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POLICIA E DESCASO ACADÊMICO Marceu
Dornelles Toigo Na
atual conjuntura social brasileira, a violência e a criminalidade permeiam
progressivamente todas as esferas de convívio e classes sociais, conforme
podemos constatar em relatórios governamentais e científicos. Ganhando,
deste modo, destaque em toda a mídia – jornais, revistas e noticiários. O
crescimento da violência e da criminalidade urbana nos últimos anos,
impulsionado por fatores sincrônicos que encontram suas raízes na problemática
sócio-econômica e no contexto histórico e cultural, associado à falência
dos tradicionais modelos adotados pelos sucessivos governos na tentativa de
conter e reprimir ações criminosas, que via de regra mostram-se
ineficientes, tem gerado amplo sentimento de descrença na capacidade das
instituições públicas de reter o crescimento da violência e da
criminalidade e levado a Segurança Pública a tornar-se um dos assuntos de
maior repercussão midiática no País. A
ampla mediatização desse tema traz, como efeito negativo, um aumento
generalizado do sentimento de insegurança na população. Porém, como
aspecto positivo, essa mediatização da Segurança Pública leva à
participação da sociedade civil nos debates sobre o tema, onde a
problematização do papel desempenhado pelas organizações policiais tem
sido uma das principais pautas (NEVES, 2002: p. 1). Simultaneamente
ao alargamento dos debates sobre Segurança Pública, e principalmente sobre
as organizações policiais, que são a representação última das políticas
públicas de segurança junto à sociedade civil, devemos nos ater à questão
da inserção deste tema no circuito acadêmico. Não
parece existir ampla produção científica sobre polícia. A
bibliografia, ao menos no Brasil, ainda é escassa como podemos ver em KANT
DE LIMA, MISSE e MIRANDA (2000).[1]
Mesmo no âmbito internacional, não possui um grande número de produções
sobre o tema, a não ser as produções dos anos noventa, como aponta BAYLEY
(2001: 16), pois há um certo descaso e falta de reconhecimento por parte da
academia em relação a esse assunto. Sendo lembrada somente quando
protagoniza, ou mesmo atua como coadjuvante, em acontecimentos político-históricos
e, em geral enquanto agente repressor. O
mais curioso, segundo BAYLEY, é a falta de reconhecimento assolar até
mesmo os cientistas políticos, visto que Weber já afirmava que o Estado
moderno tem como característica fundamental o monopólio do uso legítimo
da força física no interior de determinado território. BAYLEY (2001:17),
aponta quatro fatores pelos quais a polícia não tem recebido o devido
reconhecimento acadêmico: Em primeiro lugar, o fato de que raramente atuam
como protagonistas em grandes acontecimentos históricos, sendo suas ações
quase sempre rotineiras, além do que, o policiamento é considerado pouco
profissional na maioria dos países. Segundo,
o ato de policiar não envolve nenhum glamour ou prestígio, nem mesmo as
atividades que se referem à investigação – o glamour, a ação, o prestígio
estão presentes em poucos casos, e são circunstantes. Terceiro,
a negligência acadêmica pode ocorrer por considerar o policiamento
moralmente repugnante. BAYLEY assinala que o meio acadêmico tende a
fracassar devido à negação em admitir que os elementos constitutivos
desta prática – coerção, controle e opressão – sejam necessários em
assuntos referentes à sociedade nacional. Como exemplo, considerar aceitável
o uso da força da sociedade contra estrangeiros, como no caso de guerra,
porém, utilizar esta força contra ela mesma constituir-se-ia em algo muito
mais vergonhoso.
Quarto, a disponibilidade de bibliografia e de dados, que na maioria dos países
é escassa e restrita. BAYLEY pondera esse déficit como um sintoma do pouco
interesse da academia em pesquisar a polícia e, por sua vez, a resignação
necessária ao pesquisador na coleta de dados e informações acaba por
desestimular jovens pesquisadores a optar pela polícia como objeto de
estudo.
A partir da escassa bibliografia, uma leitura mínima sobre este tema nos
conduz a conhecer a construção conceitual sobre as instituições
policiais de modo geral, concomitantemente à sua desconstrução por meio
das práticas adotadas por essas instituições. As instituições policiais
tentam, ao longo de sua história, encontrar uma identidade concisa que
otimize conceito e prática.
Ao enveredar pela temática ‘polícia’, devemos levantar algumas questões:
Qual o papel da polícia? Para qual finalidade ela foi criada? A quem deve
servir?
Questões complexas sobre uma instituição, que também é complexa e
“fechada em si”, ou seja, de difícil acesso para investigações de
qualquer propósito. Poucos pesquisadores se aventuraram, mesmo porque não
havia tanto interesse em explorar esse segmento, como hoje em dia, ato falho
devido à importância que a polícia desempenha no convívio social.
BAYLEY e BRETAS destacam, inicialmente, que o estudo das polícias por meio
de um sistema comparativo enfrenta dificuldades em delimitar as
especificidades de sua disposição numa nação enquanto ordenamento
administrativo e jurídico específico, ao passo que possuem um elemento
comum, transnacional, reconhecível nas realidades mais variadas. Para
BRETAS (1997), estudos comparativos de organização policial acabam por
desembocarem em um cipoal de detalhes históricos ou legais, provavelmente
de difícil e pouco útil compreensão (BAYLEY, 1992: 509-546)[2]
Em parte, este problema se origina, como já apontamos, na
dificuldade em determinar o que é a polícia, além de um componente comum
de combate ao crime. Constantemente, ao se referir à polícia, nos
remetemos à imagem comum, que pode ser aplicada amplamente a toda sociedade
moderna, não se considerando as especificidades e universalidades que
existem nestas instituições, dadas suas particularidades históricas e
locais.
Segundo BRETAS (1997: 80) “esta polícia
genérica faz com que seja extremamente difícil consolidar uma definição
do que é a polícia, pois encobre as características específicas e faz o
conceito parecer óbvio”. Assim, sendo a polícia continuamente de fácil
identificação, não existe nenhuma incerteza sobre o que ela é ou sobre o
papel que desempenha.
BRETAS acredita que os estudos sobre as instituições policiais devem se
focalizar às questões referentes à cultura e mentalidade policial, visto
que é possível traçar como se relacionam características mais ou menos
comuns no imaginário e nas ações desenvolvidas cotidianamente pelos
membros destas instituições em vários países. Conforme aponta BRETAS
(1997: 81), “apesar de toda a variação
institucional, porém, parece haver a formação de uma cultura profissional
coletiva, o que David Bayley chama ‘Zeitgeist internacional e
profissional’”.
Assim, segundo o autor,
parece proveitoso sugerir uma passagem do estudo da polícia para
o estudo do policial. Desse modo, por meio de estudos de cultura ou de
mentalidade policial,
é muito mais fácil traçar uma identidade policial, pois é
nesta esfera que se estruturam os significados que moldam a ação policial,
na maioria das vezes independentemente da composição organizacional das
instituições, constantemente reformuladas, sem impetrar conseqüências
eficazes, como já apontamos.
Sem dúvida, a perspectiva defendida por BRETAS para o estudo da polícia é
de fundamental importância para a compreensão destas instituições, ao
passo que se mostra necessário compreender a constituição histórica, política
e social das instituições, e sua ingerência na construção do imaginário
do policial.
Entretanto, nos remetendo novamente ao calor dos debates sobre segurança pública
que hoje permeiam o cotidiano da sociedade brasileira, percebemos a
necessidade de direcionar os estudos sobre instituições policias às
problemáticas mais imediatas, não deixando de lado os estudos mediatos
também de grande relevância.
Destarte, nos remetemos a BAYLEY (2001), que estipula algumas características
tópicas para o estudo das organizações policiais: estrutura, força
(emprego de), função, posicionamento político, treinamento, reputação,
poder, composição social.
Portanto, estando a atenção da opinião pública voltada principalmente
para a operacionalidade das organizações policiais, com razão, faz-se
necessário voltar a atenção também do meio acadêmico para alguns destes
tópicos como estrutura, função, treinamento, reputação e composição
social, sem prejuízo dos demais e tomando o cuidado para não se ater por
demais ao pragmatismo e, deste modo, a análises superficiais.
Na grande luta contra a falência das organizações policiais encontra-se
um enorme problema em assinalar alternativas para solucionar esta problemática.
Segundo BRETAS (1997: 80), usualmente “a
fórmula utilizada tem sido em geral clamar pelo ‘mais do mesmo’, quer
dizer, para resolver a crise são necessários mais policiais, penas mais
duras etc. O principal apoio para
esta formulação vem da própria polícia; se formos buscar o que existe de
comum entre as diferentes formas de polícia, uma primeira característica a
apontar poderia bem ser a resistência a inovações.”
Já se passaram alguns anos desde a publicação do trabalho de BRETAS,
escrito com extrema pertinência, e hoje podemos ver que a resistência a
inovações tem cedido, visto que há alguns grupos nos altos comandos das
organizações polícias (ao menos no estado de São Paulo)[3]
preocupados em remodelar estas instituições, procurando realizar uma certa
interação com a sociedade civil, e com instituições de ensino e
pesquisa. Certamente, as portas não estão escancaradas, mas o interesse em
tomar novo fôlego permite oportunidades para coleta de dados e informações.
De tal modo, partindo primeiramente de diagnósticos setoriais,
apresentam-se possibilidades de apontar alternativas e ações a serem
implantadas paulatinamente no interior destas instituições. Para tanto, só
é necessário deixar o glamour e os pré-conceitos de lado.
Seguindo esta reflexão teórica, esta sendo desenvolvida no Grupo de
Pesquisa e de Gestão Urbana de Trabalho Organizado, uma pesquisa de
referencial teórico sobre esta temática, trabalho este que será
contraposto às demais pesquisas científicas deste grupo que tenham as
organizações policiais como objeto de estudo. BIBLIOGRAFIA: [1]
Neste texto, os autores realizam um levantamento da produção bibliográfica
sobre os temas violência, criminalidade, justiça criminal e segurança
pública, onde podemos verificar que apesar de existirem publicações
importantes sobre o assunto polícia, são deveras escassas em relação
às publicações que abordam os demais assuntos que constituem estas
temáticas. |
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