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OS
RASTROS DO CARTEL DE CALI NO
SUL DO BRASIL
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Balneário
Camboriú (foto), Gramado e outras cidades do Sul foram escolhidas
pelo
colombiano Joaquim Hernando Jimenez (E) para lavar mais de R$ 100
milhões
do narcotráfico (Arte sobre foto de Paulo Franken/ZH)
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Os
negócios do Cartel de Cali no Sul
Colombiano
é investigado por tentar legalizar R$ 103 milhões no Rio Grande do
Sul e em Santa Catarina
HUMBERTO
TREZZI
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O
elo: preso em Perequê (SC), Jimenez (C) foi transferido
para o Estado, onde manteve contatos para a compra de imóveis
(foto Tamires Kopp, Banco de Dados/ZH – 1/03/2002)
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Procuradores
gaúchos chegaram a uma surpreendente conclusão: a maior organização
de narcotraficantes do planeta escolheu o sul do Brasil para
legalizar R$ 103 milhões.
Os
investigadores rastrearam movimentações financeiras do colombiano
Joaquim Hernando Castilla Jimenez, apontado pela CPI do Narcotráfico
como o elo brasileiro do Cartel de Cali.
Documentos
apreendidos com Jimenez indicam que, em um ano de peregrinações
pelo Rio Grande do Sul e por Santa Catarina, negociou a compra de
nove imóveis e fez milionárias aplicações financeiras. As transações
foram abortadas com sua prisão, em fevereiro, na praia de Perequê
(SC).
Zero
Hora refez os passos de Jimenez e constatou que o colombiano firmou,
desde abril passado, contratos para a compra de imóveis avaliados
em R$ 10 milhões.
Estavam
na mira de Jimenez um hotel em Gramado, uma casa no balneário de
Atlântida, uma mansão na zona sul de Porto Alegre, cinco
apartamentos e um andar de salas comerciais em Balneário Camboriú
(SC) e uma área para construção de um porto privado em Itajaí
(SC).
Documentos
com a Promotoria Especializada Criminal gaúcha apontam para
movimentações de US$ 39 milhões (R$ 92,2 milhões) de Jimenez com
bancos do Panamá, da Venezuela e dos EUA. O Ministério Público
estuda a formalização de um pedido a essas instituições
financeiras para que enviem cópias das conversas com o colombiano
(os bancos norte-americanos costumam gravar os diálogos telefônicos
com clientes) e das transferências feitas por ele. Só assim será
possível identificar se Jimenez realizou as transações ou se não
passa de um estelionatário com delírios de grandeza.
Em
1999, Jimenez ganhou os noticiários. Preso em Fortaleza depois de
acertar a compra de apartamentos por US$ 1 milhão e não pagar, ele
disse que era ligado ao Cartel de Cali e se dispôs a colaborar com
a CPI do Narcotráfico.
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Remessa
de dinheiro em bacalhaus
Em
depoimento que durou mais de 10 horas, Joaquim Hernando Castilla
Jimenez informou a CPI do Narcotráfico de que o Cartel de Cali
teria investido US$ 720 milhões no Brasil entre 1993 e 1999.
O
dinheiro, segudo ele, ingressou no país, em sua maior parte, por
bancos. Parte dos dólares, porém, chegava em carregamentos de
bacalhau provenientes da Europa e importados por empresas do
Nordeste.
O
dinheiro remetido por banco seguia do Citibank norte-americano para
seis bancos brasileiros, onde bancários teriam ajudado a legalizar
os valores, abrindo contas em nomes de laranjas. Cobravam entre 3% e
5%. Nem a advogada de Jimenez à época, Patrícia Fontenelle, se
atreveu a negar que o cliente era ligado ao Cartel de Cali.
–
Ele faz parte do cartel. E, se levarmos em conta a quantidade de
detalhes e a riqueza de depoimentos, é peixe grande – disse Patrícia
ao jornal O Povo (CE).
Jimenez
informou que o cartel investia na compra de imóveis em seis
Estados, relacionou nomes de doleiros que teriam lavado dinheiro do
narcotráfico colombiano no Brasil e acusou juízes aposentados de
Goiás de importações fraudulentas. Chegou a ser acareado com um
dos magistrados e repetiu que ele trabalhava para o Cartel de Cali.
As
revelações resultaram na abertura de inquéritos por lavagem de
dinheiro no Ceará, em Goiás, no Amazonas, em São Paulo e, agora,
no Rio Grande do Sul. Procuradores gaúchos pediram a colegas uma
investigação em Santa Catarina.
Foragido
e usando a identidade de Raul Castro, procurou em 2001 o
criminalista gaúcho Joel Paladino para fazer sua defesa em um
processo. Ofereceu R$ 200 mil por uma casa de Paladino em Atlântida,
mas sumiu antes de concretizar o negócio e sem pagar os honorários.
Ao
ser preso no mês passado e interrogado sobre os milhões em
investimentos que tentava fazer no Sul, disse aos promotores que são
resultado de “anos
de economia”.
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O
colombiano de 49 faces
Quarenta
e nove carteiras de identidade. Foi isso que mais chamou a atenção
dos agentes federais que prenderam Joaquim Jimenez em Fortaleza em
outubro de 1999.
O
colombiano carregava dólares sem justificativa e acertara a compra
de um apartamento por US$ 1 milhão – à vista e em dinheiro –,
detalhe que levou o dono a avisar a Polícia Federal.
O
rosto de Jimenez em 49 documentos de diferentes países bastou para
que fosse preso e condenado por falsificação ideológica. Nascido
em Barranquilla, já esteve preso em 1998 no Rio Grande do Norte,
onde usava identidades de três países. Carregava um levantamento
de pistas de pouso no Nordeste, que a PF deduz serem destinadas ao
narcotráfico.
Jimenez
sumiu enquanto aguardava julgamento e foi preso depois no Ceará,
pelo mesmo motivo. Cumpriu pena em uma prisão cearense e estava em
regime semi-aberto quando sumiu da prisão, em dezembro de 2000. Só
reapareceu com sua verdadeira identidade no final de fevereiro, na
praia de Perequê (SC), ao ser preso pelo delegado federal gaúcho
Sandro Caron.
A
dica para a prisão foi repassada pela Promotoria de Justiça
Especializada Criminal gaúcha, que investigava o sócio e amigo do
colombiano, José Carlos de Aguiar, com prisão preventiva decretada
por lesar clientes da revenda da Peugeot em Caxias do Sul.
Ao
ser preso e denunciado pelo Ministério Público, Aguiar afirmou que
Jimenez o contratou, por R$ 10 mil mensais, para assessorar negócios
imobiliários e financeiros internacionais – o poliglota Aguiar é
economista. O seu sócio na revenda, Lúcio Winck, também foi preso
e denunciado, dias depois, por estelionato. Ambos dizem desconhecer
relações de Jimenez com o narcotráfico. Ao ser detido, Jimenez
portava uma pistola calibre 380 com silenciador. Não resistiu,
pois, segundo atestam os que o conhecem, detesta tiros.
É
freguês da Polícia Federal desde 1997, quando foi preso acusado de
tentar subornar um delegado da corporação. As autoridades
cearenses investigam se ele usou de suborno para fugir da prisão em
2000, para onde retornou agora.
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Nos planos,
hotel de US$ 1,2 milhão
Sob nome falso, Jimenez pretendia investir no Rio Grande do Sul
Uma
vista espetacular do Vale do Quilombo, tucanos voejando por entre os
pinheiros, veados pastando no fundo da propriedade e muita mata nativa
transformaram o Hotel e Recreio do Chá numa referência aprazível de
Gramado.
Pois
o colombiano Joaquim Castilla Jimenez também sucumbiu aos encantos do
hotel, sua piscina e suas 10 confortáveis cabanas. Tanto que ofereceu US$
1,2 milhão (R$ 2,8 milhões) pela propriedade de três hectares, situada às
margens da rodovia que liga Gramado a Canela, nos altos da serra gaúcha. A
oferta foi no verão passado.
–
Foi amor à primeira vista. O colombiano viu o hotel e me ofereceu aquele
dinheiro no primeiro dia de contatos – recorda Érico Reiman, um dos donos
do Recreio do Chá.
Como
de costume, Jimenez se apresentou com o nome de Raul Castro – a diferença
é que, em vez da identidade argentina, deu sua verdadeira nacionalidade,
colombiana. Foi a Gramado conduzido por um corretor da praia de Mariluz,
onde estava adquirindo uma casa por R$ 200 mil.
Castro
impôs uma condição a Reiman: fazer todo o negócio sem que seu nome
aparecesse e sem perguntas sobre a origem do dinheiro. Deu telefonemas para
um banco de Nova York, usando o telefone do hotel. Falava em usar as cabanas
para transformar a propriedade em motel, com ampliação das piscinas e
reformas.
Os
irmãos de Reiman sugeriram que ele não pressionasse o empresário para
fechar logo o negócio. Mas o dono do hotel insistia em ver a cor do
dinheiro. No dia da assinatura do contrato, o colombiano não apresentou os
dólares. Disse que esperava a liberação de um banco uruguaio.
Reiman
levou uma ducha de água fria no ânimo. Desistiu na hora, mesmo ante a
insistência do colombiano.
–
Pelo número de contatos com bancos, acho que ele realmente tinha o
dinheiro. Algo na operação bancária falhou, e ele teve de desistir –
pondera Reiman.
Colombiano
tentou montar terminal em porto
Joaquim Jimenez pretendia adquirir área às margens do Rio Itajaí-Açu, em
Santa Catarina
Um
terminal de contêineres às margens do Rio Itajaí-Açu era o maior projeto
de Joaquim Jimenez em território catarinense. Além desse empreendimento em
Itajaí, ele firmou contratos para a compra de cinco apartamentos de luxo
(cada um deles ocupando um andar) e um andar inteiro de salas comerciais,
ambos junto ao mar, na badalada cidade de Balneário Camboriú.
Todos
os negócios foram suspensos com a prisão de Jimenez.
Quando
foi detido pela Polícia Federal, em 28 de fevereiro, ele passava o dia numa
pousada em Perequê (praia de Porto Belo), mas residia havia cinco meses no
Tower Beach, um edifício com piscina situado no coração da Avenida Atlântica,
a principal de Balneário Camboriú. Pagava US$ 1,3 mil (R$ 3 mil) para
ocupar o apartamento 1301, com três quartos e uma esplêndida vista frontal
para o mar. Bastava atravessar a rua para pisar na praia.
Passando-se
pelo bem-sucedido empresário argentino Raul Ignácio Castro, Jimenez
circulou nas altas rodas catarinenses, freqüentou bingos e acertou
empreendimentos de vulto. O maior deles era a construção de um terminal
portuário em Itajaí, às margens do rio que corta a cidade. A área é
formada por terrenos baldios valorizados.
Um
dos donos da área é o empresário Artenir Werner, diretor da
transportadora Dalçóquio (que lida com cargas perigosas) e que chegou a
hospedar em casa o homem a quem conheceu como Raul Castro. Dizendo-se
representante da multinacional Davenport SA, Jimenez acertou dois negócios
com Werner: a aquisição dos terrenos para montagem de uma empresa de
importação e exportação e a compra de uma área junto ao mar, no balneário
de Governador Celso Ramos.
Castro
chegou a depositar dois cheques do Citicorp/Citibank de Nova York em favor
de Werner, totalizando US$ 2,1 milhões (R$ 4,9 milhões), mas o valor nunca
foi compensado. Conforme Werner, o colombiano alegou que seu advogado queria
mais documentos sobre os terrenos. Quando o negócio estava por ser fechado,
Jimenez foi preso.
Informado
de que o colombiano prestou depoimentos descrevendo operações de introdução
de dólares clandestinos dentro de peixes, feitas pelo Cartel de Cali no
nordeste brasileiro, Werner levou um susto.
–
Já imaginou do que me livrei? Será que ele queria construir o porto nos
nossos terrenos para fazer uma coisa dessas? – cogitou o empresário, em
entrevista a Zero Hora.
Na
vizinha cidade de Balneário Camboriú, Jimenez firmou, entre outros, um
contrato para a compra de cinco apartamentos no edifício Arthur Fischer,
situado na Avenida Atlântica e em fase de acabamento, avaliados
individualmente em R$ 650 mil. Cada apartamento tem 370 metros quadrados de
área e ocupa um andar, com quatro suítes, churrasqueira, três vagas na
garagem e direito a sauna e piscina no prédio. Tudo de frente para o mar.
Jimenez
acertou também a aquisição do 11º andar inteiro, com quatro salas
comerciais, no Camboriú Business Center, situado a um quarteirão da
Avenida Atlântica. Pelas quatro salas, pagaria R$ 400 mil.
Zero
Hora tentou obter informações sobre o negócio com a Procave, empresa
proprietária do edifício Arthur Fischer e do Camboriú Business Center. O
diretor, Nivaldo Pinheiro, não deu retorno aos pedidos de entrevista.
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CONTRAPONTO
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O que diz
Valmir Pinheiro, advogado de Joaquim Jimenez:
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“Estou
sabendo pela imprensa da apreensão destes documentos no apartamento
ocupado pelo meu cliente. Não vi os contratos e, por isso, não
tenho condições de comentar sobre as propriedades adquiridas. Aliás,
não sei como estes documentos foram apreendidos, já que o mandado
judicial contra o Jimenez era para prendê-lo – ele estava
foragido da Justiça – e não de busca e apreensão de documentos.
Que eu saiba, não existia ordem específica para pegar documentos,
e a ação pode ter sido ilegal. Quanto ao Cartel de Cali, eu não
era advogado do Jimenez na época em que ele depôs na CPI, falando
sobre as ligações do cartel no Brasil. Portanto, nada tenho a
dizer sobre isso. Nem ele, no momento.”
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Noitadas
de bingo e uísque escocês
Raul
Castro – ou melhor, Joaquim Jimenez – manteve uma rotina de boêmio
nos quatro meses em que viveu em Caxias do Sul, na serra gaúcha.
Dormia
durante o dia e varava as noites em boates e bingos da moda. O
quartel-general de Jimenez era um apartamento alugado no Bergman
Hotel, um quatro estrelas do centro da cidade.
Ao
se hospedar, apresentou-se como Raul Castro, advogado argentino,
usando documentos daquela nacionalidade. Ele pagava R$ 1,5 mil
mensais, debitados no cartão de crédito do amigo José Carlos
Aguiar, dono de uma revenda de carros na cidade, que o apresentou
como sócio. O que não deixa de ser verdade: os dois acabaram
presos juntos, acusados de estelionato, quando veraneavam em Santa
Catarina.
No
hotel caxiense, as contas foram pagas rigorosamente em dia, com exceção
do último mês de estadia de Jimenez, setembro de 2001, quando ele
pendurou um débito de R$ 3,5 mil e sumiu da cidade. A dívida
acabou saldada, em jóias, por uma pessoa ligada a Aguiar.
Jimenez
estava sempre acompanhado de uma cearense, apresentando-a como sua
mulher. O casal saía por volta das 20h, circulava por bingos – o
colombiano dizia estar interessado em comprar um estabelecimento,
mas ganhou fama como viciado nas máquinas – ou em danceterias.
Por vezes, cozinhavam no apartamento.
O
falso argentino bebia bem: o scotch Chivas Regal 12 anos. Em média,
uma garrafa por noite, recordam pessoas que o conheceram. O casal
andava sempre sorridente, alinhado e com carro do ano. Foi só na
manhã de 1º de março deste ano que Caxias descobriu a outra face
do emergente empresário Raul Castro, ao vê-lo algemado, estampado
na capa dos jornais.
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