
(PUCRS).
Mas
a estrutura de segurança não acompanhou a elevação populacional.
Os primeiros sinais desse quadro se manifestaram em 1998, com os seqüestros
de gerentes de bancos, arrombamentos em fóruns para furto de armas
e ataques a postos da Brigada Militar.
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Pode ter havido uma migração de gangues – analisa o sociólogo e
pesquisador Juan Fandino da UFRGS.
O
diretor do Departamento de Polícia do Interior (DPI), delegado
Pedro Urdangarin, reconhece as taxas elevadas em 2001.
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Tivemos problemas em Caxias do Sul, Uruguaiana, Pelotas e Passo
Fundo – diz Urdangarin, ressaltando ter tomado providências para
estancar a criminalidade.
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