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A
CIA continua no Brasil
Documentos
obtidos por ISTOÉ provam que a agência de espionagem atua
clandestinamente no Brasil. Delegados da PF afirmam que até FHC foi
bisbilhotado por equipamentos da CIA
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Weiller Diniz
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BUNKER:
Os delegados José Roberto (à esq.) e Zubcov, da PF, confirmam que
a CIA funcionava na sede de Serviço de Operações de Inteligência
Policial (Soip), em Brasília |
Nos filmes de Hollywood, os agentes da CIA, a
poderosa Agência Central de Inteligência do governo americano, podem tudo.
Espionam, compram informação, roubam documentos, matam, derrubam governos.
As leis dos outros países, principalmente as dos subdesenvolvidos, não são
levadas em consideração. Na vida real, é mais ou menos a mesma coisa. Um
calhamaço de papéis e depoimentos sigilosos reunidos por ISTOÉ provam que
a CIA continua ativa no Brasil. Os agentes americanos atuam com desembaraço,
tomam conhecimento de investigações confidenciais e têm acesso a informações
de segurança nacional. A espionagem ianque recebeu as bênçãos
governamentais e, comprovadamente, operou no Brasil alojada em um estratégico
birô da Polícia Federal brasileira: o Centro de Dados Operacionais (CDO),
hoje rebatizado de Serviço de Operações de Inteligência Policial (Soip),
que tem bases em Brasília e em outras sete capitais. A construção da sede
do CDO no Distrito Federal foi bancada pelo governo americano, que também
paga o aluguel dos demais escritórios. A inusitada boa vontade americana
tinha como contrapartida a tolerância às xeretices da CIA no Brasil. Na
mais ousada delas, o próprio presidente Fernando Henrique Cardoso foi
grampeado. “O equipamento usado para grampear FHC era da CIA”, revela o
delegado José Roberto Benedito Pereira, peça-chave na denúncia obtida por
ISTOÉ sobre a atuação da agência no Brasil.
Em 1995, o CDO era chefiado pelo delegado Mário
José de Oliveira Santos. Lá foi feito o grampo – denunciado por ISTOÉ
– que captou conversas entre o presidente FHC e seu assessor direto, o
embaixador Júlio César Gomes dos Santos, além de diálogos sobre a licitação
internacional do Sistema de Vigilância da Amazônia (Sivam). O bilionário
negócio (U$ 1,4 bi) acabou no colo da indústria americana Raytheon. Para
grampear Júlio César, o CDO recorreu a um expediente corriqueiro: sua
suposta ligação com o narcotráfico. O embaixador foi flagrado conversando
sobre o Sivam. Nada a respeito de drogas. No meio do grampo, algumas
inconfidências de FHC. Era com o produto dessas gravações que o delegado
Vicente Chelotti contava para se eternizar na direção da PF. Em conversas
com amigos, costumava dizer que tinha “o homem na mão”. Chelotti caiu
porque, segundo os policiais que trabalharam no caso, os trechos pessoais
supostamente envolvendo FHC teriam sido apagados. Coube ao general Alberto
Cardoso, chefe da Agência Brasileira de Informação (Abin), desmascarar o
blefe com a ajuda da própria PF. A escaramuça palaciana, entretanto,
ocultava interesses bem maiores.
Depois do fim da guerra fria, os órgãos de
espionagem dos EUA, para manter o status e justificar os altos orçamentos,
começaram a trabalhar também com espionagem comercial, acompanhando
acordos internacionais de interesse de empresas americanas. Oswald Le Winter,
ex-membro da agência, narra no livro Democracia e secretismo”,
publicado este ano em Portugal: “A CIA e a NSA
(Agência Nacional de Segurança) interceptaram chamadas telefônicas entre
representantes brasileiros e a empresa francesa Thomson sobre um sistema de
radar que os brasileiros queriam adquirir. Uma firma americana, Raytheon,
também estava na corrida, e relatórios preparados a partir de interceptações
foram canalizados para a Raytheon.” A bisbilhotice da CIA continuou, e
sempre “incrustada dentro da
Polícia Federal”, como definiu o delegado Wilson Ribeiro, da Divisão
Disciplinar da PF, no relatório de um caso recente.
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O
diplomata americano Lacy A. Wright Jr envia carta, no dia 6 de maio
de 1997, ao chefe da Interpol no Brasil, Washington Melo (à esq.).
Wright quer a indicação de um federal para participar de seminário
na cidade de Washington. Os americanos se oferecem para pagar as
despesas. No último parágrafo, ele revela quem é o contato da CIA
no Brasil: “Robert Evans, primeiro-secretário, escritório para
assuntos regionais, no fone 3217272, ramal 2026”. Melo indica um
dia depois o delegado José Roberto para a viagem aos EUA
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No dia 6 de maio de 1997, Lacy A. Wright Jr
enviou uma carta ao chefe da Interpol no Brasil, delegado Washington Melo.
Wright queria a indicação de um policial federal para participar de seminário
sobre entorpecentes entre os dias 12 e 14 de maio nos EUA. O convite mostra
que os americanos pagam a conta e, por isso, tratam os delegados brasileiros
como subordinados: “A tarifa da viagem aérea (classe econômica) será
paga pelo governo dos Estados Unidos, e o atendente receberá a diária padrão
do governo americano para cobrir as despesas com alimentação e hospedagem
durante o seminário (a diária atual para área de Washington é de U$ 124
por noite para hospedagens e U$ 42 para refeições e despesas diversas).”
A face da CIA em terras brasileiras com nome, sobrenome e telefone é
revelada no final da carta: “Para obtenção de detalhes adicionais, ou no
caso de Vossa Senhoria ter algumas perguntas, favor contate o sr. Robert
Evans, primeiro-secretário, Escritório para Assuntos Regionais.” Melo
indica um dia depois o delegado José Roberto Benedito Pereira, tira do alto
escalão, que foi chefe de gabinete de Chelotti.
A carta de Mr. Wright era uma simulação. Não
tinha seminário algum. O próprio José Roberto, em um relatório
confidencial obtido por ISTOÉ, conta que a farsa serviu para submeter
federais brasileiros ao teste do polígrafo – o detector de mentiras, cuja
aplicação no Brasil é ilegal, assim como as diárias pagas pelos EUA. José
Roberto escreve: “Consoante determinação recebida no sentido de me
submeter ao polígrafo, apresentei-me para a sessão às 12 horas do dia
12.05 p.p. (mesmo dia do suposto seminário) no Hotel Hyatt Dulles, próximo
ao Aeroporto Internacional de Washington em companhia do Sr. Robert Evans,
agente da CIA, vinculado à Embaixada Americana no Brasil”. José Roberto
revela qual a verdadeira função de Robert Evans: espião da CIA, cujo
cargo de primeiro-secretário não passava de uma camuflagem para encobrir
os inconfessáveis interesses da CIA no Brasil. Durante o teste na máquina
de mentiras, o delegado, um especialista em interrogatórios, respondeu a
perguntas do tipo se “aceitaria subornos em sua atividade”.
O relatório dele deixa claro que a CIA usava
o vestibular do polígrafo para selecionar os colaboradores em suas
empreitadas tropicais. “Como reagiria a opinião pública se tomasse
conhecimento de tamanha ingerência em assuntos de segurança interna?”,
questiona José Roberto. As indagações estão até hoje sem resposta.
Procurado por ISTOÉ e confrontado com os papéis e suas assinaturas, o
policial confirmou que redigiu e entregou o documento ao chefe da Interpol.
Outros delegados da elite da PF, além de reprovarem o uso do polígrafo,
acusam a CIA de tentar cooptar policiais brasileiros. “A convivência com
os americanos era comum pelos corredores da Interpol. Eles tomavam
conhecimento de tudo o que acontecia por aqui”, conta Luiz Zubcov, outro
delegado que se rebelou contra a ingerência da CIA.
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As
acusações de José Roberto e Zubcov viraram sindicância interna
de número 1414/97 na Corregedoria Geral da PF, chefiada pelo
delegado Arthur Lobo Filho. Zubcov diz que “desconhecia base legal
para o acordo” e confirma que a CIA se portava como dona do Soip.
O despacho
foi encaminhado ao diretor geral da PF, Vicente Chelotti (ao lado),
que, por
escrito, manda tomar providências
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José
Roberto, em um relatório confidencial obtido por ISTOÉ, conta que
a ida aos EUA era uma farsa para submeter federais brasileiros ao
teste do polígrafo –
o detector de mentiras, cuja aplicação no Brasil é ilegal, como
também as diárias pagas pelo governo dos EUA
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Crise amarga – Em 18 de
novembro de 1997, Zubcov, a pedido de seu chefe na Interpol, Washington
Melo, reuniu 40 federais envolvidos no programa custeado pela CIA, entre
eles José Roberto. Zubcov comunicou que o diretor-geral, Vicente Chelotti,
estava tirando o programa com a CIA da Interpol. O que seria uma reunião
para anunciar mudanças burocráticas foi o estopim da crise mais amarga
experimentada pela PF. No encontro, José Roberto e Zubcov explicitaram suas
críticas ao programa da CIA. No dia seguinte, uma denúncia, assinada por
13 dos policiais presentes à reunião, caiu como uma bomba na mesa de
Chelotti. Em um relato da reunião, os policiais atribuíram a Zubcov a
insinuação de que a “CIA se valia do programa de cooperação com a PF
para manter sua base de coleta de informações no Brasil”. O delegado
Zubcov também teria criticado a subserviência dos agentes do programa ao
dizer que “não se venderia por cents”.
As acusações viraram a sindicância 1414/97
na Corregedoria da PF, chefiada à época pelo delegado Arthur Lobo Filho.
Chamados a esclarecer, os dois delegados fizeram denúncias ainda mais sérias.
Todas por escrito. Zubcov afirmou que “desconhecia base legal para o
acordo” e confirmou que a CIA se portava como dona do pedaço: “Esse
acordo, apoiado no binômio capital x trabalho, por serem os EUA o suporte
financeiro, não lhe dava o direito de interferir na seleção de pessoal e
gerência das atividades.” O mesmo Zubcov ironizou: “Que estranho fascínio
o programa exerce sobre seus selecionados, a ponto de comungarem dos mesmos
sentimentos como verdadeiros devotos?”. José Roberto atacou a vocação
imperialista dos americanos: “Só quem conviveu com a ingerência, insolência
e atrevimento dos agentes da CIA entende o estado de espírito de um funcionário
probo.”
Propinas verdes – Depois de afirmar
que “vivenciou a tentativa de cooptação”, José Roberto faz uma grave
revelação. Nem todos os “devotos” resistiram ao assédio verde: “O
agente federal Maurício de Souza Pinheiro teve o descaramento de, em seu
pronunciamento, dizer que recebia de salário US$ 600: ‘Foram os
americanos que me pagaram gratificações que me permitiram viver com
dignidade, e me deram cursos quando o DPF nunca me deu nada’”, relata
José Roberto textualmente.
Tudo isso se tornou oficial. O chefe da divisão
disciplinar da PF, delegado Wilson Ribeiro, alertou em dois ofícios que a
sindicância sobre as relações espúrias CIA-PF “toleradas pela
Administração” poderiam criar “embaraços”: “Como o Ilmo. Sr.
diretor-geral do DPF deve ter pleno conhecimento do que se passa no órgão
que dirige, certamente conhecia essa circunstância noticiada pelo Dr.
Zubcov e, se não adotou as medidas esperadas, é porque, certamente, não
convinha à Administração”, conclui Wilson Ribeiro se referindo a
Vicente Chelotti. Quando, em 20 de maio de 1999, depôs na CPI do Narcotráfico,
Chelotti qualificou a presença da CIA em território brasileiro como
“loucura” e “absurdo”. Não é bem assim. ISTOÉ teve acesso a vários
despachos assinados por Chelotti ao longo de 1998 na sindicância que
investigava
a presença da CIA no Brasil. Mesmo com tanta nitroglicerina, a sindicância
não teve nenhum resultado.
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ARMAÇÃO:
Júlio César dos Santos (à esq.), assessor de FHC, teve
seu telefone grampeado a pedido do delegado Mário Santos,
que solicitou autorização judicial para investigar o
narcotráfico
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A história começou em agosto de 1989.
Um documento do CDO explica os pormenores do “programa de combate
ao narcotráfico” entre Brasil e EUA, sem referências à CIA. No
documento, é revelado o nome dos policiais, a especialidade e
mostra quem paga a conta. “Todos os móveis, equipamentos e veículos
que são utilizados pelo programa foram doados pelo governo dos EUA.
Existem equipamentos que foram importados pela embaixada daquele país,
principalmente da área de aerofotogrametria e comunicações.”
Mais adiante, o mesmo documento revela a abrangência do mecenato:
“Todos os gastos são financiados pelo Departamento de Estado do
Governo dos EUA. Desde a construção do imóvel em Brasília,
compra de móveis, equipamentos, viaturas, aluguéis para os escritórios
regionais, gastos com operação etc., são repassados, mensalmente,
recursos para tal finalidade.” O documento historia também a
paternidade do programa. “Os contatos foram feitos, na época,
pelo então diretor da DPF, dr. Romeu Tuma, com o ministro da Justiça,
dr. Saulo Ramos, o chefe do SNI, Ivan de Souza Mendes e os
representantes da embaixada americana”. A mesada da CIA, entre
outras coisas, bancou a compra de 35 carros. Acredite: três foram
roubados. Um Gol, um Escort e uma Kombi equipadíssima.
| CIA, braço do poderio
americano desde a guerra fria, patrocinou golpes e
intervenções nos quatro cantos do planeta. Brasil
e Chile foram cenários de duas grandes operações:
a derrubada dos presidentes João Goulart e Salvador
Allende para a instalação das ditaduras militares
dos generais Castelo Branco e Augusto Pinochet. A
CIA financiou políticos simpatizantes do golpe e de
manifestações urbanas que usaram contra Jango o
velho tema Deus, pátria, família e liberdade
versus comunismo. O general e adido cultural no
Brasil Vernon Walters era a ligação dos EUA com os
militares golpistas. Em 1972, Walters se tornou o
segundo homem da CIA. Nessa época, ações
clandestinas foram registradas em toda a América
Latina. |
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“Isso
acontece até hoje ” |
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INGERÊNCIA:
O delegado Lobo acusa: “A CIA atuava aqui
dentro” |
O corregedor da PF que
investigou a atuação da CIA, Artur Lobo Filho,
hoje aposentado, diz que os americanos ainda mandam
no órgão e suspeita que a sindicância aberta por
ele foi engavetada para acobertar o escândalo.
ISTOÉ – O
sr. conhece as denúncias?
Arthur Lobo Filho – Sim. Houve uma reunião
de lavagem de roupa suja, inclusive sobre pessoas
que receberiam por fora, em dólar. Depois, José
Roberto não teve mais chances na PF. Se você tem
uma atuação que contraria interesses, fica
discriminado. Quem se interessou pelo caso foi o
general Cardoso, que ficou de orelha em pé.
ISTOÉ –
Qual a sua avaliação do programa com a CIA?
Lobo Filho – Sempre olhei esse caso com
reserva. Mesmo que houvesse um convênio, ele já
tinha extrapolado há tempos. O pessoal atuava aqui
dentro, o que é proibido, usando recursos
indevidamente, direcionando para determinados
servidores. Os dois (Zubcov e José Roberto) estavam
lá numa situação de subordinação estranha,
igual titica n’água. Irregularidade e corrupção
não é do perfil de nenhum deles.
ISTOÉ – E
o resultado da sindicância?
Lobo Filho – Me aposentei em outubro de
2001 e não tive conhecimento da conclusão da
sindicância. É um indicativo de que foi
engavetada. Se ela desapareceu, a responsabilidade
é da direção geral. Tem procedimento que pára na
gaveta e, se ninguém pergunta, fica lá. Essas
coisas aconteceram, o fato era e é grave. Não sei
nesse caso, mas já aconteceu de administrador que,
quando sai, mete algumas coisas debaixo do braço,
vai embora e as coisas caem no esquecimento.
ISTOÉ – O
Chelotti não fez nada?
Lobo Filho – Lembro que ele ficou
preocupado, levou o fato ao ministro da Justiça na
época (Nelson Jobim). Tenho quase certeza de que
isso acontece até hoje. Quer ver? Por que a direção
atual quer tirar o Getúlio Bezerra da Delegacia de
Repressão a Entorpecentes (DRE) e não tira? Nem o
ministro tira. Os americanos não deixam. Aí é o
velho esquema: paga quem quer, mantém quem quer e
xereta o que quer. Isso é invasão de soberania? É
coisa muito pior. Grampearam o presidente, meu
amigo. Alguns grampos são feitos com objetivo político,
inclusive com interesse de fora.
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Fundo secreto
DEA põe US$ 5 milhões em conta sigilosa da PF
para combate ao tráfico |
Weiller Diniz
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O diretor do Combate ao Crime Organizado,
Getúlio Bezerra: operações bancadas pelo fundo,
como a que prendeu 28 traficantes, são
contestadas na Justiça porque os grampos saíram
da Embaixada dos EUA |
Em novembro de 2002, a reportagem “A CIA continua no
Brasil” de ISTOÉ comprovou com documentos as
sorrateiras ações da agência americana no Brasil. À
época, o ex-corregedor da Polícia Federal, Artur
Lobo Filho, que investigou as atividades ilegais da
CIA em território nacional, em uma sindicância que
evaporou nos subterrâneos da Polícia Federal, disse
que a ingerência externa na PF é corriqueira. “Tenho
quase certeza de que isso acontece até hoje. Quer
ver? Por que a direção atual quer tirar o Getúlio
Bezerra da Delegacia de Repressão a Entorpecentes (DRE)
e não tira? Nem o ministro tira. Os americanos não
deixam. Aí é o velho esquema: paga quem quer, mantém
quem quer e xereta o que quer. Isso não é invasão de
soberania? É coisa muito pior. Grampearam o
presidente.” A afirmação indignada de um policial da
elite da PF, hoje aposentado, revela a dimensão da
tolerância da PF às bisbilhotices ianques em troca
de pequenos agrados pecuniários. O presidente citado
por Lobo é Fernando Henrique Cardoso, fisgado em um
grampo tratando do bilionário projeto de vigilância
da Amazônia – Sivam – com o embaixador Júlio César
dos Santos. O amigo dos americanos, delegado Getúlio
Bezerra, foi promovido. Hoje, ele tem mais poder no
comando da Diretoria de Combate ao Crime Organizado,
que manda na DRE.
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Lobo tinha razão. O tempo passou e a PF volta a
estar no centro da discussão sobre a ingerência
externa. No começo de setembro deste ano, o
procurador Luiz Francisco de Souza recebeu uma
denúncia de que a área de entorpecentes da PF
mantinha uma conta corrente – número 284.002-2,
agência 3476-2 do Banco do Brasil – abastecida
secreta e regularmente pelo DEA – Drug Enforcement
Administration –, a agência de combate ao
narcotráfico dos EUA. O procurador, que investiga
contratos da PF, pediu as informações sobre a
volumosa conta – US$ 5 milhões só este ano. As
respostas foram dadas no dia 12 de setembro pelo
delegado Getúlio Bezerra e pelo Coordenador-Geral de
Polícia de Repressão a Entorpecentes, Ronaldo
Urbano. Em um documento obtido por ISTOÉ, a cúpula
da Federal confirma a existência do fundo secreto,
só conhecido por figurões da polícia e invisível à
fiscalização e controle das autoridades brasileiras,
como o Congresso, a Receita e o Tribunal de Contas,
o que é ilegal. A PF omitiu uma informação
relevante: que a conta continua sendo movimentada
pelo próprio Getúlio Bezerra. ISTOÉ fez um depósito
de R$ 1 na conta, na quinta-feira 9, e o recibo
comprova que saiu em nome de Bezerra. Luiz Francisco
enviou uma recomendação à PF para que o dinheiro
seja incluído no orçamento formalmente para que
deixe de ser um fundo secreto e se torne um fundo
público.
A
PF alega que um acordo de 1995 permite o duto livre
das verdinhas americanas para serem gastas aqui e
geridas pelo policial brasileiro. Na resposta da PF
ao procurador, surge a principal ilegalidade da
conta clandestina: “Esclarecemos que a prestação de
contas dos recursos financeiros destinados aos
projetos sob responsabilidade da Polícia Federal no
acordo, é encaminhada regularmente à Embaixada dos
Estados Unidos da América, através da Seção de
Assunto sobre Narcóticos – NAS/USA”. Os policiais
brasileiros que administram o orçamento paralelo de
dólares só dão satisfação aos vizinhos mais
prósperos acima do Equador. Não é a primeira vez que
isso acontece. A revista Carta Capital denunciou que
na operação Cobra, envolvendo o combate do
narcotráfico entre Colômbia e Brasil, houve envio de
dinheiro externo pelo Citibank via contas CC5.
Agora, uma minuciosa investigação da PF pode
enfrentar sobressaltos porque as provas produzidas
na Operação Diamante estão cheias de digitais dos
americanos


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