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Seqüestros relâmpagos
assombram gaúchos
Estatísticas
oficiais mostram que pelo menos um delito ocorre a cada dia no Rio
Grande do Sul em 2001
JOSÉ LUÍS
COSTA
Estatísticas
da Secretaria da Justiça e da Segurança mostram que o seqüestro
relâmpago está em ascensão no Rio Grande do Sul.
Em
2001, a média dos primeiros nove meses atingiu 29,6 casos por mês,
ou um por dia. O segundo semestre do ano passado – único período
de 2000 com estatística oficial deste tipo de crime – registrou
21,3 casos mensais. O crescimento de 39% nas ocorrências fez a Polícia
Civil rotular o delito como o crime da moda no território gaúcho.
Os
números absolutos revelam uma preocupante elevação dos ataques no
segundo semestre deste ano. Julho e agosto tiveram 36 registros. Em
setembro, subiram para 39. Se comparados aos mesmos três meses do
ano anterior, representam um aumento de 94,73%.
O
mapa da criminalidade mostra que o seqüestro relâmpago é um crime
metropolitano. De um total de 267 casos registrados entre os meses
de janeiro e setembro de 2001, Porto Alegre responde por 184
(68,9%), com um registro a cada 35,6 horas, em média.
Mas
a incidência pode ser ainda maior, pois nem os policiais acreditam
que a estatística oficial reflita a realidade das ruas.
–
Existem muito mais casos que a polícia não fica sabendo ou que não
é noticiado. O seqüestro relâmpago, assim como o estupro, entra
na cifra negra, aquela margem de crime que a vítima deixa de
registrar, por constrangimento. Preferem encarar o prejuízo como um
golpe de azar na vida – avalia o delegado Alexandre Vieira,
plantonista da Área Judiciária da Polícia Civil.
Levantamento
do Ministério da Justiça revela que o seqüestro tradicional, com
pedido de resgate, como o do publicitário Washington Olivetto, em São
Paulo, é o crime que mais cresceu no Brasil nos últimos dois anos.
Entre os anos de 1999 e 2000, subiu 75%.
Os
números são suspeitos e estão sendo revisados. Apontam
Pernambuco, Rio Grande do Sul e Acre como os campeões de casos.
Curiosamente, São Paulo é sétimo, e o Rio, 19º, ao lado da Paraíba.
Os casos com pedido de resgate, antes raros no Estado, começam a
ser executados por quadrilhas especializadas.
No
início do mês, um suspeito foi preso depois de seqüestrar uma
psicóloga e a filha dela, exigindo da família R$ 4 mil de resgate
pela libertação das duas. O homem foi reconhecido por outra vítima,
uma decoradora, atacada no mês de novembro, da mesma maneira, também
na Capital. Um familiar da decoradora teve de pagar R$ 2 mil pela
libertação de mãe e filha.
Para
agentes, delegados e policiais militares, o seqüestro relâmpago
virou modismo por ser um crime fácil de cometer e rentável. Assim,
pessoas comuns estão cada vez mais na mira dos bandidos que se
contentam em roubar o que a pessoa tem na carteira ou depositado no
banco.
–
Teve uma época que a moda era assaltar motel. Agora, é atacar
motoristas. Eles andam sempre armados e em dupla. Basta pegar uma
pessoa distraída dentro de um carro, levar até um caixa eletrônico
e sacar o dinheiro que ela tiver. Isso demora 20 minutos. Dá para
fazer vários num dia. A polícia pode passar do lado deles na rua e
não suspeitar de nada. Muito menos arriscado do que assaltar um
banco – interpreta um delegado.
Essa
facilidade, na opinião dos policiais, vem atraindo jovens,
aventureiros e amadores, recém-iniciados na criminalidade, que
transformaram o seqüestro relâmpago no “jardim de infância da
escola do crime”.
–
Muitos são jovens sem antecedentes criminais. Não estudam, não
tem trabalho em função da crise econômica e, como são usuários
de drogas, praticam roubos numa busca desesperada por dinheiro –
interpreta o juiz Umberto Sudbrack, da 6ª Vara Criminal do Fórum
Central de Porto Alegre.
O
crime se tornou popular e, nos últimos tempos, já não tem mais
hora para ocorrer. Percebe-se que os seqüestros relâmpagos são
executados com maior freqüência durante o dia.
Isso
pode ser explicado porque, em junho, o Banco Central baixou uma
resolução, determinando o fechamento de terminais eletrônicos
entre 22h e 6h.
Ficaram
livres da medida apenas algumas salas de auto-atendimento instaladas
em locais com acesso controlado como hospitais, aeroportos, entre
outras.
A
iniciativa visava ao racionamento de energia, mas obrigou
assaltantes a modificar o seu modo de atuação. Alguns costumam
ficar rodando com a vítima até o amanhecer ou agem somente durante
o dia.
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Até policiais e
familiares são vítimas
A
ousadia dos bandidos não tem poupado a categoria policial e seus
familiares, cuja preparação pressupõe maior capacidade de prevenção
às ações criminosas. Nos últimos três meses, dois agentes da
Polícia Civil e um oficial da Brigada Militar foram vítimas de seqüestro
relâmpago em Porto Alegre.
Em
setembro, um casal de inspetores foi atacado quando chegava em casa.
O homem ficou preso no porta-malas por quase duas horas, enquanto a
mulher teve de ir a um shopping sacar dinheiro numa agência bancária.
Os bandidos fugiram com a carteira funcional e o relógio do agente.
Não levaram armas porque o casal não portava.
–
É um problema social que atinge todos – lamenta o agente, sem se
identificar.
Em
7 de dezembro, a vítima foi um capitão da Brigada Militar, atacado
no Centro. Por alguns momentos ficou preso no porta-malas do seu
Kadett, com risco de levar um tiro, enquanto os bandidos tiroteavam
com PMs de Canoas, sem saber que o capitão estava no veículo,
amarrado. Os bandidos abandonaram o carro e escaparam sem ser
identificados.
Há
30 dias, a mulher de um escrivão teve o Corsa zero-quilômetro
roubado quando saía da casa de uma amiga no bairro Intercap, na
Zona Leste. A mulher escapou do seqüestro, mas até sexta-feira não
havia recuperado o veículo. Soube que o carro estaria sendo usado
para assaltos e que o celular, levado pelos assaltantes, foi
habilitado em nome de terceiros.
Em
agosto, no bairro Menino Deus, dois ladrões fizeram refém o
estudante de Direito Daniel Konig Pacheco, 20 anos. Filho de
delegado, o rapaz teve documentos, cheques e o relógio roubados
antes de ser libertado num matagal, em Gravataí. Para sorte do
estudante, os bandidos não fizeram saques, pois os caixas eletrônicos
já estavam fechados, e abandonaram o carro no dia seguinte. Mas
deram um prejuízo que revoltou a vítima.
–
Apareceu uma multa de trânsito, registrada no dia e na hora em que
eu estava na 2ª Delegacia da Polícia Civil de Gravataí. Recorri,
e mesmo assim meu pedido foi indeferido. É um absurdo, a segurança
está caótica e ainda temos de passar por isso – reclama.
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Um crime fora do Código
Penal
A
incidência cada vez mais acentuada de seqüestros relâmpagos pelo
país motivou líderes partidários da Câmara dos Deputados a
aprovarem a apreciação, em regime de urgência, de um projeto de
lei que inclui esse tipo de crime no Código Penal.
A
proposta foi apresentada na quarta-feira, em Brasília, pelo
deputado Eduardo Campos (PSB-PE). Poderá fazer parte de um pacote
de segurança pública que está sendo preparado pela Câmara dos
Deputados, a ser votado durante as primeiras sessões de 2002.
–
É uma modalidade nova de crime e não tem tipificação penal, o
que leva o Judiciário a condenar os autores por roubo, com uma punição
mais branda – justifica Campos.
A
pena para roubo, prevista no artigo 157 do Código Penal, varia de
quatro anos a 10 anos de prisão, e multa. Há casos em que os
bandidos são enquadrados no artigo 158 (extorsão), com pena idêntica.
Se
o projeto de Campos for aprovado pelo Congresso, os autores de seqüestros
relâmpagos poderão ficar na cadeia de dois anos até 12 anos.
A
punição aumentaria de acordo com o tempo de duração do crime,
conforme a gravidade da ação, se o autor for conhecido da vítima,
se ela for criança ou adolescente, se tiver emprego de violência,
se for praticado por quadrilha ou bando e se for usado o veículo da
vítima para praticar o crime.
–
Com a tipificação do crime, a punição será mais rigorosa e
assim teremos condições de identificar o perfil desses bandidos e
o volume de incidência desse tipo de crime – assegura o deputado
pernambucano.
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Chefia satisfeita
com trabalho
O
delegado Carlos Santana, chefe de gabinete da Chefia da Polícia
Civil, define como satisfatório o trabalho de combate ao seqüestro
relâmpago.
–
Diariamente, são presas pessoas roubando, extorquindo e praticando
seqüestro relâmpago. Há treinamento de equipes para intervir em
situações de flagrante. Admito que é preciso buscar o aperfeiçoamento
– afirma.
A
polícia não tem o número de prisões de criminosos especializados
em seqüestros. Santana diz que mapas detalhados com locais, horários
e histórico dos casos, elaborados pela Secretaria da Justiça e da
Segurança, fazem parte do planejamento de trabalho e estão ao
alcance de todos os policiais.
–
As informações estão disponíveis. Basta ter interesse e ir atrás
– assegura, rebatendo a crítica de policiais de que não há uma
ação coordenada.
Santana
garante que o Departamento Estadual de Investigações Criminais
(Deic) recebe os mapas e atua na repressão ao seqüestro relâmpago.
Conforme o delegado, os números referentes ao segundo semestre de
2001 estão sendo revisados.
O
comandante do Policiamento da Capital, coronel Tarso Antônio
Marcadella, diz que a Brigada Militar faz o seu papel, patrulhando
áreas com maior incidência:
–
Colocamos homens nesses locais mais visados, que são as grandes
avenidas e os pontos com rede gastronômica.
Marcadella
confirma que os assaltantes passaram a agir com mais freqüência de
dia e diz que foi por sugestão da BM que os bancos limitaram os
saques em caixas eletrônicos durante a noite:
–
As pessoas precisam ficar atentas nessa época do ano.
Principalmente mulheres
com crianças.
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Investigação
policial é deficiente
Um
das razões para a disseminação do seqüestro relâmpago pode ser
a falta de um organismo especializado na repressão. A justificativa
é compartilhada por boa parte dos policiais de Porto Alegre.
–
Se uma quadrilha da Vila Cruzeiro está atuando no bairro Petrópolis,
por exemplo, a polícia da Cruzeiro pode saber quem são os caras,
ter fotos deles, mas, se a vítima registra a ocorrência no bairro
onde mora, os policiais dali não têm a menor idéia de quem sejam
os ladrões – assegura um comissário, que não revela o nome.
A
prisão desses bandidos, em geral, ocorre em ações da Brigada
Militar. Depois, eventuais vítimas são chamadas ou procuram a polícia
para tentar reconhecer, entre os presos, possíveis suspeitos e,
assim, esclarecer os crimes.
–
Fui seqüestrado em 30 de agosto no bairro Menino Deus, e nunca me
deram retorno. E isso que meu pai foi delegado, imagina as outras
pessoas – critica o estudante de Direito Daniel Konig Pacheco,
filho do ex-delegado Jorge Pacheco, falecido há dois anos.
A
elucidação dos casos segue este método deficiente, segundo
reconhecem alguns policiais, porque o efetivo é reduzido, a troca
de informações é precária e, especialmente, em virtude da
reestruturação do Departamento Estadual de Investigações
Criminais (Deic).
Em
meados de 2000, o principal órgão investigativo da Polícia Civil
gaúcha passou a combater somente crimes praticados por quadrilhas
(o chamado crime organizado), transferindo as demais atribuições
às delegacias de bairros.
Também
não chegam ao conhecimento dos agentes os relatórios produzidos
diariamente pelos computadores da Secretaria da Justiça e da
Segurança (SJS), que mapeia locais, datas, horários e dados específicos
de cada ocorrência registrada na Capital.
–
Nunca recebi essa informação. Sabe-se, por experiência, que os
bairros nobres são os mais visados e quem são alguns ladrões,
quando são presos – garante um policial.
O
delegado Lauro Santos, da 15ª Delegacia da Polícia Civil, diz que
a dificuldade de identificar os bandidos se deve ao medo das vítimas
em fazer o reconhecimento. Na semana passada, com ajuda de duas vítimas,
ele esclareceu um caso, nos quais os ladrões inovaram ao agir.
Dois
homens presos em flagrante pela Brigada Militar, Wagner Carlos Gomes
Bones, 19 anos, e Israel Padilha da Rosa, 21 anos (foto), são
suspeitos de atacar durante o dia, contando com a parceria de uma
mulher negra, grávida, com cabelos descoloridos. Ela costuma se
encontrar com a dupla no bairro Bom Jesus, na zona leste da Capital,
após a vítima ser capturada. A mulher entra nas agências para
acompanhar uma das vítimas na hora do saque, enquanto a outra é
mantida dentro do carro. A mulher está sendo procurada por agentes
da 15ª DP.
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O
CRIME
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O
que é seqüestro relâmpago:
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•
Embora não exista tipificação oficial no Código Penal,
o crime tem se caracterizado pela ação de assaltantes
que mantêm a vítima reclusa por curto espaço de tempo,
mediante o emprego de força ou ameaça, para com isso
obter alguma vantagem financeira.
• Em geral, as vítimas estão em carros, atacadas
quando estão chegando ou saindo de casa, de
estacionamentos ou paradas em sinaleiras e cruzamentos.
• Os bandidos costumam roubar dinheiro, documentos e
cartões bancários para fazer saques em caixas eletrônicos,
enquanto a vítima é mantida refém.
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PREVENÇÃO
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• A
maioria dos ataques ocorre quando as vítimas chegam a seu
carro, estacionando o veículo ou dando a partida.
• Os criminosos preferem pessoas desacompanhadas, para
dificultar a possibilidade de reação. Para acompanhar a
manobra, é importante ter por perto uma pessoa que possa
chamar a polícia.
• Ao sair de casa, informe familiares sobre o local, o
destino e o horário em que vai voltar. Se ocorrer
atrasos, avise.
• Mulheres são mais visadas.
• Com o fechamento de caixas eletrônicos entre 22h e
6h, ladrões passaram agir mais de dia.
• Se abordado, não resista, principalmente se o
assaltante portar uma arma. Evite gestos bruscos.
• Não se preocupe em perder bens materiais, mas deixe
claro que você não tem muito dinheiro no banco nem em
casa.
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