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Cenas típicas da violência
do Rio se incorporam ao cotidiano gaúcho
A chacina de
um casal e de uma criança em disputa por ponto de drogas em Porto Alegre
fez guarnições ocuparem o Morro da Polícia, rendendo imagens semelhantes
às que mancham de sangue o cotidiano de favelas cariocas
HUMBERTO TREZZI
Os
padrões de guerra urbana das grandes cidades brasileiras começam a ganhar
espaço na Grande Porto Alegre.
Foto
Mauro Vieira/ZH
Neste
ano, moradores da Região Metropolitana vivenciaram cenas ao pior estilo
carioca de criminalidade. Entre elas, a incineração de criminosos por seus
parceiros (em Alvorada), chacinas com morte de crianças (em Porto Alegre),
toque de recolher em vilas dominadas pelo narcotráfico e moradores
submetidos a cerco e a triagem policial.
A
semana começou e terminou com operações diárias de agentes civis e
militares no Morro da Polícia, numa caçada aos autores de uma chacina que
não pouparam uma criança de 11 anos. De beco em beco, pulando esgotos e
saltando cercas, policiais com o dedo no gatilho de escopetas percorreram o
outrora tranqüilo morro, nos últimos tempos palco de selvagens acertos de
contas entre gangues de narcotraficantes. Nem as blitze policiais impediram
novos tiroteios. Moradores tentaram linchar um suspeito da chacina,
importando outro modelo carioca: o justiçamento.
São
fenômenos que têm se incorporado ao cotidiano gaúcho. Nos últimos três
anos, combates de rua entre criminosos da periferia forçaram a polícia a
realizar ações nas vilas Cruzeiro e Maria Degolada (Zona Sul), Vila Jardim
(Zona Leste) e no bairro Rubem Berta (Zona Norte). Nesses locais, criminosos
submetiam moradores a um Estado de Sítio: a população só circulava em
horários considerados seguros. Mesmo assim, crianças foram alvos de balas
perdidas.
Algumas
das batalhas são travadas com armas de última geração. Em dois anos,
policiais gaúchos apreenderam pelo menos seis fuzis e duas metralhadoras na
Grande Porto Alegre. O fuzil pode furar paredes de tijolo e coletes à prova
de balas. E tão letal que os policiais gaúchos estão proibidos de usá-lo.
Felizmente
para os gaúchos, são esporádicas no Estado desgraças consagradas no
centro do país. Chacinas, embora crescentes, são raras no Rio Grande do
Sul. A taxa de homicídios registrada em 2001 em Porto Alegre, 18 para cada
100 mil habitantes, é metade da registrada no Rio (35) e ínfima se
comparada aos 49 por 100 mil moradores de São Paulo.
Alguns
indicadores colocam Porto Alegre num patamar pior. A taxa de latrocínios é
2,6 por 100 mil habitantes/ano, maior do que a registrada no Rio, que é de
1,7 por 100 mil. A taxa de roubos em Porto Alegre é 1.437 por 100 mil
habitantes, contra 673 por 100 mil entre os cariocas.
Os
gaúchos levam vantagem com relação a outras capitais no quesito investigação.
A maioria dos homicídios e cerca de metade dos casos de roubos de carros são
resolvidos em Porto Alegre, incluindo a devolução dos veículos. Em locais
como o Rio, a solução desses crimes varia entre 10% e 20% dos casos.
O
sociólogo Túlio Kahn diz que homicídios estão relacionados à pobreza e
desigualdade social. Já os roubos crescem em regiões com maior padrão de
vida. Isso explicaria a contradição em Porto Alegre. Kahn não estranha
que cresçam no Estado chacinas e cenas de crueldade como as do Rio:
–
Criminosos copiam padrões e modus operandi. É o efeito contágio, que
popularizou seqüestros e chacinas.
O
sociólogo Luiz Eduardo Soares, ex-consultor de segurança da prefeitura de
Porto Alegre e hoje no governo do Rio, diz identificar na capital gaúcha um
padrão de criminalidade semelhante ao carioca.
–
Embora a violência gaúcha esteja numa escala inferior, a fixação
territorial do tráfico é semelhante. E a tendência é que cresçam a
crueldade e a morte de inocentes nos acertos de contas, como no Rio.
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SAIBA
MAIS
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Crimes
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Porto
Alegre
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Rio
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homicídios
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18/100
mil
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35/100
mil
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latrocínio
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2,6/100
mil
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1,7/100
mil
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roubos
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1.437/100
mil
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673/100
mil
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lesões
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1.478/100
mil
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650/100
mil
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furtos
veículos
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497/100
mil
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198/100
mil
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roubos
veículos
|
220/100
mil
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326/100
mil
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Fonte:
Ministério da Justiça
RS é rota de armas de
traficantes do Rio
Polícia tenta
aumentar fiscalização nas fronteiras
CARLOS WAGNER
Uma
das batalhas da guerra entre traficantes e policiais pelo domínio do Rio
está sendo travada nos 1.003 quilômetros da fronteira gaúcha com o
Uruguai.
A
região, de campos rasgados por estradinhas despoliciadas, é uma das portas
de entrada de armas e de munição. A mais recente evidência de que o
Estado é rota de armamentos para o Sudeste é o caso do ataque à
prefeitura do Rio, ocorrido na segunda-feira da semana passada.
Das
132 cápsulas deflagradas contra o prédio, seis eram do tipo Wolf, calibre
7.62 com 39 milímetros de comprimento, fabricadas nos Estados Unidos, raras
no Rio e compatíveis com cerca de cinco fuzis, dos quais o AK-47 é o mais
comum na cidade. A munição levou a polícia a desconfiar do envolvimento
do traficante Ernaldo Pinto de Medeiros, o Uê, no atentado.
A
quadrilha de Uê já havia utilizado munição desse tipo em um ataque a uma
delegacia. De acordo com as investigações da Polícia Civil, a munição
fabricada pela Wolf sai dos Estados Unidos por uma rota de contrabando que
passa pela África e Argentina até chegar ao Brasil, segue pelo Rio Grande
do Sul, Paraná, Mato Grosso até o Rio.
O
contrabando de armas nas fronteiras brasileiras é feito por inúmeras
quadrilhas. A maior delas, segundo investigações da Polícia Federal (PF),
tem ramificações por vários Estados e é conhecida como Máfia Libanesa
(embora não tenha nada a ver com a comunidade libanesa).
Os
mafiosos estão postados em pontos estratégicos nas fronteiras com o
Paraguai e a Bolívia (em Corumbá e Ponta Porã, em Mato Grosso do Sul),
Paraguai e Argentina (em Foz do Iguaçu e Guaíra, no Paraná), e com o
Uruguai (no Chuí e em Santana do Livramento).
Parte
das armas é trocada por drogas no mercado internacional, dominado pelo
ex-agente da CIA (a agência de inteligência norte-americana) Sergis
Soganelian. De origem armênia, ele está preso nos Estados Unidos enquanto
seus negócios são tocados pelo filho, Garaiebe.
O
Rio Grande do Sul serve de passagem para as armas que protegem os
traficantes nos morros do Rio. Elas chegam no porto de Montevidéu, no
Uruguai, e ingressam no Brasil pelo Sul. Seguem rumo ao Paraguai, à Bolívia
e à Colômbia, de onde são distribuídas para traficantes cariocas e
outros grupos criminosos na América do Sul – entre eles, as Forças
Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), que têm ligações com Luiz
Fernando da Costa, o Fernandinho Beira-Mar.
Preso
na Penitenciária de Segurança Máxima de Bangu 1, no Rio, o traficante
ainda comanda o tráfico de drogas e de armas.
Outro
receptador de armas que usa o Estado com passagem é a família do
fazendeiro gaúcho Erineu Domingos Soligo, o Pingo, estabelecido em Aral
Moreira, ao norte de Capitán Bado, município paraguaio dominado por
Beira-Mar e maior fornecedor de maconha para o Brasil.
Segundo
explicou um policial federal, a passagem de armas pelo território gaúcho
se intensificou nos últimos tempos devido ao aumento da vigilância nas
entradas tradicionais de armas e munição no país – as cidades
paranaenses e do Mato Grosso do Sul, as fronteiras paraguaia e boliviana, e
a Baía da Guanabara, para onde são trazidas de navios, alguns dos quais
depois de uma passagem pelo porto de Montevidéu. As ações das autoridades
contra os contrabandistas de armas nas fronteiras gaúchas já estão
ocorrendo, apesar de invisíveis.
–
Porque são de inteligência (rastreamento de quadrilheiros por meio da
movimentação de contas bancárias de suspeitos e de escutas telefônicas
autorizadas pela Justiça) – explicou uma fonte da força-tarefa que
combate o crime organizado no Rio, sob coordenação do Ministério da Justiça.
Sufocar
a entrada ilegal de armas no Rio é fundamental, atesta a inspetora Marina
Magessi, chefe da operações da Delegacia de Repressão a Entorpecentes da
Polícia Civil do Rio.
–
A figura do comerciante de armas transita na sombra do conflito entre
policiais e traficantes. Não lembro de ter visto um deles preso. Acabar com
eles seria a mesma coisa que quebrar as pernas do tráfico – diz Marina.
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