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PLANTOU? CHOVEU? COLHEU? Percival Puggina
Tenho visto e ouvido, muitas vezes, nos últimos
dias, que o governo do Estado assume como realização sua a excepcional
safra rio-grandense. Com ares compenetrados e professorais,
garotos-propaganda e eminentes homens públicos, comparecem ante os meios de
comunicação para buscar dividendos políticos no bom desempenho da
agricultura gaúcha. Inicialmente imaginei que o governo tivesse
plantado bastante. Fui investigar e descobri que não foi isso. O governo não
tem safra própria de coisa alguma, exceto, algumas flores que murcharam no
pé, nos jardins do Palácio Piratini. Não, o governo não plantou. Quem
plantou foram os produtores rurais rio-grandenses, metro por metro, hectare
por hectare, num trabalho tão árduo e mal remunerado que cada vez tem
menos gente tentando ganhar a vida no campo, onde, aliás, nem ar
refrigerado tem. Nos gabinetes o pessoal ganha mais e se cansa menos. Embora não seja muito dado às lides
campeiras, eu sei que uma boa safra precisa de boas chuvas nos períodos
certos. "Vai ver que foi isso", supus a seguir. "Vai ver que
o governo choveu bastante, de acordo com o calendário agrícola".
Pergunta daqui, indaga dali, fiquei sabendo que o governo não choveu nada.
Nem uma nuvenzinha, nem uma gotinha d’água pode ser atribuída a qualquer
ação oficial. Teria o governo mandado os companheiros para
o campo, ajudar na colheita? Tampouco. Como tinha muita reunião, o pessoal
ficou por aqui mesmo. Puxa, vida! Não plantou, não choveu e não colheu? O
que terá feito o governo para que tivéssemos uma excelente safra de grãos?
Aí, me disseram: "O Banrisul financiou a agricultura, pela primeira
vez depois de muitos anos". Acontece que eu sou curioso e fui ver os números.
E descobri que o governo do Estado participou com 4,5% do financiamento da
safra estadual, o que convenhamos é uma insignificância, como se alguém
tivesse pago toda a conta e o governo não entrasse com a metade da gorjeta
usual de 10%. Em outras palavras, a União botou o dinheiro, o estado
contribuiu com menos de 5% e vai para a porta receber os cumprimentos. É tudo diferente do que vem sendo
proclamado. O governo estadual gasta recursos para dizer que nos
proporcionou uma safra que foi produzida pela iniciativa privada e
financiada pela União, da qual ele, governo, assim como a sociedade, é
beneficiário. |
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